RAFAEL MARTINELLI

#DasUrnas | Em eleição voto a voto, Jussara transforma maioria política em vitória nas urnas; é a primeira prefeita eleita em Cachoeirinha

Prefeita interina derrota Claudine, candidata ligada ao prefeito cassado Cristian Wasem. No #DasUrnas, siga diariamente quem ganhou, quem perdeu, quem empatou e os números e análises da eleição suplementar pós-impeachment.


A vitória deste domingo (12) mostra que Jussara Caçapava (Avante) — com a ajuda de uma megacoligação política e, ainda que com uma vantagem mínima — convenceu o eleitorado de Cachoeirinha de que está arrumando uma casa bagunçada; mesmo tenha restado, até meados de dezembro, como um entre tantos inquilinos do então ‘síndico’ Cristian Wasem.

— A primeira prefeita eleita da história de Cachoeirinha vai cuidar da sua gente — disse.

Jussara fez 43,39% dos votos válidos (22.595). Claudine, 42,37% (22.065). A diferença foi de 530 votos. Tairone Keppler (PT) fez 13,29% (6.923) e Laís Cardoso (PSOL), 0,95% (494).

Prefeita interina desde a cassação de Cristian, Jussara, ao lado do vice Mano do Parque (PL), transforma maioria institucional em vitória eleitoral, em uma disputa marcada por ruptura política, impeachment e um filme que a cidade já conhece.

Quase como um ‘Dia da Marmota’ — leia minha análise de ontem, em Uma análise sobre a eleição deste domingo em Cachoeirinha.

É a quarta vez, em menos de seis anos, que Cachoeirinha elege um novo comando para a Prefeitura.

Mais do que os números, o que se confirma é o padrão. Eleição é como futebol: ganha quem faz o gol. O que importa é o resultado.

Eleições suplementares não são eleições “normais”. São comprimidas, com menor mobilização e maior abstenção. Em 2024, cerca de 1 a cada 3 eleitores já não havia ido às urnas. Neste domingo, a lógica se repete, com uma abstenção de quase 50%: um eleitor mais pragmático, menos ideológico e mais sensível à leitura imediata de poder.

A disputa colocou, de um lado, a máquina política consolidada de Jussara. Do outro, a tentativa de retorno do grupo liderado por Cristian, representado pela vereadora Claudine Silveira (PP).

O resultado mostra qual lógica prevaleceu.

Jussara chegou à eleição como favorita — mas confirmou o prognóstico sem uma diferença ampla. Com seis mandatos como vereadora, maioria consolidada na Câmara (12 dos 17 vereadores), apoio de nove partidos e maior volume de recursos, construiu uma rede de mobilização difícil de ser enfrentada em campanha curta.

Não era apenas apoio político. Era capilaridade.

Cada gabinete funcionando como comitê. Cada liderança local como multiplicadora de voto. Cada espaço institucional convertido em presença eleitoral.

É matemática política — não ideologia.

Do outro lado, Claudine carregava uma campanha de natureza distinta: menos estrutura, mais simbolismo. Sua candidatura operava como instrumento de um projeto maior — o de Cristian de se afirmar como ‘Grande Eleitor’, mesmo inelegível pelos próximos oito anos.

A estratégia era transformar a eleição em plebiscito sobre a cassação, sustentar a narrativa do “golpe” e mobilizar emoção onde faltava base.

Funcionou parcialmente como discurso. Mas não foi suficiente como estrutura.

Se em Gravataí, em 2024, a ruptura foi política — com o rompimento entre Luiz Zaffalon e Marco Alba — em Cachoeirinha o processo foi mais profundo. Foi institucional.

Jussara, que apoiou a eleição de Cristian, liderou o processo que resultou na sua cassação. E venceu, nas urnas, o grupo que ajudou a eleger.

Do outro lado, Claudine simbolizava esse retorno, com um componente político evidente: é esposa do vice cassado Delegado João Paulo Martins.

A eleição, portanto, não foi apenas polarizada. Foi fratricida.

O que o eleitor decidiu

No fundo, o resultado deste domingo responde a uma pergunta central que atravessou toda a campanha: qual versão do passado recente a cidade validaria?

A de que houve desorganização e era preciso corrigir — representada por Jussara. Ou a de que houve injustiça e era preciso reparar — defendida pelo grupo de Cristian.

A vitória da prefeita interina indica que, ao menos neste momento, a maioria institucional conseguiu se converter em maioria popular.

E reforça um padrão histórico da cidade: quem agrega base ampla, em eleições desse tipo, larga na frente — e, via de regra, confirma o favoritismo.

Cachoeirinha encerra mais um capítulo, mas não necessariamente o ‘Dia da Marmota’. Isso, só a próxima temporada vai mostrar.

Assim como Miki Breier e Cristian governaram com maioria parlamentar e venceram eleições, agora Jussara ocupa esse mesmo lugar. E vence a partir dele.

A cidade, mais uma vez, escolhe não apenas um nome, mas uma lógica de poder.

Neste domingo, o eleitor decidiu que, em eleições suplementares, o pragmatismo segue sendo o principal cabo eleitoral.

Porque, no fim, insisto: eleição não é apenas sobre governar. É sobre convencer que se governa melhor.

A esperança está agora nas mãos de Jussara — e também da megacoligação. É uma cláusula pétrea da política: governa-se como se vence a eleição.

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