Há um momento em que a greve deixa de ser apenas reivindicação e passa a ser estratégia. Cachoeirinha chegou nele em 24 horas.
Na segunda-feira, servidores municipais cruzaram os braços, foram à rua e expuseram um número que resume quase uma década de desgaste: 32% de perdas salariais acumuladas desde 2017. No mesmo dia, já havia negociação aberta com o governo da prefeita Jussara Caçapava — e um recuo tático do sindicato, que decidiu não estender a paralisação.
A greve cumpriu seu papel inicial: pressionou. Agora, entra no terreno mais difícil: o do cálculo.
Chegamos então no que chamo de ‘ideologia dos números’. A conta que não fecha — e nem abre.
O governo apresentou o que, hoje, alega caber no orçamento. Confirmou o pagamento de 4% em novembro de 2026, já acordados na gestão anterior, dentro de um parcelamento que prevê chegar a 12% até 2028. E sinalizou ainda estudos para reajuste no vale-alimentação e pagamento do auxílio-transporte em dinheiro.
Mas há um limite concreto — e ele não é político, é fiscal.
Cachoeirinha compromete hoje 50,30% da receita corrente líquida com pessoal. O limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal é 51,3%. É uma margem de menos de um ponto percentual.
Na prática: qualquer avanço mais agressivo encosta — ou ultrapassa — o limite legal.
– Precisamos construir alternativas juntos – afirmou ao Seguinte: o assessor especial Cláudio Ávila, ao agradecer a decisão do Sindicato dos Municipários de Cachoeirinha (Simca) de não prolongar a greve.
Se o governo negocia dentro da planilha, a categoria amplia o debate na rua.
Durante o ato na avenida Flores da Cunha, servidores colocaram na mesa uma pauta que vai além do salário: realização de concursos públicos, especialmente para saúde e educação; avanço nas obras de contenção contra cheias; melhoria no transporte público; defesa da EJA e posicionamentos sobre questões ambientais e territoriais — a principal: os rumores de reabertura de negociações para venda do Mato do Júlio.
É o tipo de pauta que transforma uma greve corporativa em movimento político mais amplo.
Ganha densidade — e também complexidade.
O timing pesa, no caso de Cachoeirinha. A gestão de Jussara começou agora, após um período de instabilidade institucional. Herdou demandas acumuladas — e uma cidade ainda lidando com problemas urgentes, como a crise do lixo e os efeitos financeiros da enchente de 2024.
Negocia, portanto, sem gordura. E com pressão imediata.
A lição que vem de Canoas — e de Lula
Há poucos dias, a poucos quilômetros dali, em Canoas, uma greve mais longa começou a ensinar uma lição conhecida — e desconfortável.
Greve tem tempo político. Quando ultrapassa esse tempo, muda de natureza.
A referência não é teórica. É prática. Vem de Luiz Inácio Lula da Silva, forjado no sindicalismo: greve tem começo, meio e fim. Insistir no “tudo ou nada” frequentemente termina no “nada”.
Em Canoas, o risco identificado é óbvio: o desgaste sair do governo e cair sobre a categoria, à medida que o impacto chega ao cotidiano das famílias.
Em Cachoeirinha, o sindicato parece ter lido esse cenário antes. Ao encerrar a paralisação em um dia, evita o ponto de inflexão — aquele em que a opinião pública começa a escorrer.
O movimento não acabou. Mudou de fase. Sai da pressão direta e entra na negociação prolongada.
De um lado: uma perda salarial real e acumulada, uma categoria que cobra reposição. Do outro: um governo com margem fiscal mínima, uma gestão em início de mandato e sob pressão. No meio: a realidade — que não aceita soluções ideais.
Ao fim, ao não estender a greve, o sindicato fez uma escolha estratégica. Não abriu mão da pauta. Mas também não comprou o risco de desgaste precoce.
É o tipo de decisão que não aparece em carro de som, mas solidifica ou enfraquece movimento. Porque como ensina a Realpolitik, não basta estar certo no argumento.
É preciso acertar o tempo.
LEIA TAMBÉM






