RAFAEL MARTINELLI

PT contra impeachment, vereador a favor: partido entra em modo ‘perda total’ interna em divergência sobre cassação de Cristian em Cachoeirinha

Cristian e Almansa, em anúncio da ordem de início das obras no Arroio Passinhos

Às vésperas do julgamento do Impeachment 1.0 e do Impeachment 2.0, que podem cassar o prefeito Cristian Wasem (MDB) e o vice-prefeito Delegado João Paulo Martins (PP), o Partido dos Trabalhadores de Cachoeirinha ‘deu PT’ — para usar aquela gíria de ‘perda total’, politicamente falando.

Não se trata mais de ruído de bastidor. O conflito agora está documentado, protocolado, assinado — e corre em paralelo ao relógio do plenário da Câmara.

Nesta segunda-feira (29), o vereador Otoniel Gomes (MDB), relator do Impeachment 2.0, entregou o relatório final, conforme registro oficial publicado no Diário Oficial do Legislativo. O documento foi assinado também pelo presidente da comissão, Gilson Stuart (Republicanos), e pela integrante Pricila Barra (Podemos).

Com isso, o processo entra em sua fase terminal. A presidente da Câmara, Jussara Caçapava (Avante) — que não vota por ser beneficiária direta da eventual cassação — pode convocar a sessão de julgamento a qualquer momento, respeitado o prazo legal mínimo de 24 horas após a publicação.

O Impeachment 1.0, que atinge apenas o prefeito, ainda não teve relatório concluído, mas nos bastidores não se descarta uma votação conjunta, no mesmo dia.

Fato é que o 2.0 que concentra o peso político, jurídico e simbólico da crise: derruba prefeito e vice de uma vez só e abre caminho para a eleição suplementar.

É nesse exato ponto do cronograma que o PT dá ‘perda total’.

A nota oficial: o “não” como protesto — e não como absolvição

Em nota oficial divulgada nas últimas horas (a íntegra está no fim deste artigo), o Diretório Municipal do PT reafirmou a posição já revelada pelo Seguinte:: o partido decidiu orientar voto contrário ao impeachment.

O texto busca blindar politicamente a decisão.

Sustenta que não há provas contundentes apresentadas pelas comissões processantes, enquadra o impeachment como instrumento banalizado e afirma que o voto “não” não representa apoio ao governo, mas sim um protesto em defesa do devido processo legal.

“O que está em curso é o rompimento interno de um grupo político que governa nossa cidade há muito tempo”, diz a nota, deslocando o foco da responsabilidade para a crise na base aliada de Cristian.

O PT também faz questão de registrar que seguirá denunciando irregularidades aos órgãos de controle e reafirma a oposição programática à gestão.

É, na prática, a tentativa de sustentar uma equação difícil: votar para salvar o mandato sem salvar o governo.

Na linguagem que venho usando desde o início dessa novela, trata-se da formalização litúrgica daquilo que batizei de ‘Oração a São PT’.

A apelação de Leo da Costa: quando a fé vira dissidência

Se a nota oficial tenta fechar a porta, o vereador Leo da Costa abriu uma janela — e foi direto à Executiva Estadual do PT.

Em um recurso duro, longo e politicamente explosivo (o Seguinte: teve acesso e reproduz a íntegra no fim deste artigo), Leo pede autorização para descumprir a orientação do diretório municipal e votar a favor do impeachment.

O texto é, ao mesmo tempo, um libelo contra o governo Cristian e uma acusação frontal ao próprio partido local.

Leo sustenta que a decisão do diretório foi precipitada, tomada antes mesmo da divulgação do relatório final, e que isso coloca o PT no risco de ser visto como fisiológico, “tábua de salvação” de um governo do MDB marcado — segundo ele — por corrupção, colapso administrativo e abandono dos serviços públicos.

O vereador enumera denúncias já conhecidas: compras com sobrepreço, contratos questionáveis durante a enchente de 2024, crise na coleta de lixo, falta de insumos na saúde, atraso de salários e sucateamento do transporte público.

Mais do que isso: Leo invoca a militância, a base social, os 3.117 votos que recebeu, e afirma que votar contra o impeachment rompe com a história do PT em Cachoeirinha.

É uma apelação que mistura política, ética e sobrevivência eleitoral. E que joga a bomba no colo da direção estadual.

