Quando o prefeito Luiz Zaffalon (PSD) apresentou seus candidatos no aniversário que, na prática, virou comício em Gravataí, escrevi que a política exige mais pragmatismo do que coração de mãe. A decisão anunciada nesta quarta-feira pela prefeita Jussara Caçapava (Avante), com exclusividade ao Seguinte:, segue exatamente a mesma lógica em Cachoeirinha.
Ao lado do vice-governador Gabriel Souza (MDB), do pré-candidato a vice-governador Ernani Polo (PSD) e tendo como articulador o ex-deputado estadual Dimas Costa (PSD), Jussara oficializou o apoio de seu grupo político à candidatura governista ao Palácio Piratini.
É uma decisão administrativa. É uma decisão eleitoral. E é uma decisão de sobrevivência política.
Na política real, quase nunca as coisas acontecem por apenas um motivo. Há quem procure ideologia. Há quem procure afinidades partidárias. Há quem procure simbolismos. Normalmente a resposta é mais simples. Procura-se quem abre portas.
E poucas figuras hoje possuem mais portas abertas no Rio Grande do Sul do que Eduardo Leite e Gabriel Souza.
A própria justificativa de Jussara aponta nessa direção.
– O governo Leite tem nos ajudado muito, principalmente nos projetos para obras e enfrentamento a enchentes – disse.
A prefeita fala de uma parceria concreta. Um dos exemplos mais evidentes é o Arroio Passinhos. A obra, fundamental para a prevenção de enchentes em Cachoeirinha, tem recursos federais, mas enfrentava entraves ambientais até que a articulação junto ao governo estadual ajudou a destravar o processo.
Não por acaso, no centro dessa engrenagem aparece novamente Dimas Costa.
O mesmo Dimas que já defini como uma espécie de ‘embaixador’ de Eduardo Leite em Gravataí. O mesmo Dimas que Jussara já chamou de “embaixador” em Cachoeirinha. O mesmo Dimas que, meses atrás, recebeu da prefeita o apoio para sua candidatura a deputado estadual.
A política raramente trabalha com favores. Trabalha com construção de relações. E a relação construída entre Dimas, Jussara e o governo estadual agora produz mais um resultado.
Antes mesmo do impeachment do ex-prefeito Cristian Wasem (União Brasil), Dimas já havia levado à prefeita um convite para ingressar no PSD. O convite tinha a assinatura política do próprio governador.
A mudança partidária não aconteceu. Os prazos eleitorais e a eleição suplementar esfriaram a conversa. Mas não esfriaram a aproximação.
Se, como escrevi recentemente, o aniversário de Zaffa serviu para dar a largada regional à candidatura de Gabriel, a fotografia desta quarta-feira mostra que a campanha começa a ganhar musculatura também em Cachoeirinha. E aí entra outro componente importante.
Dias atrás, ao participar do lançamento da pré-candidatura de Cleo do Onze (MDB) a deputado federal, Gabriel produziu uma fotografia que gerou desconforto no entorno de Jussara. Cleo é aliado do ex-prefeito Cristian Wasem. Que, por sua vez, foi o principal adversário político do grupo que hoje governa Cachoeirinha.
Na ocasião, escrevi que aquela agenda poderia dificultar uma aproximação entre Gabriel e Jussara. O que aconteceu agora foi exatamente o contrário. Gabriel neutralizou qualquer ruído.
Lembrou ao Seguinte: que apoiou Jussara na eleição suplementar. Gravou vídeo. Entrou na campanha. Ficou ao lado da então candidata quando ela enfrentou Claudine Silveira (PP), nome apoiado por Cristian.
A mensagem que resta é que, antes de qualquer aproximação com adversários de Jussara, existe uma relação política construída com a prefeita. E a prefeita respondeu.
Mas seria ingenuidade acreditar que a decisão passa apenas por gratidão ou lealdade.
Há um elemento que paira sobre toda política de Cachoeirinha hoje. O TRE. Jussara foi cassada em primeira instância e aguarda julgamento dos recursos. Não existe garantia de manutenção do mandato. Não existe garantia de cassação. Existe aquilo que defini como a ‘loteria de toga’.
Ninguém admite publicamente que isso pese em decisões políticas. Mas ninguém ignora. Fato é que, ser aliada do governador e do vice-governador, nunca atrapalhou a vida de nenhum prefeito. Principalmente em uma cidade que pode, eventualmente, voltar a enfrentar uma eleição suplementar.
Mas reduzir a decisão a esse aspecto também seria simplificar demais.
Existe uma questão objetiva de governo: Leite permanece no comando do Estado até dezembro. E talvez nenhum governador recente tenha acumulado tanta capacidade de investimento quanto a atual gestão, beneficiada por circunstâncias excepcionais após a enchente de 2024, pela suspensão da dívida com a União e por receitas extraordinárias oriundas de reformas e privatizações.
Prefeitos precisam de obras. Prefeitos precisam de entregas. Prefeitos precisam mostrar resultados. E é exatamente por isso que a parceria com Gabriel tem valor político.
Mas há outro aspecto interessante nessa fotografia. Ela não fecha portas. O grupo de Jussara continua praticando aquilo que costumo definir como pragmatismo implacável.
A prefeita apoia Gabriel. O filho Paulo César Agliardi, o Tetê, é presidente estadual do Avante e negociou com a direção nacional a liberação para Jussara apoiar Gabriel, mesmo com a sigla na coligação de Juliana Brizola (PDT) no RS.
O grupo também apoia Paulo Pimenta (PT) para o Senado.
O vice-prefeito Mano do Parque (PL) permanece alinhado a Luciano Zucco (PL).
E o influente Cláudio Ávila (Avante), assessor especial de Jussara, continua transitando com desenvoltura pelos ambientes políticos próximos ao PDT de Juliana Brizola.
Parece ‘Dos Grandes Lances dos Piores Momentos’. Mas é a política municipal funcionando como ela realmente funciona.
Prefeitos raramente apostam todas as fichas em uma única mesa. Mantêm portas abertas. Constroem pontes. Preservam alternativas.
E Gabriel compreende isso talvez melhor do que qualquer outro pré-candidato. Assim como Eduardo Leite em 2022, o vice-governador aposta numa estratégia que chamo de extremo-centrismo.
Busca apoios à direita. Busca apoios à esquerda. Busca prefeitos de diferentes partidos. Busca lideranças que não necessariamente estarão no mesmo palanque nacional. É uma candidatura construída menos sobre identidade ideológica e mais sobre capacidade de convergência. Sabe ele que sua eleição é no primeiro turno. Se chegar ao segundo, leva os votos do lado da ferradura ideológica que ficar de fora: o lulismo e o bolsonarismo.
O apoio de Jussara encaixa-se perfeitamente nesse modelo.
Ao fim, Gabriel ganha uma prefeita de uma cidade estratégica da Região Metropolitana. Jussara fortalece sua conexão com o governo estadual. Dimas reforça sua posição como articulador regional. E Cachoeirinha produz mais um capítulo da sua permanente novela política.
Uma novela que mistura enchentes, obras, eleições suplementares, cassações, alianças improváveis e aquilo que chamo de loteria de toga.
No fundo, a fotografia desta quarta-feira talvez diga algo bastante simples. Na política, quase sempre vence quem entende que governar é escolher.
E escolher, muitas vezes, significa abrir algumas portas sem fechar as outras.
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