As projeções climáticas atualizadas no início de julho reforçaram a preocupação de especialistas com a evolução do El Niño. Segundo análise publicada pela MetSul Meteorologia e assinada pelo meteorologista Luiz Fernando Nachtigall, os principais modelos internacionais passaram a indicar um cenário ainda mais extremo para os próximos meses, com possibilidade de o fenômeno atingir intensidade jamais registrada desde o início das medições da temperatura do Oceano Pacífico, no século XIX.
De acordo com Nachtigall, as novas simulações apontam um fortalecimento consistente do aquecimento das águas do Pacífico Equatorial, elevando a probabilidade de um episódio histórico. A atualização dos modelos ocorreu ao longo da primeira semana de julho e chamou a atenção da comunidade meteorológica internacional por apresentar valores superiores aos observados nos grandes eventos de El Niño de 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016.
O destaque, segundo a análise da MetSul Meteorologia, é o modelo sazonal do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), considerado uma das principais referências mundiais em previsão climática.
Pelas projeções do modelo europeu, a anomalia de temperatura na região Niño 3.4 — área do Pacífico Equatorial utilizada como principal indicador da intensidade do fenômeno — poderá alcançar cerca de +3,9°C em dezembro. Caso esse cenário se confirme, o valor superará com ampla margem o recorde observado durante o forte El Niño de 2015-2016.
Segundo o meteorologista, a diferença projetada é significativa do ponto de vista climatológico. Um aumento de aproximadamente 1,1°C acima do antigo recorde representa uma quantidade muito maior de calor armazenada em uma vasta área do oceano, com potencial para provocar alterações importantes na circulação atmosférica em escala global.
Mesmo antes do pico previsto para o fim do ano, os indicadores já chamam atenção.
Ainda conforme a análise da MetSul Meteorologia, a região Niño 3.4 apresenta neste mês de julho temperatura aproximadamente 1,95°C acima da média climática de 1990 a 2020, valor muito próximo do limite tradicionalmente utilizado para caracterizar os chamados “Super El Niños”.
As novas projeções do ECMWF elevaram em cerca de 0,3°C a estimativa divulgada em junho. Além disso, praticamente todos os cenários simulados pelo modelo passaram a indicar temperaturas mais elevadas, reforçando a tendência de fortalecimento do fenômeno.
Outro índice citado por Nachtigall é o RONI (Relative Oceanic Niño Index), que compara a temperatura da região Niño 3.4 com a média dos demais oceanos tropicais, reduzindo a influência do aquecimento global. Mesmo por esse critério, as projeções apontam valores próximos de +3,4°C, também acima dos maiores registros históricos.
Diferentes modelos apontam na mesma direção
O cenário extremo não aparece apenas nas projeções europeias.
Segundo a MetSul Meteorologia, modelos climáticos utilizados por diferentes centros internacionais, como o norte-americano NOAA FV3 SFSv1.1 Beta, o CFSv2 e o Météo-France S9, também convergem para um El Niño de intensidade excepcional durante o último trimestre de 2026.
Há divergências apenas quanto ao momento em que o fenômeno deverá atingir seu pico. Enquanto o ECMWF projeta o auge em dezembro, o CFSv2 indica novembro como o período de maior intensidade.
Apesar dessa diferença temporal, todos os principais sistemas de previsão apontam para um evento muito acima da média histórica.
Caso as projeções sejam confirmadas, os efeitos poderão ser sentidos em diferentes regiões do planeta.
Historicamente, episódios muito intensos de El Niño alteram os padrões de circulação atmosférica, influenciando a distribuição das chuvas, aumentando o risco de enchentes em algumas regiões, favorecendo secas severas em outras, intensificando ondas de calor e provocando mudanças na atividade de ciclones tropicais.
Segundo Luiz Fernando Nachtigall, embora ainda faltem alguns meses para o pico do fenômeno e novas atualizações dos modelos sejam necessárias, já existe elevada confiança de que o episódio de 2026 será histórico.
Na avaliação do meteorologista, cresce a probabilidade de que este venha a ser o mais intenso El Niño observado desde o início das medições modernas, cenário que exigirá acompanhamento permanente por parte dos órgãos de meteorologia e de defesa civil devido aos potenciais impactos sobre o clima em diversas partes do mundo.