A reação de David Almansa: estatuto, disciplina e ameaça de sanção

A resposta veio rápida — e não foi sutil.

Em manifestação dura, David Almansa reagiu à postura de Leo acusando-o de desrespeitar o diretório municipal democraticamente eleito e lembrando que o PT “não é barriga de aluguel”.

O hoje assessor de comunicação da Presidência da República e adversário de Cristian nas duas últimas eleições invoca o estatuto partidário, fala em sanções (de suspensão à cassação do mandato), questiona a coerência do vereador e levanta episódios recentes — como a ausência em votações sensíveis na Câmara — para minar a autoridade moral do pedido de dissidência.

Mais do que um debate político, é um aviso de quem tem maioria no Diretório: quem romper a disciplina pode pagar caro.

Almansa diz não acreditar que a direção estadual abrirá precedente para atropelar uma decisão municipal tomada por maioria.

– Estranhamente o vereador não manifestou sua contrariedade durante o debate interno. E, em suas argumentações, cai em contradição: por que não enfrentou as denúncias de corrupção na Câmara onde legisla e faltou à sessão que votou o pedido de investigação sobre a presidente do Legislativo? – cobra Almansa, sobre a ausência de Leo na votação que derrubou pedindo de abertura do Impeachment 3.0, que tinha como alvo Jussara Caçapava (Avante).

– No dia da votação, o vereador participou pela manhã de audiência pública sobre pedágio em Gravataí e, horas depois, alegou repentino mal-estar e não foi à sessão em Cachoeirinha, abandonando e expondo seu colega de bancada, que corajosamente votou a favor da abertura de investigação – instigou, referindo o voto isolado do irmão, Gustavo Almansa, a favor da abertura de investigação.

O conflito, portanto, já não é apenas entre governo e oposição. É um embate interno pelo controle da narrativa, da autoridade e do futuro do PT na cidade.

O culto final: salvar Cristian e perder Edison

Toda essa guerra acontece sob uma ironia cruel.

Como detalhei nas reportagens anteriores, a decisão do PT de votar contra o impeachment, em tese, salvaria Cristian — desde que o governo mantivesse o voto do vereador Edison Cordeiro (Republicanos), o pastor.

Mas a política não opera por milagre sem custo.

No mesmo movimento em que o PT fechou questão contra a cassação, Edison mudou de altar: aderiu à chapa de Jussara Caçapava, discursou sobre compromissos rompidos e apareceu confraternizando com a Família Caçapava em foto que, na prática, antecipa seu voto pela cassação.

O governo pode ter conquistado o PT — e perdido exatamente o voto que não podia perder.

Agora, enquanto o PT briga consigo mesmo, o relógio corre, o relatório está entregue e a sessão pode ser marcada a qualquer momento.

A fé política mudou de santo.

E, desta vez, o PT reza dividido — enquanto o julgamento se aproxima.


A NOTA OFICIAL DO PT

O Partido dos Trabalhadores de Cachoeirinha vem a público esclarecer sua posição sobre o processo de impeachment contra o prefeito municipal, Cristian Wasem, e o vice, João Paulo Martins. Debatemos, exaustivamente, a crise institucional que se instalou em Cachoeirinha.

O que está em curso é o rompimento interno de um grupo político que governa nossa cidade há muito tempo. Em defesa do Estado Democrátido de Direito, juntamente com sua bancada, a direção partidária manifestou-se contrária ao impeachment, por considerar que, as comissões que encabeçaram os processos, não apresentaram provas contundentes que justifiquem a retirada do mandato, legitimamente, conferido pelo voto popular.

Ressaltamos que o Regimento Interno da Câmara impede a abstenção. Portanto, nosso voto “NÃO” é um voto de protesto contra a banalização do impeachment, e jamais um atestado de apoio à atual gestão, à qual fazemos oposição firme e programática todos os dias.

O PT e sua bancada seguirão acionando os órgãos de controle e fiscalização sempre que houver indícios de corrupção ou irregularidades na administração pública. Nosso compromisso é com a população, com o devido processo legal e com o profundo respeito à democracia.

Acreditamos que uma mudança verdadeira para Cachoeirinha passa por um projeto voltado aos trabalhadores, aos mais pobres e com serviços públicos de saúde, educação e transporte acessível a todos. Nós somos essa alternativa e seguimos construindo um projeto popular nas ruas e na Câmara Municipal.

