RAFAEL MARTINELLI

‘Filho político’ de Alba, Alan Vieira vai para partido da base de Zaffa — e a polêmica já vem junto

Alan, Marco e Zaffa, quando caminharam juntos na eleição de 2020

A janela partidária fechou neste sábado (4) com um movimento que não resta apenas em cartório eleitoral, inscreve-se nos anais da História recente da política da aldeia: o ex-vereador Alan Vieira saiu do MDB de Marco Alba e entrou no Novo da base do prefeito Luiz Zaffalon (PSD) em Gravataí. Com convite para concorrer a deputado federal.

Por que resta nos anais? Explico.

Na carta de desfiliação, Alan não rompe com o partido do qual é o último presidente eleito, apesar de licenciado. Reverencia.

Chama Marco Alba de “pai político”, agradece 20 anos de trajetória e lista, como quem presta contas à própria biografia, entregas concretas: articulação da reforma da previdência, devolução de recursos de sua gestão na presidência da Câmara que ajudaram na construção da Emergência SUS do Hospital Dom João Becker e, principalmente, associação a um projeto de “reconstrução de uma prefeitura sucateada”, herdada por Alba em 2013.

Não há ressentimento — ao menos explícito. Nem sinais ao ‘outro lado’ (leia a carta completa no fim do artigo).

Mas seu passado nas guerras políticas aldeanas antecede uma polêmica anunciada.

O Novo, partido que recebe Alan, integra a base do governo Zaffa. Tem duas secretarias: Desenvolvimento Urbano, com Bruno Palaver, e a gigante Secretaria da Saúde, sob liderança de Régis Fonseca, presidente municipal do partido.

Régis, aliás, confirma o movimento ao Seguinte: com diplomacia de quem antevê a crise: diz que o convite para filiação partiu da direção estadual e que a decisão do novo filiado concorrer a deputado federal “depende dele (Alan)”.

Alan não retornou contato do Seguinte: para confirmar a pré-candidatura.

Ao mesmo tempo, Régis lembra que recusou concorrer a deputado federal devido “ao compromisso com a gestão Zaffa/Dr. Levi”.

A mensagem completa de Régis diz: “O Novo Estadual fez um brilhante trabalho na busca por lideranças em todo o RS, objetivando a formação das nominatas, em especial a federal, por conta do desafio de romper a clásula de barreira no pleito de outubro. Fui convidado para concorrer a federal e declinei, em virtude do compromisso com a gestão Zaffa/Dr.Levi. Meu amigo Alan foi convidado pessoalmente pelo nosso presidente estadual e a decisão final, naturalmente, só depende dele”.

Abre uma porta que diz outros também terem a chave. Sem assumir o custo político local. Porque custo haverá.

Quando Zaffa saiu do MDB, foi Alan como presidente do partido, quem assinou a nota que chamou o prefeito de “ilustre desconhecido” e “poste”, afirmando que, sem Marco Alba, “não seria prefeito”.

Reportei em Bomba em Gravataí! Nota do MDB é um aceite da guerra entre Zaffa e Marco Alba; lá está a carta completa.

Foi ele quem enviou mensagem ao prefeito, com a frase que virou síntese da ruptura: “Mais uma vez o Senhor deu provas de que o empenho da palavra não é o seu forte.”

Também reportei em WhatsApp-bomba: presidente do MDB detona prefeito Zaffa: “O empenho da palavra não é o seu forte”; A III Guerra Política de Gravataí no Diário Oficial; e lá está o zap completo.

Foi ele, também, o operador político que sustentou a narrativa da traição quando Zaffa deixou o MDB — no que batizei, à época, de III Guerra Política de Gravataí.

Mais detalhes sobre a III GPG (que é Zaffa x Alba, pós Abílio x Oliveiras e Bordignon x Stasinski) estão em Declarada III Guerra Política de Gravataí: Zaffa vai sair do MDB para enfrentar Marco Alba; Bem-vindo à política, prefeito!.

Agora, esse mesmo Alan desembarca — ainda que por via partidária estadual — em uma sigla que, na cidade onde mora, sustenta o governo que ele ajudou a atacar.

A política permite. Política é estreitamento de inimizades. Mas a memória resta sempre fiel, nunca muda de partido. Menos ainda que Alan, que troca que pela primeira vez.

A chegada de Alan ao Novo guarda um convite para disputar uma vaga à Câmara Federal. E aí entra outro potencial de crise: o vice-prefeito Dr. Levi Melo (Podemos) também é pré-candidato a deputado federal.

É ‘Dos Grandes Lances dos Piores Momentos’: Levi tem em Régis — presidente do Novo local — uma de suas principais indicações no governo e conta com ele em sua campanha.

Ao fim, Exupéry explica a política

Nos bastidores, há uma leitura que volta com força: Alan poderia ter sido vice de Marco Alba em 2024. Não foi. O candidato foi Thiago De Leon (PDT).

E, como já escrevi na engenharia reversa da derrota, talvez ali esteja um dos pênaltis perdidos do MDB.

Com perfil mais conservador, trânsito político e capacidade de articulação, Alan poderia ter ampliado o alcance eleitoral da chapa, especialmente em um cenário em que Zaffa avançou sobre o eleitorado de direita.

Não é possível reescrever a eleição. Mas é inevitável reler seus capítulos.

