O governo do Estado publicou no Diário Oficial a abertura da concorrência pública para a construção, manutenção e operação do novo hospital estadual em Viamão. O leilão está marcado para o dia 30 de dezembro, na B3, em São Paulo, com entrega de propostas no dia 23. A instituição será erguida por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP) com prazo de 28 anos, prevendo 350 leitos 100% SUS voltados à média e alta complexidade — com foco em ortopedia, traumatologia, neurologia e cirurgia geral —, sob um investimento estimado de R$ 740,7 milhões ao longo do contrato.
A notícia é boa para Gravataí. Excelente, aliás. Mas, por devoção aos fatos — aqueles chatos que atrapalham argumentos —, é preciso analisar a moeda pelos seus dois lados.
Um lado da moeda traz um alívio urgente e indiscutível.
Outro lado, porém, obviamente adia a chance de ver o Piratini mobilizando esforços para erguer uma segunda estrutura hospitalar de grande porte do Estado dentro do território de Gravataí.
Vamos aos fatos e aos dados.
A assistência hospitalar no entorno da Região Metropolitana há anos atua no limite — para não dizer na UTI. Hoje, o sistema público de saúde de Gravataí opera como o grande para-choque da região.
Dados levantados junto à gestão da saúde do município e à superintendência do Hospital Dom João Becker (HDJB) apontam que entre 15% e 20% dos atendimentos de emergência na cidade são destinados a moradores de municípios vizinhos, como Viamão, Cachoeirinha e Alvorada. Em números absolutos, de uma média mensal de 25 mil atendimentos registrados nas emergências do HDJB e nas UPAs, pelo menos 5 mil pacientes a cada mês vêm de fora do município.
Além disso, a rede local convive diariamente com uma média constante de 20 pacientes retidos nas UPAs ou leitos à espera de transferência via regulação estadual para hospitais da Capital.
Para efeitos de comparação com a demanda regional, estima-se que a proporção leitos/habitante no Brasil e no Estado escancare gargalos históricos. Em Gravataí, onde a rede hospitalar SUS opera com cerca de 206 leitos somados entre o hospital e a retaguarda das UPAs, o volume anual de atendimentos supera o total da própria população da cidade, estimada em mais de 265 mil habitantes pelo Censo de 2022. Estudos apontam que o déficit regional acumulado nos últimos anos consumiu milhares de leitos SUS no país e cerca de mil deles apenas no RS.
Nesse cenário, quando a porta da urgência fecha em Viamão ou faltam médicos na região, a conta estoura em Gravataí. Nenhum paciente é deixado sem atendimento na rede gerida pela Santa Casa (a pandemia é o exemplo existencial) — por vezes à custa de horas de espera e acomodação em poltronas —, pois o SUS é único e não enxerga divisas municipais. Portanto, a criação de 350 leitos de alta e média complexidade a poucos quilômetros de distância alivia diretamente a pressão sobre a emergência gravataiense.
Se a notícia de Viamão é um alento para a urgência do dia a dia, ela traz também uma constatação amarga no plano macroeconômico e político: dificulta — ou praticamente inviabiliza — a participação do Governo do Estado, mesmo que na modelagem da PPP, na construção de um segundo hospital estadual em Gravataí no curto e médio prazo.
Esperar que o Estado, após licitar um complexo quase bilionário em Viamão, assuma outra empreitada de porte semelhante em uma cidade vizinha nos próximos anos é ignorar a física financeira e política da administração pública.
Ao fim, resta a Gravataí torcer pela evolução do Bárbara Maix, o projeto de novo hospital da Santa Casa. Hoje em stand-by.