Partido dos Trabalhadores – Cachoeirinha

A APELAÇÃO DO VEREADOR LEO

À EXECUTIVA ESTADUAL DO PARTIDO DOS TRABALHADORES – RIO GRANDE DO SUL : RECURSO

Assunto: Consulta urgente sobre orientação de voto e pedido de liberação no processo de Impeachment em Cachoeirinha.

Companheiros e companheiras,

Eu, Leonardo da Costa, membro do Diretório Estadual, Secretário Estadual de Meio Ambiente e vereador pelo Partido dos Trabalhadores no município de Cachoeirinha, onde nosso partido conta com uma bancada de dois parlamentares, venho à presença desta instância estadual expor a grave conjuntura local.

Cachoeirinha atravessa hoje um doloroso processo de impeachment. Embora tenhamos clareza de que o processo foi deflagrado pelo rompimento da própria base aliada na disputa por espaços de poder, não podemos ignorar que o combustível para essa crise é, sobretudo, a péssima administração do Prefeito Cristian Wasem (MDB) e Vice-Prefeito Delegado João Paulo (PP). A cidade vive um cenário de ingovernabilidade, descaso e abandono que desde o início do mandato estamos fiscalizando e denunciando formalmente como parlamentar, mas que, muito antes de ser vereador, eu, junto ao coletivo do Mato do Júlio já denunciávamos.

Diante disso, consulto sobre a viabilidade de adotar posicionamento divergente daquele indicativo tirado pelo Diretório Municipal (voto contrário ao impeachment), fundamentado nos seguintes pontos cruciais:

1. Decisão precipitada e imagem de fisiologismo. A decisão do Diretório Municipal foi tomada antes mesmo da divulgação do Relatório Final da Comissão Processante, ou seja, sem o devido embasamento técnico e probatório. Seguir uma ordem tomada “no escuro” pode levar a militância e a população a interpretarem que existe um acordo político de bastidor com o governo. Isso nos coloca perigosamente no lado fisiológico da disputa, sugerindo que o PT estaria salvando o governo do MDB em troca de cargos ou favores, justamente numa gestão à qual deveríamos fazer oposição ferrenha. O PT não pode ser a “tábua de salvação” de um governo que repudia.

2. Coerência com a oposição histórica. Parte do processo de impeachment baseia-se em irregularidades que o próprio PT de Cachoeirinha denunciou no último pleito. Torna-se incoerente, para não dizer contraditório, atuar agora para absolver um governo cujas práticas condenamos publicamente.

3. A realidade da corrupção e o colapso dos serviços. O cenário político é gravíssimo. Além das investigações sobre compras com sobrepreço de telas interativas (2021) e das denúncias de compras superfaturadas durante a tragédia das enchentes de maio de 2024, a cidade assiste, nos últimos dias, ao colapso na coleta de lixo, com resíduos acumulados nas ruas. Falta de materiais básicos nas UBS. Estrutura precária nas escolas postos de saúde. Atraso nos salários de servidores. Sucateamento do transporte público e contratos esdrúxulos.

4. Resistência da base militante. Existe uma forte resistência por parte de nossa militância em aceitar qualquer aproximação com o governo atual e com as forças conservadoras que ele representa. O sentimento da base é de oposição, e o voto favorável ao impeachment é o único caminho que dialoga com nossa história na cidade, tendo em vista que fui o vereador bem mais votado com 3.117 votos, tenho o dever de respeitar e representar esses eleitores. Pois em 2026 sairemos às ruas para eleger Lula, Edgar e nossos deputados Federais e Estaduais assim como Senadores. 

5. Dessa forma, a insistência do Diretório Municipal em orientar o voto contrário cria uma contradição insustentável dentro da própria estrutura partidária. Meu pedido visa justamente garantir o alinhamento com a leitura política e técnica mais apurada já sinalizada por esta instância superior.

Considerando que o mandato parlamentar não pode ser cúmplice do desmonte da cidade e que a preservação da imagem ética do PT é prioritária, solicito autorização deste Diretório Estadual para votar FAVORÁVEL ao impeachment. Precisamos demarcar posição ao lado da população, e não ao lado de um governo sob suspeita de corrupção e má gestão.

Aguardo retorno urgente dada a proximidade da votação.

Saudações,

Leonardo da Costa Vereador – PT Cachoeirinha


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