RAFAEL MARTINELLI

Do carro de Gabriel ao Palácio Piratini: Leite fica, Dimas e Zaffa ganham e os Alba perdem o governo que não veio; os efeitos em Gravataí

Em agosto de 2025, uma foto rara reunindo, no Piratini, todas personagens centrais deste artigo

São ‘De Dias Gomes’ as novelas políticas da aldeia.

No ato da ordem de início das obras da escola-modelo do Breno Garcia, em fevereiro, a deputada estadual Patrícia Alba (MDB) chegou no carro do vice-governador Gabriel Souza (MDB). Desceram juntos. Caminharam juntos. Falaram como quem já ensaia um roteiro.

No mesmo espaço, o deputado Dimas Costa (PSD) acompanhava o governador Eduardo Leite (PSD). Observava. Não ganhou a palavra. E, para quem conhece a política de Gravataí — e suas projeções —, era possível imaginar o pensamento: “me f@#!, vai ser assim no futuro”.

Gabriel governador. Patrícia como sua ‘embaixadora’ na cidade. E o ex-prefeito Marco Alba (MDB), cria política da mesma linhagem do falecido Eliseu Padilha, como conselheiro de bastidores do candidato à sucessão de Leite.

Era um futuro plausível. Quase natural. Mas veio o plot twist.

A decisão de Eduardo Leite de cumprir o mandato até 31 de dezembro de 2026 — abrindo mão de disputar Presidência ou Senado — virou esse quadro de cabeça para baixo. E, como quase tudo na aldeia, redefiniu vencedores e perdedores antes mesmo da urna falar.

Esta análise parte do pressuposto de Dimas e Marco manterem as pré-candidaturas à Assembleia Legislativa e Patrícia Alba à Câmara Federal.

Quem ganha: Dimas — e o presente; e Zaffa

Se há alguém que lucra imediatamente com a permanência de Leite no Palácio Piratini, é Dimas.

O ‘embaixador’ do governador em Gravataí — título que deixou de ser metáfora para virar função política — mantém seu ativo mais valioso: o acesso direto ao poder.

Leite fica. E, ficando, segue governando. Segue entregando. Segue podendo aparecer na propaganda dos candidatos do PSD sem as limitações de quem está em campanha própria.

Segue sendo um ‘Grande Eleitor’ na região metropolitana, como mostram pesquisas.

Para Dimas é estratégico, já que deixou de ser deputado na sexta-feira, com a volta de Gaúcho da Geral para AL; o deputado titular se desincompatibilizou na sexta da Secretaria de Esportes, para concorrer à reeleição.

Nomeado para a subchefia de Interior da Casa Civil, ligada ao ‘número 1’ de Leite, o chefe da pasta, Artur Lemos, Dimas tentará operar politicamente para Gravataí e Cachoeirinha com a caneta do governo ao alcance, ainda que não na mão.

Mais do que isso. Busca manter a narrativa que construiu em seus dois anos como deputado: de operador político de um governo que já investiu mais de R$ 200 milhões na cidade.

Em um cenário sem renúncia, Leite não vira candidato. Segue governador e vira o ‘Grande Eleitor’ de Gabriel. Isso, se não amplia, ao menos mantém o papel de quem está ao seu lado.

Dimas não perde o governador para uma campanha. Ganha o governador inteiro.

O prefeito Luiz Zaffalon (PSD) é outro que agradece.

Com Leite no governo, Zaffa mantém como aliado o chefe do Executivo estadual. E não vê o poder migrar para as mãos de Gabriel — e, por consequência, para a órbita do MDB dos Alba, seus principais adversários locais.

Quem perde: os Alba — e o futuro que não veio

Para Marco e Patrícia Alba, a decisão de Leite tem efeito inverso.

Se Gabriel assumisse o governo em abril, o MDB passaria a comandar o Estado. E, com isso, o casal teria mais espaço, mais influência e, principalmente, mais poder de articulação para 2026.

Não é torcida ou secação: são os fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos.

Patrícia seria, na prática, a principal interlocutora de Gravataí com o governador. Marco, suplente de deputado federal, poderia se beneficiar de rearranjos no secretariado — como a possível ida de Márcio Biolchi para a Casa Civil. E assumir em Brasília.

Seriam meses — sete até a eleição, mais três até o encerramento do mandato, independentemente de vitória ou derrota — com a máquina estadual sob influência direta do seu grupo político.

Uma eternidade na política.

Agora, não.

Com Leite permanecendo, o MDB não assume o comando. Gabriel segue vice e candidato. E o casal Alba passa a operar em um governo ao qual aderiu, mas com o qual nunca teve plena identidade.

Há gestos de convivência. Como os elogios públicos de Leite a Patrícia pela articulação da escola do Breno. Mas não há demonstrações consistentes de proximidade.

Há, ao contrário, histórico de tensão. Marco já acusou Leite, no primeiro mandato, de permitir que Gravataí perdesse o investimento do Mercado Livre — comparando o episódio à “perda da Ford”.

Foi Marco um dos ‘cabeças brancas’ a abrir dissidência no MDB para apoiar Onyx Lorenzoni e não Leite e Gabriel em 2022.

O desconforto, apesar da reconstrução da relação com Gabriel, seguiu na mesma proporção da aproximação entre Leite e Dimas.

O constrangimento que vem aí

A permanência de Leite só antecipa a polêmica. Em 2026, todos estarão, em tese, no mesmo palanque: Gabriel candidato a governador; Leite como seu principal apoiador; Zaffa e Dimas como aliados do PSD; Marco e Patrícia como lideranças do MDB.

A política é o estreitamento de inimizades, mas quem conhece as personagens envolvidas, sabe que Marco e Zaffa não sobem no mesmo palco; Dimas não transita com Marco; Patrícia vota com o governo, mas disputa com o grupo do prefeito; e os reencontros institucionais mal passam da cordialidade — quando passam.

Em ato do Piratini, em agosto do ano passado, no reencontro entre Marco e Zaffa após a eleição de 2024, não houve cumprimento.

Na escola do Breno, houve convivência. Mas também houve disputa de narrativa.

É o que chamei de ‘GreNal político’ da aldeia. E ele parece eterno, imortal.

Leite, ao decidir ficar, só joga mais uma bomba na briga de torcidas. Ou na briga da própria torcida.

Fato é que a decisão do governador tem como efeito tirar do MDB a expectativa de comando e devolver ao PSD o controle do presente.

Dimas mantém seu ativo principal: Leite; Zaffa preserva o alinhamento com o governo estadual; e os Alba perdem a possibilidade de transformar Gabriel em governo próprio antes da eleição.

Parece lógico que Leite será o principal coordenador da campanha de Gabriel.

Ou seja: mesmo na candidatura do MDB, o centro de gravidade continuará sendo o governador — e não o partido.

Não por escolha, mas por necessidade de Gabriel.

De Dias Gomes’, o episódio que explicou tudo

Talvez aquela cena ‘De Dias Gomes’ do Breno Garcia tenha sido mesmo um prenúncio. Patrícia no carro de Gabriel. Dimas ao lado de Leite. Dois projetos de futuro, lado a lado.

Cortando para o capítulo do dia, o futuro que os Alba imaginavam não virá. E o presente — que já era de Dimas — continua sendo.

Ao fim, são análises do momento. Restam ainda inúmeros episódios e spoilers até outubro. Só saberemos nas urnas quem matou Odete Roitmann.


LEIA TAMBÉM

Leite autoriza escola-modelo de R$ 37,4 milhões em Gravataí — e o ‘GreNal político’ da aldeia

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Conteúdo relacionado

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Receba nossa News

Publicidade