RAFAEL MARTINELLI

“Vai sair a fábrica”, diz CEO: Cachoeirinha entra na guerra mundial dos chips com megaplanta de R$ 1 bilhão e transferência tecnológica asiática

Produção de 'chips de Cachoeirinha' já vão começar na Inari Amertron Berhad, na Malásia

Há anúncios industriais. E há movimentos que ajudam a explicar para onde o mundo está indo. A confirmação pública mais contundente até agora sobre a fábrica bilionária de semicondutores em Cachoeirinha veio nesta semana, durante entrevista do CEO da Tellescom Semicondutores, Ronaldo Aloise Júnior, à jornalista Giane Guerra, no Campo Bom Summit.

A frase central não foi protocolar. Foi política, econômica e estratégica: “Vai sair a fábrica.”

Num país acostumado a megaprojetos que morrem no PowerPoint das crises políticas, a necessidade de reafirmação pública já diz muito sobre o tamanho — e a complexidade — do empreendimento.

O projeto prevê investimento de R$ 1 bilhão para implantação de uma fábrica de encapsulamento e testes de semicondutores em Cachoeirinha, na área da antiga Cientec, ao lado do Distrito Industrial. A expectativa é iniciar obras no segundo semestre de 2026 e colocar a operação em funcionamento em 2027, atendendo setores como indústria automotiva, internet das coisas (IoT) e comunicação sem fio.

Mas a principal novidade revelada pelo CEO talvez seja outra: a operação vai começar antes mesmo da fábrica ficar pronta no Rio Grande do Sul.

Ao detalhar a parceria internacional da Tellescom, Ronaldo Aloise Júnior revelou que duas linhas piloto serão instaladas na Malásia, em parceria com a gigante global Inari Amertron Berhad.

“Na parceria tecnológica com a Inari Amertron Berhad, teremos duas linhas piloto, em fábricas na Malásia. Ainda vai levar dois anos para a fábrica em Cachoeirinha estar pronta. Já vamos treinar nosso pessoal lá. 27 engenheiros já vão para lá na primeira fase. A gente já começa a produzir e homologar chips lá, para clientes brasileiros. É como se a gente adiantasse a produção”.

A fala muda o patamar do projeto. Até aqui, a percepção pública ainda orbitava em torno de um investimento industrial clássico: terreno, obra, incentivos, cronograma. Agora, o desenho ganha contornos de integração global de tecnologia.

Não se trata apenas de erguer uma fábrica. Trata-se de inserir o Rio Grande do Sul numa cadeia internacional extremamente restrita, dominada por poucos países e poucas corporações.

E é aqui que Cachoeirinha deixa de ser apenas notícia regional. A disputa mundial por semicondutores virou uma nova corrida geopolítica.

Os chips estão em celulares, veículos, satélites, equipamentos hospitalares, inteligência artificial, telecomunicações e sistemas militares. Quem domina essa cadeia controla não apenas tecnologia — controla soberania econômica.

Segundo a World Semiconductor Trade Statistics, o mercado global de semicondutores já movimenta mais de US$ 630 bilhões anuais.

Estados Unidos e China travam uma guerra silenciosa pelo domínio tecnológico. Washington aprovou o CHIPS Act, liberando US$ 52 bilhões para fortalecer sua indústria nacional. A China responde com investimentos bilionários em autossuficiência. Taiwan virou peça estratégica do equilíbrio global. E a Ásia concentra mais de 80% da produção de chips avançados do planeta.

Nesse cenário, a fala do CEO da Tellescom talvez seja a mais importante de todas:

“Temos um parceiro internacional que é a maior empresa de encapsulamento de semicondutores da Malásia e do mundo, que é a Inari Amertron Berhad, que tem 11 fábricas no mundo”.

E complementa:

“É uma parceria para transferência de tecnologia e reconhecimento global. Quando tratamos com clientes futuros nas Américas, porque não é só Brasil nosso mercado, quando a gente diz que é nosso parceiro global, a Inari Amertron Berhad é maior encapsuladora de chips. Nos dá um aporte de tecnologia, que qualquer coisa que venhamos a produzir nos próximos anos, já tem o parceiro tecnológico”.

