Na política, há quem espere o movimento. E há quem o provoque. O deputado estadual Dimas Costa (PSD) — o ‘embaixador do governador Eduardo Leite (PSD) em Gravataí’ — escolheu o segundo sopro.
Diante do presidente nacional Gilberto Kassab, no ato que neste sábado lotou o auditório da Fecomércio, em Porto Alegre, para filiar deputados e políticos que seguiram Leite no partido, ele fez o que poucos fizeram até agora com tamanha nitidez: disse em voz alta o que é projeto, ambição e estratégia — tudo ao mesmo tempo.
– Eu defendo com unhas e dentes Eduardo Leite presidente.
Não foi só uma frase. Foi uma demarcação.
Não é sobre coragem, reputo. É sobre leitura.
Dimas não é um político que improvisa movimentos dessa natureza. Pode até parecer sanguíneo — e é. Mas há método no impulso.
Quem acompanha sua trajetória já viu esse filme antes. O prefeito Luiz Zaffalon (PSD), sociólogo, já o chamou de ‘Animal Político’.
Foi assim quando quase solitariamente defendeu Leite na polêmica sobre um possível aumento do ICMS (que não ocorreu) lá antes da enchente. Foi assim no desgaste sobre o pedágio que nunca aconteceu na ERS-118 de Gravataí. Ainda não era deputado: era apenas secretário-adjunto.
Ah, mas aí também experimentou o sabor agridoce de ser governo.
Ganhou seu protagonismo nas entregas — como os mais de R$ 200 milhões em investimentos do Estado em Gravataí, incluindo a ERS-118 e a elevada que virou símbolo de obra grande na cidade.
Dimas aparece na foto, mas também entra na briga.
E isso não é detalhe. É método político.
O PSD vive um momento raro: cresceu, musculou, virou o que Kassab sempre quis: um partido grande, competitivo, com capilaridade nacional; o recordista em prefeituras no país.
Mas falta a decisão que separa coadjuvante de protagonista: ter ou não ter candidato a presidente de verdade.
Na mesa estão três nomes: além de Leite, Ratinho Júnior e Ronaldo Caiado. Nos bastidores, Ratinho lidera. Na liturgia, ninguém admite. E foi exatamente nesse intervalo — entre o que se diz e o que se pensa — que Dimas entrou.
Ao defender um candidato “que não seja sequestrado nem pelo PT, nem pelo PL”, ele não apenas falou de Leite. Ele construiu o enquadramento: centro, diálogo, despolarização. O ‘extremo centrismo’, que se ali não estiver, o PSD não existe para além de se aproveitar de espaços de poder do governo de turno.
Em política, enquadramento é poder.
O constrangimento necessário
Há um ponto que não pode ser ignorado: Dimas constrangeu Kassab. Não no sentido vulgar da palavra. No sentido político.
Kassab vinha conduzindo o processo com cautela, acumulando variáveis, testando cenários. Dimas fez o oposto: antecipou o veredito que gostaria de ver.
E fez isso olhando para o presidente do partido. E em frente a centenas de pessoas.
É o tipo de movimento que só é possível quando há história por trás.
Dimas foi o único deputado do PSD no Rio Grande do Sul antes da chegada de Leite. Foi à casa de Kassab, em São Paulo, pedir a filiação do governador. E, desde então, obviamente guardadas suas proporções, se consolidou como uma espécie de defensor primeiro do projeto ‘Leite presidente’.
Na política, credencial também fala. Se alguém souber de algum outro político gaúcho que foi à casa de Kassab apelar pela filiação de Leite, conte-me.
Aqui está o ponto mais interessante. Se Leite for candidato a presidente, precisa renunciar ao governo. Para Dimas, candidato à reeleição, isso não é o melhor cenário. O melhor, eleitoralmente, seria Leite ficar.
Mas política não é só cálculo imediato.
Ao defender o projeto presidencial, Dimas escolhe o longo prazo. Escolhe o alinhamento. A prioridade de Leite é a sua prioridade. É lealdade que se chama. Escolheu o lugar na mesa onde se decide, mesmo como um observador inoportuno — e não apenas onde se executa.
É a diferença entre sobreviver na política e jogar o jogo grande.
A lição de Merlin — e o que move o mundo
Há uma passagem em O Único e Futuro Rei, de T. H. White, em que Merlin ensina algo que parece distante da política — mas não é: “A melhor coisa é aprender por que o mundo se move e o que o faz girar”.
Dimas já entendeu. Na política, o mundo não se move sozinho. Ele é empurrado. E, muitas vezes, por quem decide falar quando os outros ainda estão calculando o silêncio.
Ao fim, o episódio diz mais sobre o momento do PSD do que sobre Dimas. O partido precisa decidir se quer disputar o centro — ou orbitá-lo.
Ou é ‘extremo centrismo’, ou é aderir fisiologicamente ao lulismo ou, talvez até pior, subir em palanque do bolsonarismo pedindo o fim do mundo na Av. Paulista.
Leite quer entrar em campo. Já disse isso. Kassab ainda mede o vento. E Dimas, mais uma vez, não esperou. Foi lá e soprou.
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