CARLOS WAGNER

Prisão de Bolsonaro aumentou ou diminui a polarização com Lula?

Bolsonaro e Lula, em debate de tv na campanha de 2022

Em 2022, o então presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, concorreu à reeleição contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, foi derrotado e não “passou o bastão”. Muito pelo contrário. Nos minutos seguintes após serem conhecidos os resultados do segundo turno das eleições presidenciais, na noite de 30 outubro, Bolsonaro e outros ministros e funcionários do alto escalão do seu governo aceleraram os planos de um golpe de estado que já vinha sendo gestado havia pelo menos um ano. Toda essa história é contada com detalhes nas mais de 884 páginas do relatório final da investigação feita pela Polícia Federal (PF) que colocou no banco dos réus da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) o ex-presidente e mais 36 pessoas, sendo 27 militares da ativa, reserva e reformados. Essas 37 pessoas foram divididas pela Justiça em seis núcleos. O ex-presidente e outras sete, sendo quatro generais, fizeram parte do chamado Núcleo Crucial. Na terça-feira, o STF declarou trânsito em julgado, ou seja, as sentenças são definitivas, não podem mais ser contestadas, e o ex-presidente e os demais sete integrantes do Núcleo Crucial começaram a cumprir suas penas. Bolsonaro, condenado a 27 anos de cadeia, foi recolhido a uma cela da PF, em Brasília (DF). O general Walter Braga Netto, ex-ministro e candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro que concorreu à reeleição, cumprirá a sentença de 26 anos de prisão em uma unidade militar do Rio de Janeiro (RJ).

Esta é a primeira vez na história do Brasil que um ex-presidente e generais estão cumprindo pena por terem se envolvido em uma tentativa de golpe de estado. Não é pouca coisa. Os outros núcleos estão em diferentes fases do trâmite do processo na Primeira Turma do STF. A imprensa diária faz uma cobertura online do assunto com perfis, condenações e todos os detalhes sobre a história. Vou concentrar a nossa conversa sobre um ângulo que por hora está carente de informações. Que influência terá nas eleições de 2026, principalmente na disputa pela Presidência da República, a condenação e encarceramento de ex-presidente e seus seguidores. O pano de fundo dos acontecimentos, como diziam os repórteres políticos nos anos 60, é a polarização entre Lula e Bolsonaro. Estes acontecimentos farão aumentar ou diminuir essa polarização? Não tem como prever. É preciso esperar as próximas rodadas das pesquisas de opinião. Mas certamente irá mexer. Do lado de Lula, a plataforma que será usada para concorrer à reeleição já é conhecida. Tem como eixo central os avanços sociais do governo. Do lado de Bolsonaro, as coisas se complicaram. Começaram a ficar difíceis em junho de 2023, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tornou o ex-presidente inelegível – matérias na internet. A cúpula do núcleo de extrema direita do bolsonarismo resolveu apostar que conseguiria reverter a decisão do TSE. No mesmo momento, de maneira muito discreta, a ala bolsonarista ligada aos parlamentares do Centrão vendia a ideia de que o ex-presidente deveria indicar um substituto. O Centrão foi vencido pela ala da extrema direita. Daí aconteceu o seguinte. Em novembro de 2024, a Polícia Federal concluiu o relatório final de 884 páginas da investigação da tentativa de golpe, que teve o seu ponto alto em 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas que estavam acampados na frente de várias unidade militares saíram quebrando tudo que encontraram pela frente no Palácio do Planalto, no STF e no Congresso, localizados na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF). O relatório foi entregue ao relator do processo na Primeira Turma do STF, ministro Alexandre de Moraes, 56 anos, que o enviou para a Procuradoria-Geral da República (PGR). Bolsonaro foi denunciado pela PGR por cinco crimes, entre eles a formação de uma organização criminosa com objetivo de dar um golpe de estado.

A ala da extrema direita do bolsonarista dobrou a sua aposta. Começou a vender a ideia de que enfiaria garganta abaixo do Congresso um projeto de lei concedendo anistia ampla e geral para os bolsonaristas, incluindo o ex-presidente, envolvidos na tentativa de golpe. Já na época as pesquisas apontavam que 67% dos brasileiros eram contra a anistia. Aqui um comentário meu. As imagens dos ataques na Praça dos Três Poderes são muito fortes. Não tem como argumentar que não houve de fato uma tentativa de golpe de estado. Ponto final. O encarceramento do ex-presidente e dos outros sete do Núcleo Crucial para começarem o cumprimento das penas a que foram sentenciados colocou um ponto final nesta história: o ex-presidente vai ter que passar o seu legado político para uma pessoa que irá substituí-lo na disputa com Lula. Calculam os analistas políticos que o ex-presidente tenha em torno de 30% dos votos entre os 150 milhões de eleitores brasileiros. O número é insuficiente para ganhar uma eleição. Mas ajuda, e muito. Muitos candidatos disputam o posto de substituto de Bolsonaro – matérias na internet. O preferido era, é e continuará sendo o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), 50 anos. Ele é ex-ministro de Bolsonaro e o considera o seu padrinho político. Pacientemente, o governador tem esperando o ex-chefe lhe passar o legado eleitoral, fazendo a sua campanha para presidente às escondidas. A imprensa não tem dito às claras. Mas deixa escrito nas entrelinhas das notícias que a transferência do prestígio não é bem assim. Há muitos fatores envolvidos. Vou citar o que considero o mais importante. Bolsonaro não é um gênio da política e muito menos tem um discurso brilhante. É um sobrevivente que conseguiu manter-se na cena política por mais de três décadas por ser “um cara esperto”. Parte dessa sobrevivência deve-se à maneira simples, direta e curiosa com que se comunica com seus eleitores. Ele tem o dom de convencer os chamados “invisíveis”, que são importantes e têm alguma coisa a dizer.

O discurso do governador de São Paulo não entusiasma. O seu vocabulário tem a marca dos “burocratas”. Como jornalistas, sabemos que uma mesma história contada por alguém que tenha o dom da palavra é uma coisa bem diferente de quando contada por quem não domina a arte de falar. Os estrategistas da ala da extrema direita bolsonarista atualmente estão apostando que o indicado seja da família Bolsonaro. Citam os três filhos parlamentares, Carlos, 42 anos, vereador do Rio, Flávio, 44 anos, senador do Rio de Janeiro, e Eduardo, 41 anos, deputado federal de São Paulo, e a ex-primeira-dama Michelle, 43 anos. O problema da família é o mesmo do governador paulista: não tem o dom do discurso. Michelle é a que tem um discurso mais organizado, misturando a religião evangélica como solução para os problemas do dia a dia das pessoas. Para terminar a nossa conversa. A teimosia do ex-presidente de não sair do centro da disputa eleitoral causou uma tremenda confusão na oposição. Todos os comentaristas políticos falam sobre o assunto. Esta confusão pode abrir espaço para o surgimento de um terceiro candidato a presidente da República. Na teoria, o ex-presidente pode passar o seu legado político para um substituto. Na prática, enfrenta muitos obstáculos.

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