3º NEURÔNIO

O século vinte acabou agora

“O novo século traz-nos como grande novidade as chamadas democracias populistas, que pretendem ser as verdadeiras democracias”. Compartilhamos o artigo do José Sócrates, ex-primeiro-ministro de Portugal, publicado pelo ICL Notícias


Alguém fez a interessante observação de que o século vinte acabou agora, em 2025. Em janeiro, a guerra da Ucrânia fará quatro anos — mais tempo que a guerra entre a Alemanha nazi e a Rússia (1941–45). A Europa, que se fez pela paz, agora fala de guerra, de armas e de medo. O cenário político foi virado do avesso — os Estados Unidos, que antes se ocupavam da guerra, agora querem fazer a paz; a Europa, que antes falava de paz, agora quer ajudar a Ucrânia a manter a guerra.

Uma guerra à distância, claro, uma guerra que não envolva os seus homens nem o seu dinheiro — a não ser que os fundos congelados do povo russo possam ser usados para financiar a guerra contra eles, os seus legítimos proprietários. Nada de tropas no terreno, nada de riscos, só palavras: é preciso continuar a matança.

E, no entanto, para quem está familiarizado com a retórica política, ela já deixa transparecer a incômoda realidade — quatro anos depois do início da guerra, nem a economia russa sucumbiu às sanções econômicas do Ocidente, nem Putin foi derrubado, nem a máquina de guerra russa colapsou. Resta ao Ocidente gerir a derrota — por forma a que não pareça uma derrota. Talvez o século vinte tenha acabado mesmo.

Este ano, e pela primeira vez num documento estratégico, os Estados Unidos criticam duramente a Europa — por estar demasiado perecida com eles. A União Europeia une os países europeus (como os Estados Unidos unem os seus estados) ameaçando a “liberdade individual e a soberania”.

Em síntese, a América, que veio para o continente europeu no final da Segunda Guerra Mundial como garante de pacificação, acha agora que a União Europeia está demasiado unida, limitando as identidades nacionais e a autoconfiança. Portanto, para os americanos, a solução de fundo para a Europa está na promoção dos nacionalismos europeus e na eliminação da sufocante regulação do mercado único. O século vinte acabou mesmo.

Talvez a América Latina veja esta mudança de século de forma menos abrupta. Afinal, a doutrina Monroe existe há muito. Mas se esta nasceu para prevenir aventuras imperialistas europeias no hemisfério ocidental, tem agora um desenvolvimento interessante a que chamam de “corolário Trump”, concentrando-se na hegemonia do comércio regional: “Negaremos a competidores não ocidentais a capacidade (…) para possuir ou controlar ativos vitais estratégicos no nosso hemisfério.

Compreenderam bem? Portanto, as coisas são assim mesmo: o comércio da América Latina com a China pode afetar a segurança dos Estados Unidos. Quanto ao continente africano, a estratégia dedica-lhe meia página. Meia página. O suficiente para esclarecer que os Estados Unidos devem “favorecer parcerias com países de confiança comprometidos com a abertura dos seus mercados aos produtos e serviços americanos”. O século vinte do livre comércio acabou.

Vemos agora melhor que, apesar de tudo, o século vinte foi também o século das democracias. As democracias ganharam. Ganharam a guerra mundial e ganharam a guerra fria. Agora, dizem para aí, que, para além de democracias, têm também de ser liberais, como se alguma vez tivessem existido democracias não liberais — isto é, regimes democráticos sem proteção das minorias, incluindo a menor delas, a do indivíduo. Este novo século traz-nos como grande novidade as chamadas democracias populistas, que pretendem ser as verdadeiras democracias, construídas em nome do povo genuíno e puro.

Os apoiantes de Trump dizem que ele foi eleito para defender a democracia americana, e até Bolsonaro, quando se candidatou e ganhou, também o fez em nome da maioria do “povo de bem,” povo esse que era tão bom, tão bom, que viria a tentar mais tarde recorrer à violência para impedir a vitória eleitoral do “povo do mal”. A novidade deste novo século é que todos defendem a democracia, os populistas defendem a democracia, Trump defende a democracia, Bolsonaro defendia a democracia, Victor Orban defende a democracia, e com tantos defensores da democracia, o paradoxo é que talvez a democracia não sobreviva a tantos defensores. O século vinte acabou agora.

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