Transferência de tecnologia. Talvez essa seja a expressão mais estratégica de toda a operação. Porque o Brasil historicamente participou do consumo da revolução digital — mas raramente do núcleo da produção tecnológica global.

Segundo Ronaldo Aloise Júnior, a fase de preparação técnica avançou:

“O terreno já está na parte final de preparação. Já fizemos tudo que era necessário em topografia, análise, parte de documentação. Tudo. Em junho vamos fazer a aquisição definitiva via PROED, programa gaúcho de incentivo a distritos industriais”.

E acrescentou:

“Já estamos fazendo o BOD, base of design, que é o projeto definitivo da fábrica”.

A área escolhida é considerada estratégica pela proximidade com o Aeroporto Salgado Filho, Base Aérea de Canoas, BR-290, ERS-118 e o futuro traçado da ERS-010, a chamada Eletrovia, vinculada ao programa Cachoeirinha 2050.

Como já mostrei anteriormente aqui no Seguinte:, a disputa pelo investimento envolveu cidades como Gravataí e Canoas, mas Cachoeirinha conseguiu vencer pela combinação entre logística, articulação política e promessa de infraestrutura resiliente após as enchentes de 2024.

A cidade tenta transformar a viuvez industrial deixada pela saída da Souza Cruz em uma nova narrativa econômica. E, desta vez, baseada em semicondutores.

De presidente da República e Jornal Nacional

Há outro trecho simbólico na fala do CEO:

“O RS é o melhor lugar em ecossistema de semicondutores da América Latina, pela colaboração entre academia e empreendedores.”

Ao resgatar a tradição tecnológica gaúcha dos anos 1980, Ronaldo Aloise Júnior toca numa memória que parte do Estado esqueceu: o Rio Grande do Sul já foi protagonista nacional em tecnologia.

“Na década de 80, a maior fábrica de computadores do Brasil era no RS, que começou como iniciativa estatal e depois virou parceria com a economia privada, e depois foi adquirida pela HP.”

Não por acaso, o projeto é tratado pelo governo estadual como peça do programa Semicondutores RS, que aposta em pesquisa, formação de talentos e atração de investimentos internacionais.

Nesta quinta-feira, Ronaldo Aloise Júnior estará em Cachoeirinha para receber o 5º Mérito Empresarial e Industrial do Centro das Indústrias de Cachoeirinha. A presença do CEO no município ocorre em meio à intensificação das articulações locais para viabilizar o empreendimento.

A secretária municipal de Inovação, Indústria e Novos Projetos, Sueme Pompeo de Mattos, e a presidente do CIC, Neiva Bilhar, vêm mantendo interlocução próxima com a empresa.

A frase dita ao Seguinte: nesta quarta pela titular da nova secretaria criada pela prefeita Jussara Caçapava resume o atual estágio político do projeto: “A Tellescom é uma realidade”.

A afirmação tem peso institucional. Especialmente numa cidade que atravessou crises políticas recentes, impeachment, troca de comando no Executivo e desconfiança sobre a capacidade de sustentar projetos estruturantes de longo prazo.

A Tellescom resistiu ao pós-impeachment. E isso talvez seja tão relevante quanto o próprio investimento. Porque, como também já analisei anteriormente, fábricas bilionárias não escolhem apenas terrenos. Escolhem estabilidade, previsibilidade e capacidade política de execução.

Reputo o detalhe mais importante talvez seja invisível. Enquanto o debate público brasileiro ainda gira em torno de obras físicas, o projeto da Tellescom revela uma mudança mais profunda.

O ativo central não é concreto. É conhecimento. É treinamento de engenheiros. É homologação internacional. É inserção numa cadeia tecnológica global que poucos países conseguem acessar.

Ao fim, talvez Cachoeirinha não esteja apenas recebendo uma fábrica. Há potencial para representar o Brasil para disputa mais estratégica do século XXI. É investimento para inaugurar com presidente da República e reportagem no Jornal Nacional.

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