A primeira hora do júri político do Impeachment 2.0, na manhã desta sexta-feira (2), produziu mais do que despachos regimentais: produziu um placar.
Antes mesmo da leitura integral do relatório, das sustentações da defesa e das manifestações dos vereadores, o plenário da Câmara de Cachoeirinha já sinalizou, de forma quase didática, como tende a terminar o julgamento político do prefeito Cristian Wasem (MDB) e do vice-prefeito Delegado João Paulo Martins (PP).
Em votação preliminar, relacionada a impedimento de vereadora diretamente interessada no desfecho do processo, o painel eletrônico cravou 14 votos a favor e 3 contra.
O mesmo número que circula há semanas nos bastidores como um dos prováveis resultados finais do impeachment. E um número superior aos 12 votos necessários para decretar a cassação.
Não foi coincidência. Foi termômetro político.
O primeiro impedimento: unanimidade e rito respeitado
A presidente da Câmara, Jussara Caçapava (Avante), terceira na linha sucessória do Executivo — e, portanto, futura prefeita interina em caso de cassação —, declarou-se impedida de votar no julgamento. A Comissão Processante já havia feito a mesma leitura.
Coube ao vice-presidente da Casa, Gilson Stuart (Republicanos), assumir a condução da sessão. O impedimento de Jussara foi submetido ao plenário e aprovado por unanimidade, sem debate e sem dissidência.
Era o rito sendo cumprido à risca — algo que se tornaria ainda mais relevante minutos depois.
O segundo impedimento: Claudine, o vice e o prefeito
O ponto mais sensível da manhã veio na sequência.
A vereadora Claudine Silveira (PP), esposa do vice-prefeito Delegado João Paulo Martins, foi declarada impedida pela Comissão Processante. A parlamentar, no entanto, apresentou requerimento à Mesa Diretora questionando a extensão desse afastamento.
Claudine aceitou não votar no caso envolvendo diretamente o vice, seu marido. Mas questionou se o impedimento também se aplicaria às denúncias relativas ao prefeito Cristian Wasem, especialmente porque aguarda julgamento de mandado de segurança no Judiciário.
Gilson Stuart levou a questão ao plenário, submetendo à votação o afastamento conjunto, tanto nos fatos atribuídos ao vice quanto nos relacionados ao prefeito.
O resultado foi explícito: 14 votos a favor do impedimento e 3 contra.
Votaram contra apenas a própria Claudine, Cleo do Onze (MDB) e Uilson Droppa (Podemos). Os dois vereadores do PT — cuja posição vinha sendo tratada como incógnita no cálculo final — votaram a favor do afastamento.
Ali, o plenário falou mais alto do que o discurso: se há maioria para afastar, há maioria para cassar.
Suplentes empossados e sessão suspensa
Com a confirmação dos impedimentos, Gilson Stuart deu posse aos suplentes Gelson Braga (Avante) e Fernando Medeiros (PP), ambos já considerados votos favoráveis ao relatório final — o que, com voto de Medeiros substituindo Claudine, pode resultar em em 15 x 2.
Na sequência, a sessão foi suspensa para análise de requerimento da defesa.
O gesto de cautela da Mesa Diretora também revela a consciência de que qualquer nulidade formal pode virar munição futura naquilo que chamo ‘loteria de toga’: a aposta das defesas em judicializar o resultado político após a votação.
Quando o placar fala antes do voto final
A votação preliminar não decide o mérito do impeachment. Mas antecipa o ambiente.
Em um julgamento político-administrativo, especialmente sob o Decreto-Lei 201/1967, nada é mais revelador do que o comportamento do plenário em votações acessórias. E o comportamento foi cristalino.
Cristian e Delegado tendem a ser cassados, sobretudo pelas chamadas ‘pedaladas’ no Instituto de Previdência, estimadas em mais de R$ 20 milhões.
Como detalhado em reportagem anterior, basta um único item procedente para a cassação. E o relatório aponta vários.
Judiciário fora do jogo — por enquanto
O contexto torna esse placar ainda mais simbólico porque ocorre menos de 24 horas após o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul recusar suspender o impeachment, tanto em recurso do prefeito quanto do vice.
Como relatei, o TJ deixou claro que não há nulidades flagrantes capazes de impedir o júri político e que eventuais ilegalidades podem ser discutidas depois, sem travar o rito agora. Traduzindo: acabou o tempo da toga, começou o tempo do voto.
Mas o cuidado extremo da Mesa Diretora indica que o “depois” já está sendo levado em conta. A defesa parece apostar que, se perder no plenário, pode tentar ganhar no tapetão judicial — ainda que, até aqui, a loteria não tenha pago.
Um julgamento que pode não acabar hoje
Ao fim, a sessão pode atravessar a noite. Em 2011, quando a Câmara cassou a prefeita de Gravataí, Rita Sanco, e o vice Cristiano Kingeski, o julgamento durou mais de 24 horas.
Mas, seja hoje ou amanhã, o primeiro dado objetivo já foi lançado ao painel eletrônico da Câmara de Cachoeirinha: 14 vereadores estão dispostos a votar juntos.
Confirmado o impedimento de Claudine, pode chegar a 15. Como Uilson Droppa é o último a votar, pode chegar a 16 x 1, por preservação.
E, no impeachment, isso costuma ser tudo o que importa.
Até a ‘loteria de toga’ voltar ao sorteio, como Mega da Virada atrasada.
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