RAFAEL MARTINELLI

Poderes em choque: crise envolve prefeito e presidente da Câmara; A III Guerra de Gravataí e o Ser Político

A III Guerra Política de Gravataí – Zaffa x Alba, pós Abílio x Oliveiras e Bordignon x Stasinski – tem suas consequências também dentro da Câmara de Vereadores: o prefeito Luiz Zaffalon (PSDB) e o presidente do legislativo, Alison Silva (MDB) restam em choque institucional.

Institucional porque pessoalmente já se cumprimentavam – quando isso acontecia – de mão mole. Em reunião da base governista, no Gabinete do Prefeito, antes ainda do rompimento entre o prefeito e o ex-prefeito e seu ‘Grande Eleitor’, Marco Alba (MDB), chegaram a ter uma discussão em alto volume e batidas na mesa. Após a deflagração da III Guerra Política, com Alison exercendo o papel de um dos generais de divisão do ex-prefeito, a relação piorou.

A crise institucional chegou à sessão legislativa da noite desta quinta-feira devido ao presidente da Câmara não ter sido chamado para falar na inauguração da creche da Costa do Ipiranga, no sábado, e na assinatura da ordem de início das obras do posto de saúde do Barro Vermelho, ontem. Nos bastidores, o vereador também reclamou sobre a situação ser alvo de deboches de parlamentares da ‘Situação A’, a ‘base do Zaffa’.

Quem fez a frente na defesa de Alison foi o vereador de oposição Cláudio Ávila (União Brasil).

– Não chamar o presidente para falar é calar um Poder – disse sobre o legislativo, que, pelos critérios de proporcionalidade, representa 100% dos votos nas urnas.

Em sua fala, Ávila não permitiu aparte do líder do governo Alex Peixe (PTB).

– Seu governo não dá voz aos vereadores, não darei ao senhor, que representa esse governo – disse, alertando, como presidente da Comissão de Constituição e Justiça, para a necessidade de o governo ter relações institucionais com a Câmara para agilizar a votação de projetos.

A CPI é uma demonstração dessa desarticulação – disse, referindo-se à CPI das Fake News, cuja operação governista foi frustradas para evitar blindar aliados que podem ser alvo das investigações; leia sobre a polêmica em Parecer garante legalidade da instalação da CPI das Fake News na Câmara de Gravataí; A próxima ‘novela das sete’ e links relacionados no artigo.

Alison confirmou o constrangimento e, após receber solidariedade de oposicionistas e governistas, lançou um desafio aos vereadores.

– Basta nenhum vereador falar quando o presidente não for convidado – disse, sabedor que parlamentares da ‘Situação A’ tem se pronunciado em cerimônias.

Escrevi ontem em Zaffa x Marco Alba: a mensagem por trás da nomeação de Paulinho da Farmácia e a queda de Zilon; O estreitamento de inimizades na III Guerra Política de Gravataí:

“(…)

Por obvio, o prefeito envia mensagens políticas ao MDB que, principalmente na Câmara, sob presidência de Alison Silva, não protegeu a imagem do governo no escândalo do assédio sexual na Prefeitura e garantiu assinaturas necessárias para criação da CPI das Fake News, que pode ter aliados governistas como alvo.

Até neófitos da política sabem que a saída do MDB do governo – onde hoje representa o que chamo de ‘Situação B’ – é uma certeza em março, quando começam as definições de coligações partidárias; e Marco Alba é candidato contra ele.

É notório também que uma demissão em massa dos ‘marquistas’ só não acontece já por Zaffa medir os impactos na sociedade de afastar antes do período eleitoral o partido de seu ‘Grande Eleitor’ em 2020 – não quer colada nele a narrativa de ‘traição’ –, mas, principalmente, porque ainda precisa dos votos dos 5 vereadores emedebistas para aprovar ‘pautas-bomba’ como o novo Plano Diretor, o novo Código Tributário e, principalmente, um novo financiamento de R$ 60 milhões para obras.

“(…)

Não creio os motivos de Alison não ter recebido o tratamento que o cargo exige sejam os que descrevi acima – uma coisa é um governante nomear ou demitir quem julga melhor ou pior para sua gestão, outra é a necessidade de uma relação institucional entre os Poderes.

Não é o perfil que o prefeito Zaffa apresenta publicamente.

Possivelmente foi uma falha no protocolo; e que certamente será corrigida pela exigência da ‘liturgia do cargo’, expressão popularizada por José Sarney em 1985 para definir o ritual da função que lhe caiu ao colo com a morte de Tancredo Neves.

Ao fim, lembra-me o ‘Ser Político’, verbete do Millôr e entidade que transcende lados da ferradura ideológica:

Ser político é engolir sapo e não ter indigestão, respirar o ar do executivo e não sentir a execução, é acreditar no diálogo em que o poder fala e ele escuta, é ser ao mesmo tempo um ímã e um calidoscópio de boatos, é aprender a sofrer humilhações todos os dias, em pequenas doses, até ficar completamente imune à ofensa global, é esvaziar a tragédia atual com uma demagogia repetida de tragédia antiga, é ver o que não existe e olhar, sem ver, a miséria existente, é não ter religião e por isso mesmo cortejar a todas, é, no meio da mais degradante desonra, encontrar sempre uma saída honrosa, é nunca pisar nos amigos sem pedir desculpas, é correr logo pra bilheteria quando alguém grita que o circo pega fogo, é rir do sem-graça encontrando no antiespírito o supremo deleite desde que seu portador seja bem alto, é flexionar a espinha, a vocação e a alma em longas prostrações ante o poder como preparação do dia de exercê-lo, é recompor com estoicismo indignidades passadas projetando pra história uma biografia no mínimo improvável, é almoçar quatro vezes e jantar umas seis pra resolver definitivamente o problema da nossa subnutrição endêmica, é tentar nobremente a redistribuição dos bens sociais, começando, é natural, por acumulá-los, pois não se pode distribuir o pão disperso, e é ser probo seguindo autocritério. E assim, por conhecer profundamente a causa pública e a natureza humana, estar sempre pronto a usufruir diariamente do gozo de pequenas provações e a sofrer na própria pele insuportáveis vantagens.

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