3º NEURÔNIO

Vamos falar sobre suicídio?

No Janeiro Branco de saúde mental integral, a jornalista Ana Muller colabora com o 3º Neurônio


Então…

Muitos, inclusive eu quando me formei jornalista, não podiam tocar neste assunto. Mesmo com toda a formação teórica, com especializações, sensibilidade, técnica e ética, era um tabu falar sobre suicídio.
Imaginava-se que o simples “falar sobre” pudesse suscitar a prática. Por muitos anos, não foi possível sequer tocar na palavra suicídio, e a imprensa não podia tratar do tema.

Por mais de 20 anos trabalhei nas áreas da educação e da cultura e, infelizmente, presenciei professores e artistas que perderam o sentido da vida. Nunca vou deixar de repetir que a minha melhor experiência como jornalista foi na área da saúde. Por aproximadamente dez anos, coordenei ações de comunicação na saúde pública. E foram muitos os contatos com renomados e comprometidos profissionais da saúde mental.

Ali me senti contribuindo e percebi que, independentemente da profissão ou da condição financeira, a ideação suicida — ou o fato consumado — vai muito além de cortar os pulsos, tomar remédios em excesso ou do enforcamento.

Hoje percebo que a relação com a comida, a bebida e outras questões envolvendo desequilíbrios já são sinais de que a pessoa não encontra sentido para a própria vida.

Infelizmente, também vivi muitas versões disso e nem me dava conta de que estava me perdendo… tentando diminuir meu tempo por aqui.

Falamos em drogas pesadas, mas há muitas outras drogas que não apenas nos adoecem, como também têm potencial para nos levar ao suicídio.

Precisamos falar sobre todos os excessos — inclusive daqueles que aparentemente são necessários, como o trabalho e a alimentação.

Tudo nos preenche por um tempo. Eu mesma já cometi vários excessos e achava que estava tudo bem, tudo certo.

Passei por um episódio muito desafiador de estresse pós-traumático nos anos 2000 e por um episódio muito assustador de câncer no final de 2024.

Por isso, considero importante falar de suicídio neste Janeiro Branco Integral de 2026.

Como mestre de cerimônias e assessora de comunicação, sempre trouxe o melhor das pessoas para o palco e para as linhas de texto.

E, desde 2020, faço um trabalho nas redes sociais com o Comunicar Bem Faz Bem, Cura Instantânea, Me Editar para Me Curar, @mulheresfelizes prosperam, @rivotrioemcapsulas e outras comunidades online e presenciais, além de grupos de cafés compartilhados no Sesc e em outros espaços de lazer e esporte, incentivo à música, ao teatro e à poesia.

Tudo isso foi dando sentido à minha vida. E também à vida das pessoas que estavam por perto.

Isso me fez feliz por uma vida inteira, porque acredito no que Jesus disse sobre fazer o bem sem olhar a quem. Fazer ao outro o que você gostaria que fosse feito a você.

O hoje.

Reavaliando tudo e ressignificando tudo, percebo uma maneira mais gentil e delicada de olhar para os meus limites, minhas necessidades e meus interesses.

Hoje, busco esse equilíbrio. E preciso dizer isso muito para vocês — e, principalmente, para mim.

Preciso dizer, antes de terminar janeiro, que suicídio não é apenas o ato consumado e explícito. Pode ser algo que você faz todos os dias, contrariado ou contrariada.

Apanhamos fisicamente, emocionalmente e, às vezes, apanhamos na nossa ética… nos nossos valores inegociáveis.

O suicídio pode ser permanecer em um lugar que você não aguenta mais, com pessoas que não te valorizam.

Ouvir coisas sobre o seu filho que você sabe que são infundadas.

Ouvir coisas sobre seu marido ou sua mulher que você também sabe que não fazem mais sentido.

Conhecer-se é o que muda tudo. Assim, podemos recalcular a rota. O que posso fazer hoje? De bom? De melhor, para ter mais vida? O que posso fazer para ficar perto das pessoas que me fazem bem?

Equilíbrio.

Caminho do meio.

Cuidado com os excessos: de comida, de bebida, de álcool, de trabalho.

Vamos nos comprometer a buscar o equilíbrio, o autoconhecimento e a nos permitir a felicidade.

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