A transferência dos restos mortais de Cônego Pedro Wagner, um dos nomes mais influentes da história religiosa e política de Gravataí, abriu uma fissura inesperada entre comunidades católicas de duas cidades que compartilham raízes comuns.
O traslado para Glorinha — antigo distrito gravataiense —, autorizado pela Mitra e pela Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria, ocorre neste domingo (26) em meio às celebrações dos 150 anos da presença católica no município vizinho, mas não sem resistência.
Figura central da Igreja Matriz Nossa Senhora dos Anjos ao longo de quase meio século, entre 1913 e 1958, o cônego extrapolou os limites do altar. Sua atuação influenciou diretamente prefeitos e decisões políticas entre as décadas de 1920 e 1960, consolidando um protagonismo raro para um sacerdote na história local.
Agora, cinco décadas após sua morte, em 1975, a decisão de transferir seus restos mortais para a Igreja Matriz de Glorinha reposiciona simbolicamente esse legado e levanta questionamentos.
A iniciativa partiu do pároco de Glorinha, padre Manoel Scheimann da Silva, que há nove anos atua no município e se dedica à pesquisa histórica. Biógrafo do cônego, o historiador de formação afirma que o traslado é, antes de tudo, um gesto de reconhecimento.
– Pesquiso a história do Cônego Pedro Wagner há anos. Quando comecei, foi difícil inclusive descobrir onde ele estava sepultado – disse ao Seguinte:, nesta quinta-feira.
Segundo o sacerdote, Wagner foi escolhido como figura-símbolo dos 150 anos da comunidade católica local.
Scheimann sustenta que a relação do cônego com Glorinha é profunda e concreta.
– Ele construiu duas matrizes aqui, ainda em 1915, e foi o idealizador da atual igreja. Lançou a pedra fundamental em 1949. Serviu Glorinha por 40 anos. Estamos valorizando essa memória – argumenta.
O processo de traslado começou formalmente em 2025, quando se completaram 50 anos da morte do sacerdote. A autorização “com louvor” do cardeal Dom Jaime Spangler veio após trâmites do padre Scheimann junto à Arquidiocese de Porto Alegre e à Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria, responsável pelo mausoléu onde os restos estavam sepultados, no cemitério municipal de Gravataí.
Cônego Pedro Wagner morreu como capelão do Hospital Dom João Becker, fundado pela congregação.
A programação envolve uma série de ritos religiosos que conectam os dois municípios. O início ocorre domingo, com o Terço Mariano na Paróquia Nossa Senhora dos Anjos, em Gravataí, seguido por um cortejo com procissão motorizada que percorre comunidades do interior até chegar a Glorinha.
A acolhida definitiva dos restos mortais ocorre na terça-feira, com missa solene presidida por Dom Bertilo João Morsch, integrando as comemorações jubilares. A proposta, segundo Scheimann, é “conectar passado e presente” e permitir que a comunidade mantenha viva a história do sacerdote.
A mobilização em Glorinha tem sido expressiva. Sessão recente na Câmara de Vereadores, que homenageou os 150 anos da presença católica, reuniu plenário e galerias lotados.
– Isso fortalece nossa memória e nossa fé – afirmou o pároco.
Católicos de Gravataí surpresos
Se em Glorinha o clima é de celebração, em Gravataí o sentimento é de desconforto e, em alguns casos, indignação.
O padre Léo Hastenteufel, da Paróquia Nossa Senhora dos Anjos, afirma que a comunidade local foi surpreendida.
– Recebemos a informação na última sexta-feira. Foi uma surpresa – disse.
Entre os fiéis, a principal crítica recai sobre a falta de diálogo.
– Soubemos nesta segunda. Nos grupos da igreja, há muita contrariedade. Ele viveu mais de 50 anos em Gravataí – afirma Julinho Barbosa, técnico contábil e fotógrafo.
A rapidez do processo também incomoda.
– Não sei se adianta buscar socorro no Ministério Público – completa, evidenciando a sensação de que a decisão já está consolidada.
O peso simbólico da perda não passa despercebido. O nome de Cônego Pedro Wagner está eternizado na rua em frente à Igreja Matriz de Gravataí.
Ao fim, e como “o segredo de aborrecer é dizer tudo (Voltaire)”, recomendo aos fiéis a pesquisa da historiadora Vera Jane Maroneze, publicada sob o título “O crime do Padre Pedro” na histórica obra Raízes de Gravataí, disponível online.
Pode servir como um habeas corpus para iluminação de consciências.






