Se Trump decidisse invadir a Europa hoje, só para se divertir, teríamos um debate interminável sobre os limites do novo fascismo. Tudo acontece e passa a ser discutido como pautas de controvérsias porque o mundo ficou covarde. Trump existe como consequência desse alarido e dessa covardia.
O mundo debate coisas e pessoas e ouve especialistas. E os especialistas já estão dizendo o que diziam por antecipação, que o ataque à Venezuela é um crime de agressão pelas leis internacionais. O que não significa nada, porque o conceito de agressão internacional se degrada, mesmo que mude a vestimenta, desde antes de Hitler.
E só os especialistas sabem de leis internacionais e só eles respeitam leis internacionais. O mundo que poderia deliberar alguma coisa, por instituições esvaziadas e sem sentido, não delibera mais nada por lei alguma.
A ONU não delibera, se delibera não tem poder para impor o que decide. Ninguém sabe dizer hoje os nomes de dois líderes relevantes da Europa. Ninguém sabe o nome do primeiro-ministro britânico.
O mundo é todo ele uma rede social, já a partir dos seus governantes. Todos são o que chamavam um dia de caixa de ressonância recíproca, quase todos na mesma modulação. E não há uma voz, uma só, que nos inspire como guia.
Todos reproduzem o que Trump diz sobre Ucrânia, Gaza, China, Groenlândia, mas não há uma voz mais alta entre os que poderiam se opor a Trump. A porção menos covarde do mundo, a que age e forma flotilhas na tentativa de ver o mundo reagir à matança em Gaza, essa não consegue quase nada.
Flotilhas são miragens invisibilizadas por governos e imprensa, porque a grande imprensa continua poderosa. Há no Brasil, incluindo a imprensa, todas as reproduções possíveis do que existe de mais fascista e grotesco no mundo da política, da arte, da música e do mundo dos influencers.
Mas não há nada, no país da Amazônia, que possa se equivaler, como expressão jovem, à bravura de uma Greta Thunberg. Os velhos covardes do Brasil envelheceram os jovens. O golpe contra Dilma, a caçada a Lula, a ascensão de Bolsonaro, tudo resultou de aglomerados de covardias.
É por covardia que aceitamos como parte da democracia a possibilidade de retorno do fascismo ao poder. Por covardia, deixamos que as coisas, todas as vastas coisas complicadas, fossem resolvidas por Alexandre de Moraes e por Lula.
É por covardia que, a partir dos gestos mais recentes de Trump, parcela das esquerdas passou a ver o fascista como amigo do Brasil. Que o recuo parcial nos tarifaços nos garantiria segurança e nos confortava.
Por covardia, nesse mundo entregue à opinião dos especialistas que se misturam a influencers com gritos de cantores sertanejos ao fundo, debateremos por meses se Trump passou a linha do aceitável, se organismos internacionais podem fazer alguma coisa e se os refugiados venezuelanos deverão ser mandados de volta da fronteira com o Brasil.
E assim, nesse mundo covarde, sumirão em gavetas dos tribunais americanos os crimes de pedofilia de Trump. Pouco saberemos da continuação do genocídio em Gaza.
O fascismo estará excitado nesse começo de ano, e nada nos promete uma reação à altura da excitação. Porque a covardia orienta as ações humanas nas grande e nas pequenas questões, e essa é a marca do século 21.
Um desmentido a essa realidade, por um conjunto de falas, gestos e ações que subvertam as verdades incômodas do século 21, teria que juntar todos os não acovardados, dispersos e desorientados, como aconteceu quando o mundo enfrentou o nazismo.
Já não existem mais as figuras mundiais que poderiam nos dizer o que fazer. Não existe mais a imprensa americana que denunciou e conteve as loucuras da guerra do Vietnã. O Washington Post do Watergate é de Jeff Bezos. Não existe mais a grande imprensa brasileira de Mino Carta, e só nos restam as seis fontes de Malu Gaspar.
Os homens que fazem foguetes também fazem jornais. As celebridades internacionais não nos acodem, como nos acudiram nas grandes guerras. A ciência poderia nos salvar, com seus avanços imparáveis, mas a ciência que gera inteligências artificiais não enfrenta poderosos e covardes. E a ciência e a democracia não curam mais, como prometeram um dia, as doenças sociais coletivas.
Até os antigos liberais sumiram. Não temos mais nada que nos salve, nem a possibilidade de contraponto do mundo islâmico e árabe, se até o Irã foi contaminado pela força das conspirações virtuais. E era muita ingenuidade ficar dependendo do Irã e de Maduro.
Estamos diante da imagem do venezuelano sequestrado, com os olhos vendados e uma garrafa de água mineral nas mãos algemadas. Tudo de difícil que eles fazem parece singelo e fácil. Maduro foi pego como um Saddam no buraco.
Pelo menos deixamos de dizer que eles não passarão. Eles sempre passam, roubam as flores e pisoteiam nossos jardins, mesmo que até os nossos jardins nunca tenham existido e sejam em sua maioria apenas imaginários.
Covardia deveria ter sido a palavra de 2025, se os que fazem essas escolhas tivessem a coragem de elegê-la.






