Com mais de 102 mil eleitores, cidade tem quatro candidaturas — Jussara Caçapava, Claudine Silveira, Tairone Keppler e Laís Cardoso — e repete, sob outra forma, a lógica de ruptura política vista na eleição recente de Gravataí
Os mais de 102 mil eleitores de Cachoeirinha voltarão às urnas neste domingo (12), das 8h às 17h, para escolher prefeito e vice, em eleição suplementar, após a cassação de Cristian Wasem e do vice Delegado João Paulo Martins pela Câmara de Vereadores.
A decisão, baseada em acusações como “pedaladas fiscais” no instituto de previdência municipal e conflitos com o Legislativo, não apenas derrubou um governo. Reiniciou o ‘Dia da Marmota’ que, como no filme Feitiço do Tempo, aquela que chamo de ‘Pobre Cachoeirinha!’ experimenta há mais de uma década.
É a quarta vez, em menos de seis anos, que a cidade elege um prefeito.
Eleições suplementares não são eleições “normais”. São pleitos comprimidos, com menor mobilização e maior abstenção — para efeito de comparação, na eleição de 2024, cerca de 1 a cada 3 eleitores já não foi às urnas — e com um eleitor que, muitas vezes, vota menos por projeto e mais por leitura imediata de poder.
Algo como uma solução rápida — mesmo sob o risco de caber na máxima de Mencken sobre “soluções simples, ainda que erradas, para problemas difíceis”.
Cachoeirinha, guardadas as diferenças e biografias políticas, repete a última eleição de Gravataí.
Na cidade vizinha, em 2024, a ruptura entre Luiz Zaffalon e Marco Alba explodiu naquela que chamo de III Guerra Política de Gravataí. O aliado virou adversário. O eleitor foi chamado a arbitrar.
Em Cachoeirinha, o roteiro é mais radical: a ruptura não foi apenas política. Foi institucional.
A prefeita interina Jussara Caçapava, que apoiou a eleição de Cristian em 2024, liderou o processo que o cassou em 2026. E agora disputa contra o grupo que ajudou a eleger.
Do outro lado, a vereadora Claudine Silveira encarna a tentativa de retorno desse grupo ao poder — com um detalhe simbólico e político: é esposa do vice cassado.
A eleição, portanto, não é apenas polarizada. É fratricida.
Há uma tese incômoda que organiza esta eleição e que atravessa análises anteriores que fiz: eleição suplementar se ganha com estrutura, não com discurso. Principalmente na fisiológica Cachoeirinha.
E isso explica por que — sem torcida, secação ou juízo de mérito — Jussara chega como favorita.
Ela ocupa hoje o mesmo lugar que Cristian ocupou em 2022. E com uma diferença relevante: chega mais forte.
É prefeita interina, tem seis mandatos como vereadora, governa com maioria consolidada (12 dos 17 vereadores), reuniu nove partidos na coligação e, com a soma dos recursos eleitorais, dispõe de mais estrutura de campanha.
Em eleições desse tipo, isso não é apenas apoio político. É rede de mobilização.
Cada gabinete vira comitê. Cada cargo, vetor de influência. Cada liderança local, multiplicadora de voto.
É matemática política — não ideologia.
Um pragmatismo tão implacável que faz Jussara ter apoio de quase todas candidaturas ao governo gaúcho: Juliana Brizola, Luciano Zucco, Gabriel Souza e Marcelo Maranata.
Do outro lado, Claudine não disputa apenas como candidata. Disputa como instrumento político. Sua campanha é, essencialmente, o teste de um nome: Cristian Wasem.
Inelegível pelos próximos oito anos, o ex-prefeito tenta ocupar o papel de ‘Grande Eleitor’: transferir capital político acumulado em 2022 e 2024.
A estratégia é transformar a eleição em plebiscito sobre o impeachment, sustentar a narrativa do “golpe” e mobilizar emoção onde falta estrutura.
Há elementos de força nisso. Cristian não saiu derrotado nas urnas. Foi cassado. Isso permite construir um discurso de injustiça.
Mas há um limite estrutural difícil de contornar: Claudine tem base parlamentar mínima. Jussara tem maioria ampla e campanha maior.
Historicamente, em Cachoeirinha, isso decide mais do que qualquer vídeo viral — seja no Fusca amarelo, na dança ao som de Madonna ou na estética de denúncia à la Nikolas Ferreira.
A eleição também é uma disputa de linguagem.
Jussara construiu uma narrativa administrativa: “acabou a brincadeira”, foco em resolver a crise do lixo, atrair investimentos e a imagem de quem procura o povo, mas “arruma a casa”.
Cristian construiu uma narrativa emocional: “golpe”, “traição”, “batalha espiritual”, forte presença digital e memória de seus feitos. Claudine herda essa narrativa como candidata da “reparação”.
No fundo, no domingo, o eleitor não escolhe apenas entre nomes.
Escolhe entre duas interpretações do passado recente: houve desorganização e era preciso corrigir; ou houve injustiça e é preciso reparar.
Outras duas candidaturas orbitam a disputa principal: Tairone Keppler e Laís Cardoso.
Ambos fazem campanhas propositivas, com identidade, mas sem densidade eleitoral. São pouco conhecidos do eleitor, o que pesa em uma campanha curta.
O dado mais revelador talvez esteja fora das urnas: David Almansa, principal nome do PT local, decidiu não concorrer.
Preferiu preservar capital político para 2028 a arriscar uma terceira derrota.
É uma escolha estratégica e um sintoma.
O campo alternativo à ‘Situação A’ e ‘Situação B’ não disputa 2026 para vencer. Disputa para existir.
Ao fim, é o ‘Dia da Marmota’ da política de Cachoeirinha.
Miki e Cristian governaram com maioria parlamentar — e venceram eleições. Hoje, Jussara representa essa maioria.
E, insisto, quem arregimenta base larga, em eleição suplementar, larga na frente.
A história recente confirma. E o presente, às vésperas da eleição, parece repetir.
Neste domingo, mais do que escolher um prefeito até 2028, o eleitor decide: se maioria institucional vira maioria popular; se a narrativa do “golpe” mobiliza mais que a máquina; se Cristian ainda transfere voto; se Jussara consolida o poder que construiu sob o discurso de arrumar uma casa que diz ter encontrado bagunçada.
E, ainda, qual versão da história recente da cidade será oficializada nas urnas.
Porque eleição não é apenas sobre governar. É sobre convencer que se governa melhor.
Mesmo que a política, em época eleitoral, recaia quase sempre nas “soluções simples — ainda que erradas — para problemas difíceis”, como ensinou Mencken.
SERVIÇO
- Data: domingo, 12 de abril de 2026
- Horário: das 8h às 17h
- Eleitores: cerca de 102 mil
- Locais: 34 pontos de votação, 277 seções
- Documento: identidade com foto ou e-Título com biometria
- Novidade: Haverá também teste de integridade das urnas, realizado simultaneamente no TRE-RS, com transmissão ao vivo — procedimento inédito em eleições suplementares no estado.






