RAFAEL MARTINELLI

Leite autoriza escola-modelo de R$ 37,4 milhões em Gravataí — e o ‘GreNal político’ da aldeia

Leite e Gabriel autorizaram início de obras de escola-modelo no loteamento Breno Garcia

Gravataí assistiu, na tarde desta sexta-feira (27), a um ato que mistura futuro e passado, concreto, fatos e narrativas.

O governador Eduardo Leite assinou a ordem de início das obras da primeira escola estadual concebida integralmente no padrão do Projeto Escola+, no loteamento Breno Garcia. Ao lado do vice-governador Gabriel Souza, apresentou um investimento de R$ 37,4 milhões numa estrutura de 4,4 mil metros quadrados, capaz de atender cerca de 1,1 mil alunos em turno integral.

Há 17 anos o Estado não construía uma escola desse porte do zero. O faz na periferia.

Gravataí entra, oficialmente, no novo padrão arquitetônico e pedagógico da rede estadual. É a estréia das escolas-modelo.

Mas, como quase tudo na aldeia, o ato também foi palco do que costumo chamar de ‘GreNal Político’.

Antes, vamos às informações.

A unidade será erguida na Rua Odila Geye, em terreno de 14,4 mil metros quadrados. Terá 24 salas de aula, laboratórios, biblioteca, salas maker, refeitório, quadra e ginásio multifuncional — este último projetado para servir como abrigo emergencial para até 80 pessoas.

O conceito Escola+ funciona como um “lego” educacional: módulos pré-fabricados, sistema off-site, menos resíduos, mais rapidez, identidade visual padronizada e soluções sustentáveis como cisternas e eficiência energética.

– Após mexermos nas reformas fiscais e nos processos da máquina pública, o Estado volta a ter recursos para investir em educação – disse Leite.

O vice Gabriel Souza reforçou que a construção marca um novo momento da rede estadual, com ineditismo em Gravataí, que há 30 anos não ganhava uma escola desse porte do governo estadual.

O prefeito Luiz Zaffalon, que retornou de férias para acompanhar o ato — e recebeu a deferência do prefeito interino Dilamar Soares ao uso da palavra — afirmou que a escola ajudará a mudar a posição de Gravataí nos índices educacionais.

Até aqui, consenso.

Daqui em diante, fatos e narrativas.

Patrícia e a linha do tempo

Em um lado do campo, a deputada estadual Patrícia Alba (MDB), presidente da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa, tratou a obra não só como legado de seu mandato, mas também da gestão do marido, Marco Alba, em Gravataí.

Chegou ao lado do vice Gabriel Souza, correligionário de partido, e falou representando o Parlamento. Citou prefeito e deputado — sem pronunciar nomes.

Antes do ato, publicou vídeos reconstituindo o histórico da obra. E é aí que mora o ponto central de seus argumentos.

Segundo Patrícia, a escola integra compromissos firmados desde 2014, quando o então prefeito Marco Alba assinou termo de responsabilidade do Estado na implantação do loteamento Breno Garcia.

– O pleito foi levado ao vice-governador em 2023, quando ele estava no exercício do governo. Ao tomar conhecimento do acordo assinado lá atrás, Gabriel imediatamente chamou a Secretaria da Educação e solicitou o projeto – afirma.

Patrícia sustenta que a construção foi prioridade de seu mandato e resultado de articulação política.

Reforça que o Breno Garcia é fruto da gestão do marido, Marco Alba, e que a escola sempre esteve prevista como contrapartida estrutural do loteamento.

Seu vídeo ganhou comentário do governador: “Obrigado pela parceria, Deputada! Com teu apoio e teu trabalho, vamos entregar mais essa transformação para Gravataí! Um abração”.

Patrícia Alba com Leite, Gabriel e no canteiro das obras que iniciaram hoje

Dimas, o ‘embaixador

Do outro lado do campo, o deputado estadual Dimas Costa (PSD) também buscou se ligar à obra. É, como chamo, o ‘embaixador’ de Leite em Gravataí — nas boas e ruins.

Na véspera, circulou pelo Breno Garcia em carro de som convidando moradores. Produziu vídeos, mostrou imagens, detalhou o projeto. Também recebeu comentário público do governador em seu post: “Que alegria e que honra contar contigo pra fazermos essa transformação, meu amigo!”.

Dimas sustenta que o início das obras simboliza um novo momento para a cidade.

– É inegável. Depois que assumi, Gravataí nunca viu tantos investimentos – afirma.

Com autorização do governador anunciou que apresentará projeto para que a escola leve o nome de Sônia Paim — professora histórica, ativista social e primeira mulher negra a ocupar secretaria municipal na cidade.

Acima, Dimas sobe no pneu da máquina para foto oficial; e em seguida, o abraço de Leite em Zaffa

O ‘GreNal’ político da aldeia — e a dívida

O grupo político de Zaffa e Dimas, ambos do PSD, e o grupo dos Alba, do MDB, vivem desde a eleição de 2024 o que já classifiquei como a III Guerra Política de Gravataí.

Dimas e Marco Alba se enfrentam nas urnas em 2026. Concorrem à Assembleia Legislativa. Patrícia disputa a Câmara Federal com o vice-prefeito Dr. Levi Melo (Podemos).

No palco, cordialidade institucional.

Nos bastidores, uma disputa eterna.

Patrícia enfatiza o compromisso firmado ainda no governo Marco Alba e a articulação parlamentar que garantiu a execução.

Dimas enfatiza o investimento atual, a relação direta com Leite e o volume de recursos recentes destinados à cidade.

Como o segredo de aborrecer é dizer tudo, vamos lá: ambos estão certos — parcialmente.

A escola nasce de um termo de 2014, passa por um compromisso assumido em 2023 e se concretiza em 2026, no contexto da recuperação fiscal do Estado.

Era dívida do governo gaúcho com Gravataí.

E obra pública raramente é obra de um só mandato.

Escola-modelo é sustentável e ginásio pode funcionar como abrigo para 80 pessoas em situações de crise

O concreto

Política à parte, o fato é objetivo: Gravataí terá uma escola-modelo, com capacidade para mais de mil alunos, reduzindo deslocamentos de estudantes que hoje dependem de instituições como Antônio Gomes Corrêa, Carlos Bina e Nicolau Chiavaro Neto.

Num loteamento com milhares de famílias, isso não é detalhe. É infraestrutura de dignidade. Em um bairro popular, o maior loteamento popular do Minha Casa, Minha Vida, no Sul do Brasil.

Por ora, o mais importante é que a obra começa.

E, entre discursos e disputas, o que importa é que o concreto — diferente da narrativa — não aceita versão alternativa.

Para os alunos que estudarão na escola, importa mais até que os fatos.

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