3º NEURÔNIO

O Manifesto do Cavalo

Ilustração por Santiago

Recomendamos o artigo do escritor gaúcho Ernani Ssó. O Manifesto do Cavalo é uma iniciativa do Grifo, jornal de humor de Porto Alegre


Com a palavra, o cavalo. O cavalo é o nosso profeta. Ao jejuar sobre um telhado, cercado pelo cenário do descaso e da ganância, ele viu com clareza o que não via no chão.

Com os olhos no horizonte de água, o cavalo pensou: quem será o Goya que traçará os desastres desta guerra? Haverá um Picasso para esta Guernica? Não, o Romero Brito não, por favor. A falta de vergonha deve ter algum limite. Acho que o serviço sujo vai sobrar para os chargistas, que são os que têm este país na ponta do lápis.

Em todos os dias do seu jejum, o cavalo não viu os culpados. Deviam estar escondidos na grande imprensa. Mas depois, quando tinha sido resgatado, ouviu um deles dizer: não é hora de apontar os culpados. O cavalo entendeu: apontar os culpados é olhar para trás, aí há o perigo de virar estátua de sal – e estátua de sal não vota.

Não foram fáceis os dias no telhado. Além do jejum, era chuva no lombo, dia e noite. Chuva e pensamentos sinistros: o mercado se autorregula? Sim, pela lei do mais forte. Nunca viu filme sobre a Máfia?

Cada pingo no telhado martelava: privatiza, privatiza, privatiza. Esqueça a ecologia, isso é papo de gente chata, vamos liberar geral. O fim do mundo é um detalhe, não pode atrapalhar os negócios. Deixe tudo com a mão invisível do mercado: ela vai multiplicar o pão e o peixe, ela vai transformar a água em vinho. Não é verdade que o estado mínimo é o máximo para os rentistas.

Mas não é que choveu demais? Daí que os aliados da mão essa pediram penico para o Lula, mas com pose de quem cobra uma dívida antiga. Pretendem, com a total ajuda do estado mínimo, reconstruir o desastre que criaram. Com um bom lucro, já que não há almoço grátis, como gostam de dizer.

Mas o cavalo pensa, amargo: vão continuar assim? Vão calcular os lucros até o fim? Onde vão gastar a grana? Em Marte? Será que não sabem que uma hora dessas não haverá mais ninguém para receber fake news pelo Whats?

No galpão, depois do resgate, o cavalo se viu chamado de Caramelo. Coitado, enfim perdeu a paciência: Caramelo é a mãe! Eu sou alazão.

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