RAFAEL MARTINELLI

Vanessa Morais, esposa de Miki, vai concorrer a deputada — o resgate de Josef K.

Vanessa, com Miki, anuncia pré-candidatura em vídeo, hoje

Vanessa Morais, esposa do ex-prefeito de Cachoeirinha, ex-deputado estadual, ex-vereador e ex-vice-prefeito de Gravataí, Miki Breier, vai concorrer a deputada federal nas eleições deste ano. É parte de um processo de resgate de um Josef K. da política gaúcha. Explico neste artigo.

A advogada, com currículo de assessorias na Assembleia Legislativa, em campanhas proporcionais do marido e na disputa de Beto Albuquerque ao Senado, até o período de desincompatibilização atuava na Casa Civil do governo Eduardo Leite. Agora, filiou-se ao PSD atendendo a um convite direto de Artur Lemos, seu chefe na Casa Civil e “número 1” do governador.

O mesmo PSD de Leite será o destino de Miki Breier, que já formalizou seu pedido de desfiliação do PSB e projeta concorrer a vereador por Gravataí em 2028, ano em que cumpre seu período de inelegibilidade após ser cassado pela Justiça Eleitoral gaúcha dois anos após sua reeleição à prefeitura de Cachoeirinha.

– É uma forma de resgatar a história do Miki, que foi ceifado da política por uma foice que nunca vimos – disse Vanessa ao Seguinte:, momentos antes de entrar em estúdio para gravar os vídeos e fazer a sessão de fotos que darão cara à sua pré-candidatura (ainda sem definição de uma dobradinha prioritária).

– Tenho cuidado do meu sustento, trabalhando manhã, tarde e noite – relatou Miki, que divide sua rotina entre 40 horas semanais na rede estadual de ensino e 20 horas em cedência para a Casa de Cultura do município.

Ao ouvir a narrativa do casal, é impossível não registrar um daqueles episódios que há anos classifico como ‘Dos Grandes Lances dos Piores Momentos’: passados mais de cinco longos anos desde que o Ministério Público deflagrou as operações Proximidade e Ousadia, sob acusações de supostas irregularidades na limpeza urbana, não há até hoje uma única ação penal contra Miki Breier.

O homem que foi afastado duas vezes da prefeitura por decisões cautelares de um tribunal criminal sequer virou réu no caso.

– Não há ação penal alguma. Parou na operação do MP. Minha defesa já pediu o arquivamento – atesta o ex-prefeito.

À medida que o tempo corre, outras acusações ruíram. Miki foi absolvido no TRF-4 no inquérito sobre o hospital de campanha — o que chamei à época de “Covidão da OLX”, quando auditores tentaram equiparar compras emergenciais de respiradores na pandemia a anúncios de site de classificados. As contas da sua gestão restam aprovadas pelo TCE. Já a pena da opinião pública e da perda do mandato, ele segue cumprindo integralmente.

Como tenho reiterado em uma série de artigos, Miki Breier é um Josef K. da política gaúcha.

Em O Processo, obra-prima do escritor Franz Kafka, o bancário Josef K. é preso e processado por autoridades invisíveis sem jamais saber de qual crime é acusado. A caminho do seu desfecho, ao ser questionado se se declara culpado ou inocente, o personagem só consegue responder: “Inocente de quê?”.

Miki viveu a versão real desse pesadelo institucional.

Como já escrevi: “Pelo princípio constitucional da presunção de inocência, Miki Breier é um homem inocente. Sua carreira foi guilhotinada sem julgamento criminal. Mataram o político; restou o homem tentando juntar os fragmentos”.

Fato é que Miki está inelegível por oito anos, mas não por condenação por corrupção. A cassação ocorreu no Tribunal Regional Eleitoral por motivos que, como registrei na ocasião, reputo absurdos: a reposição de vantagens a 62 servidores municipais, no período da reeleição de 2020, com base em pareceres da Procuradoria-Geral do Município, do TCE e do Ministério Público de Contas, além do pagamento de licenças-prêmio a 19 funcionários num universo de mais de 3 mil servidores.

A gravidade apontada pelo tribunal para deletar quase 20 mil votos da população de Cachoeirinha foi o fato de uma servidora beneficiada ter doado R$ 3 mil para a campanha.

Sempre alertei: uma suposta corrupção que chegaria à metade de um contrato milionário, com alegações de propinas em malas de dinheiro, ou era caso para figurar nas manchetes do Fantástico (se provada) ou no Zorra Total (se não passasse de bravata). Como o Zorra Total saiu do ar e as provas criminais jamais se materializaram em uma denúncia aceita pela Justiça, sobrou a execução sumária da reputação.

O caso de Miki lembra o calvário de Yeda Crusius na Operação Rodin. Foram necessários 15 anos para que o TRF-4 reconhecesse, por unanimidade, que a ex-governadora nunca cometeu fraude ou enriquecimento ilícito. Vitória jurídica incontestável, mas com um detalhe perverso: a vida política de Yeda já havia sido destruída no meio do caminho.

Ao fim, é sob este pano de fundo de reparação e sobrevivência que se desenha o projeto de Vanessa Morais rumo à Câmara dos Deputados. Ao se filiar ao PSD a convite da cúpula do Palácio Piratini, Vanessa não faz apenas um movimento eleitoral trivial. Mesmo sem grandes expectativas de eleição, ela testa se o eleitorado está disposto a ouvir o outro lado de uma história marcada por potenciais abusos judiciais.

Ao falar sobre as feridas provocadas “por uma foice que nunca vimos”, a advogada traz para o centro do debate a discussão sobre o lawfare e seus efeitos. Miki, do seu lado, busca na sala de aula e nas ruas de Gravataí o pão de cada dia e o restabelecimento do seu nome, projetando uma candidatura proporcional de pé no chão em 2028.

Se Josef K. sucumbiu no romance de Kafka sem entender o sistema que o devorou, Miki e Vanessa tentam escrever um final diferente no livro da política real. Reputo que mostram coragem para enfrentar o fantasma da presunção de culpa.


Há 3 anos, Miki falou longamente sobre seu calvário político, na entrevista “Pensei em desistir de tudo, mas a vida é bela”. Assista ao vídeo na SEGUINTE TV, clicando abaixo.

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