Após dois adiamentos motivados por atestado médico de labirintite, o prefeito de Cachoeirinha, Cristian Wasem (MDB), confirmou ao Seguinte: que comparecerá ao depoimento marcado para este sábado (20), às 9h, no âmbito do Impeachment 2.0 — o mais robusto e politicamente decisivo dos processos de cassação que tramitam contra ele na Câmara de Vereadores.
A confirmação ocorre em um momento de estreitamento do cerco jurídico e político ao Executivo municipal. Além da oitiva do prefeito, a Comissão Processante divulgou nesta sexta-feira nova decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, que autoriza o prosseguimento imediato do Impeachment 1.0, após a superação do impasse relacionado ao acesso a provas eleitorais.
Na prática, os dois processos — embora distintos em conteúdo — avançam agora em paralelo, com o Impeachment 2.0 caminhando para a reta final e o 1.0 deixando de estar juridicamente paralisado.
O depoimento que não pôde mais ser adiado
No despacho que manteve a data da oitiva, a Comissão Processante adotou um tom incomum pela dureza institucional. Ao rejeitar nova tentativa de adiamento, os vereadores registraram que o atestado médico apresentado pela defesa não descrevia incapacidade cognitiva ou comunicacional que impedisse o comparecimento do prefeito.
Mais do que isso, o documento expôs, em linguagem direta, o contraste entre a conduta do prefeito e a do vice-prefeito Delegado João Paulo Martins (PP) — que, embora também denunciado no Impeachment 2.0, compareceu às oitivas quando convocado, sem recorrer a expedientes protelatórios.
“Causa estranheza que o Sr. Prefeito Municipal (…) demonstre comportamento reiterado de resistência aos atos instrutórios”, afirma o despacho, que também rejeita a “construção de nulidades artificiais”.
A Comissão lembrou ainda que o rito do Decreto-Lei nº 201/67 não está sujeito ao calendário forense, permitindo a realização de atos em finais de semana — sobretudo diante do prazo fatal de 90 dias, cujo descumprimento implicaria a extinção do processo.
Diante disso, a oitiva foi mantida para sábado, sob pena de preclusão — ou seja, a ausência do prefeito pode resultar na perda do direito de prestar depoimento pessoal.
O Impeachment 2.0: o processo que decide tudo
Com mais de 60 páginas, o Impeachment 2.0 é considerado, nos bastidores, o processo que decide o futuro político de Cristian e do vice. Diferentemente do Impeachment 1.0 — do qual Delegado João Paulo já foi excluído e as principais denúncias foram arquivadas em Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) e em parecer do Tribunal de Contas do Estado (TCE) que não reconheceu superfaturamento em telas interativas —, o segundo mantém ambos no centro das acusações.
Entre os pontos levantados estão suposta coação a vereadores, irregularidades em contratações, questionamentos sobre pagamentos sem empenho, além de denúncias envolvendo contratos emergenciais, com imputações diretas ao prefeito e vice.
As oitivas de testemunhas já foram concluídas. O depoimento do prefeito é um dos últimos atos da fase instrutória, antes da elaboração dos relatórios finais e da sessão de julgamento político em plenário.
Para a cassação, são necessários 12 votos entre os 17 vereadores — número que, conforme já analisei, parece hoje consolidado, com margem confortável.
TJ destrava o Impeachment 1.0 e reduz prazos da defesa
Em nota oficial, a Câmara informou que o Judiciário modificou liminar anterior no Mandado de Segurança nº 5020753-90.2025.8.21.0086, permitindo o regular prosseguimento do Impeachment 1.0.
A decisão reconheceu que a Justiça Eleitoral já franqueou acesso às provas antes sigilosas, superando o argumento formal que havia motivado a suspensão parcial do processo. Com isso, foi dispensada a juntada física dos documentos eleitorais aos autos, desde que preservado o acesso da defesa.
Outro ponto relevante: o magistrado reduziu para 24 horas o prazo de manifestação da defesa, considerando o rito célere do Decreto-Lei nº 201/67 e o prazo decadencial de 90 dias.
Além disso, autorizou expressamente o avanço da Comissão Processante nas demais denúncias, desde que não dependentes diretamente do material eleitoral.
Traduzindo: o Impeachment 1.0 não está enterrado. Está em movimento.
E, embora o Impeachment 1.0 trate de três acusações específicas — telas interativas, repasses durante as enchentes de 2024 e uso indevido da comunicação pública —, é o Impeachment 2.0 que concentra hoje o peso político.
A recente decisão do TJ, como já analisado pelo Seguinte:, reafirmou a autonomia da Câmara para conduzir o processo e decidir o mérito, limitando o Judiciário ao controle dos ritos.
Isso desloca definitivamente o eixo da crise para o plenário.
Como já escrevi: o Judiciário cuida dos ritos; a Câmara decide o destino dos mandatos.
A ‘futurologia’, a fala e o grito
Com a eleição de Jussara Caçapava (Avante) à presidência da Câmara — o que a tornaria prefeita em caso de perda de mandato por Cristian e Delegado — e a formação de uma Mesa Diretora amplamente favorável ao impeachment, a ‘futurologia da cassação’ deixou o campo das hipóteses para entrar no dos cálculos.
Nos bastidores, a conta aponta para 12 votos já consolidados, podendo chegar a um placar elástico, um 16 a 1 — cenário que tornaria o julgamento mais uma questão de cronograma do que de convencimento; leia mais sobre a ‘futurologia’, inclusive sobre possíveis candidaturas em uma eleição suplementar, em Eleição de Jussara Caçapava na Câmara antecipa eleição para prefeita de Cachoeirinha — e a futurologia da suplementar começou.
Ao fim, o depoimento do prefeito neste sábado é o último momento em que Cristian fala antes que os vereadores falem por ele.
Não que falar mude algo. Em julgamentos políticos, os bastidores gritam.






