A temporada de campanha costuma ser fértil em frases de efeito nas redes antissociais, mas poucas sínteses revelam tanto a tática da extrema-direita local quanto aquela cometida recente pelo vereador e candidato a deputado estadual Policial Evandro Coruja (PL). Em vídeo gravado para as redes sociais, dirigindo-se ao eleitorado conservador de Gravataí, ele decretou: “Atenção Gravataí: você que vota na direita, você que vota 22, candidato a deputado estadual aqui de nossa cidade, só tem um: Policial Evandro Coruja, 22001, do Bolsonaro. O resto é fake news e gambiarra. Direita de verdade e cadeia na vagabundagem”.
A declaração não é um ruído casual; é a demarcação explícita de território. Ao carimbar os concorrentes locais como “fake news e gambiarra”, Coruja reivindica, mais uma vez, o papel de único herdeiro legítimo do bolsonarismo na aldeia. E, para entender como essa tática se sustenta — e onde ela pode esbarrar —, é preciso analisar a construção da sua persona, os bastidores da direita gravataiense e o próprio ecossistema do bolsonarismo instagramável.
Como já analisei em uma série de artigos no Seguinte:, Evandro Coruja construiu sua trajetória na Câmara Municipal evitando a ‘direita líquida’. Nunca foi afeito ao pragmatismo de ocasião que faz políticos posarem com o governador Eduardo Leite (PSD) pela manhã e compartilharem vídeos de Nikolas Ferreira (PL) à tarde. Policial federal, ex-segurança de Jair Bolsonaro e amigo do candidato a senador Ubiratan Sanderson e da família Bolsonaro, Coruja é o ‘bolsonarista-raiz’ institucional. Não só por mero marketing, mas por acúmulo e coerência ideológica; seja isso bom ou ruim.
Essa construção ganha contornos performáticos intensos em seus vídeos recentes de campanha.
Na pauta de costumes e provocação: pega detergente Ipê para lavar uma camiseta com a estampa de Lula e “tirar a sujeira”.
Na devoção ao ‘mito’: celebra o aniversário do presidiário Jair Bolsonaro sob som melancólico de piano, anunciando que o ex-presidente está “em um hospital, lutando pela vida”.
Na guerra cultural: reage a esquetes ironizando o ‘socialista vegano’ de cabelo colorido que faz greve de fome por Maduro e debocha em quiz sobre o “dicionário esquerdista” e as críticas ao “imperialismo”.
No discurso de segurança e estética militar: grava vídeos em cemitério oferecendo ‘condomínio’ para “vagabundos” que “enfrentam as forças policiais”, além de aparecer camuflado montando armas e brincando de dar tiros.
E, finalmente, no ‘selo de autenticidade’: na estética da medalha do “morrível, imbrochável e incomível”, exibe gravação ao lado do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), em que o filho do ex-presidente pede votos para o seu número, 22001, consagrando-o como “O 01 do Bolsonaro”.
Porém, por trás da carcaça do guerreiro antissistema, subsiste a clássica pragmática da política local. Se Coruja critica abertamente o governador Eduardo Leite (PSD), poupa com rigor o prefeito Luiz Zaffalon (PSD) — fã de Leite e de quem Coruja é base aliada.
Na Câmara, ajudou Zaffa a aprovar projetos polêmicos, como a reforma da previdência e o fim da gratuidade do transporte coletivo para idosos entre 60 e 64 anos. Em troca, figurou entre os parlamentares mais prestigiados pelo governo: garantiu a implementação da sua escola cívico-militar e a criação do cartão para compra de material escolar — este último posteriormente cancelado por apontamentos do Tribunal de Contas do Estado (TCE).
De performáticos a envergonhados — e a caricatura
Quando Coruja classifica os adversários a Assembleia Legislativa como “fake news e gambiarra”, mira em alvos bem definidos dentro do espectro conservador e de centro-direita de Gravataí.
Há o ‘bolsonarismo performático’ de Bombeiro Batista (Republicanos): vereador mais votado nas últimas eleições e colega de base de governo, Bombeiro surfa a indignação digital, participa de atos por anistia e posta fotos com o candidato a governador Luciano Zucco. No entanto, para o núcleo duro do bolsonarismo, falta-lhe densidade ideológica. Registros de proximidade com o governo Leite — incluindo recepção em helicóptero — e a presença de assessores/ideólogos com histórico de disputa de eleição majoritária pelo PSOL alimentam desconfianças nos grupos de WhatsApp da ‘caserna’.
Há o ‘bolsonarismo envergonhado’ da oposição: o ex-prefeito Marco Alba (MDB) encarna o antipetista pragmático. Aquele que diz ter votado em Bolsonaro “porque gosta do Paulo Guedes”, mas colocou como vice em 2024 um político do PDT (Thiago De Leon) altamente crítico ao ex-presidente.
Costeando o alambrado, há o ‘extremo-centrismo’: Dimas Costa (PSD), ‘embaixador’ do governo Leite no município, representa tudo aquilo contra o qual o eleitor de extrema-direita reage visceralmente.
Ao fim, a estratégia de Coruja em reivindicar a exclusividade da marca “22” faz sentido no cálculo eleitoral da Gália gravataiense: como defendia Eduardo Bolsonaro (sobre a tática da família em lançar candidato à presidência e deixar Tarcísio de Freitas no cantinho do castigo em São Paulo), melhor ser o primeiro em uma aldeia do que um coadjuvante apagado. O problema começa quando a busca desesperada pela validação das redes sociais cruza a linha da representação política e descamba para o grotesco.
Recentemente, veio a público um áudio vazado no qual o deputado federal bolsonarista José Medeiros (PL-MT), em conversa privada com o prefeito de Diamantino (MT), Chico Mendes, soltou a seguinte pérola sobre sua própria base de apoio: “Você sabe que o meu eleitor é aquele eleitor que ora para alienígena e bebe detergente, né? Esse eleitor, Chico”.
Embora Medeiros tenha tentado amenizar o desgaste dizendo que a fala era “uma piada antiga tirada de contexto”, a revelação escancara o cinismo de parte da elite política em relação ao seu eleitorado mais radicalizado.
A ironia é inevitável: ao pegar um vidro de detergente Ipê para ‘lavar a sujeira da esquerda’ ou gravar vídeos no cemitério, Coruja encarna com perfeição o personagem político talhado para encantar justamente esse perfil de eleitor ao qual o deputado se referia sem nenhum respeito.
Em sua cruzada para provar que é o único “direita de verdade” e que “o resto é gambiarra”, Evandro Coruja corre o risco inerente ao ‘bolsonarismo-raiz’ das redes antissociais: o de passar do ponto na estridência e ver sua candidatura ser tragada pelo folclore político. Afinal, quando o discurso público se resume a dar tiros camuflado, oferecer cova em cemitério e brincar com detergente, a linha que separa a representação ideológica da pura caricatura deixa de existir. E o eleitorado, mesmo o mais radicalizado, pode um dia cansar do teatro.





