Há uma imagem poderosa — e perigosa — rondando a Região Metropolitana de Porto Alegre neste momento: a de uma ‘bacia das almas’. O CEP? Cachoeirinha.
Uma cidade espremida entre grandes barreiras hidráulicas, recebendo a pressão da água deslocada por obras feitas para salvar outros territórios. Um lugar onde a enchente não desaparece: apenas muda de endereço.
É exatamente esse o alerta que começa a emergir no município diante do projeto emergencial de proteção do entorno do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre.
A água não tem fronteiras. E talvez essa seja a principal lição ainda não aprendida após a tragédia climática de 2024.
O alerta do vereador de Cachoeirinha Leo da Costa (PT), ligado ao Coletivo Mato do Júlio, não deveria ser tratado como disputa política periférica entre municípios. É um alerta de lógica territorial. De sistema. De bacia hidrográfica.
Porque o que está em discussão não é apenas uma obra no aeroporto. É o redesenho do comportamento da água em toda uma região já traumatizada pela enchente.
O projeto emergencial anunciado pela Prefeitura de Porto Alegre prevê fechar pontos de entrada das águas do Rio Gravataí pelos arroios Passo das Pedras e Areia para proteger a zona Norte da capital e o entorno do Salgado Filho. O plano inclui diques, reservatórios e bombas flutuantes, em uma tentativa de entregar proteção rápida antes da chegada de um novo ciclo de El Niño, previsto para o segundo semestre.
O problema é que água represada em um ponto precisa encontrar outro caminho. E Cachoeirinha sabe disso porque já viveu isso. Na enchente de 2024, a cidade ficou ilhada. A ponte ‘caiu’ simbolicamente como acesso à Capital.
Agora, o temor é que, sem um sistema próprio de proteção concluído — o cinturão de diques prometido desde o PAC de 2012 e jamais integralmente executado —, o município se transforme no espaço de compensação hidráulica da proteção construída em Porto Alegre e Canoas.
A imagem é brutal. De um lado, Canoas eleva diques, entrega o Muro da Cassol e reforça seu sistema de contenção. Do outro, Porto Alegre prepara uma barreira emergencial para impedir a entrada das águas na zona Norte. No meio, o Rio Gravataí comprimido. E Cachoeirinha vulnerável.
Uma espécie de ‘bacia das almas’ metropolitana.
A comissão de moradores que luta por obras contra enchentes em Cachoeirinha percebeu o tamanho do risco. Após as manifestações do vereador, procurou o Ministério Público cobrando transparência, estudos técnicos e explicações sobre os impactos regionais do projeto.
O movimento é importante porque rompe uma lógica perigosa que começa a aparecer no pós-tragédia: a corrida isolada de municípios por autoproteção. Cada cidade tentando salvar a si mesma. Cada obra pensada dentro de limites administrativos. Como se a água obedecesse fronteiras políticas.
O despacho da promotora Roberta Morillos Teixeira, da rede ambiental especializada da região, é revelador exatamente porque reconhece essa complexidade. O MP determinou que o governo estadual apresente, em 20 dias, os estudos sobre os impactos do projeto do aeroporto “levando em consideração os demais municípios que estão no entorno do sistema emergencial”.
A pergunta está colocada: salvar uma área pode condenar outra?
Essa talvez seja hoje a discussão mais importante da reconstrução climática gaúcha. Porque o que começa a surgir é um paradoxo perverso: obras concebidas para aumentar segurança local podem ampliar insegurança regional quando feitas sem integração sistêmica.
O engenheiro Luiz Antonio T. Grassi, em artigo publicado no Sul21, descreveu exatamente esse problema ao analisar as lições ignoradas da enchente de 2024.
A tragédia — lembra Grassi — deixou evidente que enchentes acontecem dentro de bacias hidrográficas, não dentro de limites municipais.
O que acontece em um ponto do vale impacta diretamente outro.
Aterrar uma várzea em Porto Alegre altera o comportamento da água em Cachoeirinha. Fechar uma entrada de água na zona Norte pode elevar pressão sobre municípios vizinhos. Construir um dique sem integração regional pode apenas transferir o problema.
É por isso que a lógica de sistema importa tanto. E é justamente essa ausência de conexão que começa a assustar moradores da região do Gravataí.
Porque os sinais já estavam aparecendo antes mesmo da obra do aeroporto.
Nos últimos meses, esta coluna mostrou os alertas sobre o aterramento da várzea do Rio Gravataí para o empreendimento Ecovillage, próximo à Coca-Cola, em Porto Alegre. Ali, 36 hectares de várzea — área natural de absorção das cheias — vêm sendo aterrados em um processo investigado pelo Ministério Público.
Especialistas, como o geólogo Sérgio Cardoso, ex-presidente e decano do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Gravataí, definiram as várzeas como “esponjas naturais” da Região Metropolitana. Retirar essa capacidade de absorção significa acelerar e deslocar o fluxo da água.
E agora surge outro elemento na mesma lógica hidráulica: contenções emergenciais para proteger áreas valorizadas e estratégicas da capital.
A soma dos movimentos começa a desenhar um mapa inquietante. Menos espaço para a água expandir. Mais barreiras laterais. Mais pressão sobre áreas vulneráveis. Mais velocidade na subida do nível dos rios. E municípios periféricos ainda sem sistema robusto de proteção.
O próprio discurso oficial revela a pressa. O governo admite que grandes obras de contenção levam anos. Mas a proteção emergencial do aeroporto deve ser executada em poucos meses.
É compreensível a urgência. O Salgado Filho é infraestrutura crítica do estado. Mas a pergunta feita pelos moradores de Cachoeirinha ecoa com força política e social: por que a emergência anda rápido para proteger o aeroporto e tão devagar para proteger bairros populares da Região Metropolitana?
Essa percepção produz um sentimento explosivo no pós-enchente: o de que existem territórios prioritários e territórios sacrificáveis. E talvez seja exatamente isso que a expressão ‘bacia das almas’ traduza tão bem.
Não apenas uma condição geográfica. Mas uma hierarquia política da proteção.
O mais inquietante é que os alertas não vêm de negacionistas de obras. Ninguém está defendendo ausência de contenção. O que moradores, técnicos e ambientalistas cobram é outra coisa: planejamento integrado. Planejamento por bacia hidrográfica. Compatibilização regional. Transparência sobre impactos acumulados.
Porque a enchente de 2024 já ensinou uma verdade brutal ao Rio Grande do Sul: não existe solução municipal para desastre climático metropolitano. Ou a reconstrução será sistêmica, coordenada e regional — ou os muros erguidos para salvar um lado poderão empurrar a tragédia para o outro.
A água não tem fronteiras. Mas nossas decisões políticas ainda têm.
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