A reeleição de Jussara Caçapava (Avante) à presidência da Câmara de Cachoeirinha, na noite desta terça-feira (16), foi potencialmente uma eleição a prefeita. Integram a Mesa Diretora Gilson Stuart (Republicanos) como vice, Gustavo Almansa (PT) como primeiro secretário e o pastor Édison Cordeiro (Republicanos) como segundo secretário.
– Recebo com responsabilidade a honra de presidir o Legislativo pela terceira vez. Calei-me até agora, mas hoje digo que esta casa não se curvará a pressões – disse a vereadora, após ser eleita, sem citar diretamente a crise política com o Executivo.
Faço neste artigo, então, um pouco de futurologia.
É a vereadora quem vai assumir interinamente a Prefeitura — até o resultado de uma eleição suplementar, que deve ser convocada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) em até 180 dias — no caso de cassação do prefeito Cristian Wasem (MDB) e do vice Delegado João Paulo Martins (PP) nos impeachments 1.0 e 2.0.
A formação de uma chapa única — com a participação do PT e, principalmente, de Edison Cordeiro (Republicanos) — e os votos hoje favoráveis em plenário permitem a interpretação de que a perda dos mandatos por Cristian e Delegado é apenas uma questão de cronograma.
Ontem dei detalhes sobre a conta dos votos, que pode restar em um 16 a 1 — o mesmo placar de hoje, mesmo que com atores diferentes; para entender, leia em Inscrição de chapa para Mesa Diretora da Câmara de Vereadores antecipa votos necessários para cassação de prefeito e vice em Cachoeirinha.
Pareceu-me, também, que a disputa da provável eleição suplementar já começou nesta noite, nos discursos, nos aplausos da platéia e, sobretudo, nas entrelinhas.
O 12º voto: Edison Cordeiro e o ‘cavalo do diabo’
Se ainda havia preces políticas para evitar os impeachments – uma delas a ‘Oração a São PT’, como batizei em ‘Oração a São PT’ ganha fiéis: a manhã que aproximou Cristian de quem pode salvar seu mandato em Cachoeirinha, pelo partido ter dois votos que poderiam garantir os seis que salvariam prefeito e vice – o discurso do vereador Edison Cordeiro (Republicanos) praticamente a excomungou.
O pastor, que votou “não” na admissibilidade dos impeachments 1 e 2, deu graças claras de rompimento político com Cristian e Delegado — e indicou, por parábolas, que pode ser o 12º voto decisivo para a cassação, dispensando até mesmo os votos dos petistas Gustavo Almansa e Leo da Costa.
Em um pronunciamento carregado de metáforas, referências religiosas e recados cifrados, o vereador falou em compromisso, assumiu estar “na chapa” de Jussara e deixou escapar o ressentimento típico de quem considera que acordos não foram cumpridos.
– Ouvi na porta da igreja: homem não é obrigado a tratar, mas se tratou: cumpra – disse.
A analogia com casamento — “se não dá certo, separa e cada um vai para o seu lado” — foi lida nos bastidores como um recado direto ao Executivo.
Ao citar uma parábola sobre consequências desencadeadas por pequenas rupturas (volto a isso, ao ‘cavalo do diabo’, ao fim deste artigo), Cordeiro cometeu uma espécie de glossolalia de que o processo político já saiu do altar do governo.
Entre vereadores e lideranças, a leitura foi quase unânime: o pastor não apenas aderiu à chapa, mas ao desfecho do impeachment.
O PT: aliado aqui, adversário ali
Se o Republicanos até materializou uma saída do governo (o secretário de Cidadania e Assistência Social, Paulo Pedroso, ligado a Cordeiro, entregou o cargo nesta tarde), o PT apresentou um discurso de oposição tanto a Cristian, quanto ao grupo de Jussara —talvez já pensando na eleição suplementar.
Mesmo integrando a chapa única da Mesa Diretora — com Gustavo Almansa como primeiro secretário —, as falas petistas indicaram que não haverá participação em um eventual governo Jussara.
Da tribuna, Gustavo Almansa e Leo da Costa falaram mais da luta pelo funcionalismo, de Lula e do governo do PT, do que da nova Mesa. Foram aplaudidos por educadoras presentes na galeria, que acompanhavam a votação do Plano de Carreira da Educação Infantil — aprovado por unanimidade.
Gustavo chegou a lembrar que audiência pública sobre o tema foi barrada pelos vereadores sob orientação do governo, quando a base parlamentar de Cristian ainda funcionava unificada.
– É bom ver a Câmara como Casa do Povo. Antes, não foi – instigou Leo, que inclusive recorreu a comparações que rendem engajamento nas redes antissociais, como a diferença entre salários de vereadores e professores.
Soou-me ululante, a mensagem: o PT se prepara para ser adversário, não aliado de Jussara, na eleição suplementar.
Nos bastidores, cresce a aposta de que o partido lançará Leo da Costa como candidato, apostando no recall digital e no discurso de oposição ao ‘sistema’ de Cachoeirinha. O vereador estreante chega a ter posts com mais de 10 mil interações.
A eleição suplementar, por ocorrer fora do calendário tradicional, tende a favorecer quem controlará a máquina e terá maioria na Câmara — cenário que beneficia Jussara, que teria vereadores, assessores e cargos políticos da Prefeitura em sua campanha.