A análise sobre isso está em #DasUrnas | Marco Alba foi ‘vítima’ do que construiu – e bem. Ou: Pelé errou o pênalti.

Fato é que Alan foi, durante anos, mais do que um vereador ou dirigente partidário: foi um dos principais operadores políticos de um projeto iconizado pelo sobrenome Alba.

Coordenou campanhas (como da atual deputada estadual Patrícia Alba), presidiu o MDB, liderou a Câmara, articulou base. E, é preciso reconhecer, também soube sair de cena sem gritos: preterido para vice, não disputou a quarta reeleição em 2024 para coordenar a campanha de Marco Alba, pediu licença da presidência em 2025, recuou para cuidar da vida privada.

Agora, volta.

Erra quem menosprezar o movimento, achar que Alan é um nome qualquer que entra em um partido para compor nominata. É jovem, mas com trajetória. E, sobretudo, com leitura de jogo. Onde estiver, tende a ocupar espaço. Seja junto a aliados do ontem ou do hoje.

Mas, por óbvio, carrega o agridoce da política: capital político e capital de conflito. Se, por um lado, sua história ao lado de Marco Alba lhe dá tamanho, por outro, o coloca no radar de adversários — antigos e novos.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. A frase de O Pequeno Príncipe (Saint-Exupéry) cabe bem ao caso.

Alan cativou aliados. Construiu lealdades. Travou guerras. Agora, ao mudar de trincheira — ainda que sem romper com o passado —, terá que administrar o que construiu, em cima de um atoleiro político que talvez julgue (e outros também) ser apenas uma poça d´água; e não é.

Insisto: a política é estreitamento de inimizades. Mas a memória resta ali, nunca como ilustre desconhecida. Pode não mudar nada, mas sabe constranger.

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A CARTA DE ALAN

O Seguinte: teve acesso à mensagem enviada por Alan ao MDB. Leia na íntegra:

MDB de Gravataí,

Escrevo essa mensagem com profundo respeito e gratidão por toda a caminhada que construímos juntos ao longo de mais de duas décadas, para formalizar minha desfiliação do MDB.

O MDB foi o meu único partido. Foram 20 anos de lealdade, entrega e construção coletiva, especialmente nos momentos mais desafiadores. Ao longo dessa trajetória, tive a honra de coordenar eleições importantes, contribuir com grandes vitórias e ajudar a consolidar um projeto político comprometido com Gravataí.

Tenho muito orgulho de ter feito parte de um ciclo em que ajudamos a transformar nossa cidade com responsabilidade, eficiência e respeito ao cidadão.

Participei diretamente de decisões relevantes, como a condução da reforma da previdência, que gerou uma economia de aproximadamente R$ 150 milhões aos cofres públicos. Como presidente da Câmara, liderei a devolução de R$ 4 milhões para a construção da emergência SUS do Hospital Dom João Becker.

Assumimos em 2012 um cenário extremamente desafiador: uma prefeitura sucateada, com cerca de meio bilhão de reais em dívidas, folha comprometida e sem capacidade de investimento.

Tomamos decisões difíceis. Enxugamos a máquina pública, profissionalizamos a gestão e modernizamos a estrutura administrativa. Como secretário municipal, participei diretamente desse processo de reconstrução. Já na Câmara, lideramos uma importante atualização legislativa, tornando o ambiente mais favorável para quem empreende, gera empregos e paga impostos.

A prefeitura deixou de ser um obstáculo e passou a ser parte da solução.

Resgatamos o orgulho do cidadão e a autoestima de Gravataí.

Minha trajetória começou aos 17 anos, como estagiário na Assembleia Legislativa, e encerrei esse primeiro ciclo no meu último mandato, aos 37 anos, com a mesma alegria, disposição e senso de responsabilidade.

Mesmo podendo ter disputado a reeleição, ter sido vice ou até candidato a prefeito, escolhi, com lealdade, seguir contribuindo com o projeto coletivo, colocando sempre o interesse maior da cidade acima de qualquer projeto pessoal.

Também por responsabilidade, tomei a decisão de dar um passo atrás para cuidar da minha família e dos meus negócios, uma escolha que contribuiu para renovar o partido, fortalecer lideranças e ajudar na construção de importantes resultados eleitorais.

Sempre entendi que cargo público não é emprego, é missão.

Por isso, inicio um novo ciclo em outro partido, onde possa seguir fiel às minhas convicções conservadoras e liberais, integrando um movimento de direita, e contribuindo com a experiência de uma gestão séria, eficiente e orientada a resultados, alinhada ao que acredito para o presente e o futuro.

Sigo com fé em Deus, que sempre guiou minhas decisões, e com a certeza de que a vida pública exige coerência e coragem para evoluir.

É nesse espírito que inicio um novo ciclo, com a mesma convicção de sempre: princípios e valores são inegociáveis.

Agradeço de forma especial à minha madrinha Sonia Oliveira, que hoje não está mais entre nós, mas que sempre será parte da minha história, pelo amor incondicional; ao amigo Acimar Silva; e, claro, ao amigo, pai e irmão Marco Alba e à deputada Patrícia Alba, aos meus colegas vereadores dos três mandatos, por todos os momentos vividos.

A vocês, filiados, membros do diretório e candidatos a vereador, deixo minha gratidão: só fui quem sou porque Gravataí e o MDB foram minha família ao longo desses 20 anos.

Muito obrigado.

Do amigo,

Alan Vieira

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