Bater na rua com ela seria suicídio político. Além de conhecida e popular em Cachoeirinha, é a prefeita dos grupo pró-impeachment. Ela e seu entorno conquistaram a confiança dos vereadores. Este grupo político vai fazer campanha de casa em casa, em um pleito que é diferente por não ter centenas de candidatos à Câmara pedindo votos como em uma eleição normal.
Por isso, o engajamento de Leo nas redes sociais é um ativo considerado por novos e velhos petistas — isto, claro, se Jussara não abraçar Lula, com Pimenta, Laura Sito & Tudo, fazendo campanha para os petistas na eleição de 2026; algo difícil, já que terá que governar com uma base que não tem nada de progressista.
Já David Almansa (PT), que disputou a eleição com Cristian em 2024, se posicionou contra o impeachment e dificilmente colocará nome na disputa, segundo aliados.
A esposa e o bolsonarista
Ao menos outras duas candidaturas são possíveis.
Fabi Medeiros (MDB), esposa de Cristian, pode aparecer na urna – caso seja elegível, e não atingida pela ‘inelegibilidade reversa’, algo que alertei em Renunciar para quê? O absurdo jurídico e político do boato sobre o prefeito Cristian e o impeachment em Cachoeirinha.
Há também entusiastas de uma candidatura de Mano do Parque (PL), como representante do ‘bolsonarismo’. Jair Bolsonaro apareceu justamente após o impeachment de Dilma Roussef (PT).
Porém, o vereador, apesar de conservador-raiz, não faz o estilo delirante (com exceções) do hoje presidiário ou de seu aliado Bibo Nunes — discurso que poderia ter alguma reverberação nas redes antissociais em um momento de crise política.
A sessão que antecipou o futuro
O placar de 16 a 1 não deixou dúvidas sobre a correlação de forças, mesmo que vereadores tentem separar a eleição da Mesa e os impeachments.
Se não é um truque do prefeito e do vice, demonstra fraqueza política às vésperas da votação dos impeachments.
Dos que votaram “não” à abertura dos processos, só Cleo do Onze (MDB), aliado de primeira hora e cargos de Cristian (e que, pelo acordo rompido após a crise do impeachment, seria o presidente em 26), se ausentou e não votou a favor de Jussara e a nova direção do Legislativo.
Além de Edison, Uilson Droppa (Podemos) e Claudine Silveira (PP) — esposa do vice ‘cassável’ — também votaram a favor.
Com afastamentos previstos nas comissões e suplentes alinhados, o que antecipei ontem em Inscrição de chapa para Mesa Diretora da Câmara de Vereadores antecipa votos necessários para cassação de prefeito e vice em Cachoeirinha, o impeachment deixou de ser hipótese para se tornar placar de bet: 16 a 1.
Mais: a sentença recente do Tribunal de Justiça, que reafirmou que o mérito do impeachment é prerrogativa exclusiva da Câmara, blindou juridicamente o processo; leia detalhes em TJ restabelece impeachment 2 e reafirma autonomia da Câmara de Cachoeirinha para cassar — ou não — prefeito e vice.
A decisão será política. E, goste-se ou não, a Câmara, pelos critérios da proporcionalidade, representa 100% do eleitorado de Cachoeirinha — mesmo que use para os impeachments o Decreto 201, de 1967, época de ditadura. Ainda é a lei do dia. E, na democracia, a regra constitucional se respeita.
Para encerrar, reproduzo a Parábola do Cavalo e do Diabo —chinesa, pelo que localizei em pesquisa —recitada pelo vereador Edison Cordeiro em seu discurso polêmico, e, em seguida, concluo.
Um homem amarrou seu cavalo. Um demônio (ou o diabo) o soltou. O cavalo entrou na plantação de um fazendeiro e começou a comer. O fazendeiro, furioso, matou o cavalo. O dono do cavalo matou o fazendeiro por vingança. A esposa do fazendeiro matou o dono do cavalo. O filho do dono do cavalo matou a esposa do fazendeiro. Os vizinhos, horrorizados, mataram o filho e incendiaram sua casa. Quando perguntaram ao demônio por que fez isso, ele respondeu: “Eu não fiz nada. Eu apenas soltei o cavalo.
Ao fim, reputo resta torcer que, após tantas mortes políticas, caso Jussara seja prefeita em 26, segure firme as rédeas.
Aquela que – pelo histórico de denúncias, impeachments, golpeachments e cassações na última meia década – chamo de “Pobre, Cachoeirinha!”, não agüenta mais demônios soltando cavalos.
OS VOTOS
A favor: Zeca dos Transportes (MDB), Flávio Cabral (MDB), Gilson Stuart (Republicanos), Gustavo Almansa (PT), Leo da Costa (PT), Jussara Caçapava (Avante), Edison Cordeiro (Republicanos), Mano do Parque (PL), Marcelinho (MDB), Otoniel Gomes (MDB), Paulinho da Farmácia (PDT), Pricila Barra (Podemos), Sandrinha Gerardon (Republicanos), Claudine Silveira (PP), Tiago Eli (PP) e Uilson Droppa (Podemos).
Ausência: Cleo do Onze (MDB).






