As críticas que surgiram nas redes sociais contra a licença ambiental concedida para a implantação da terceira fase do condomínio logístico da LOG Commercial Properties, em Gravataí, devastam a boa informação, a verdade. Reputo negacionismo ambiental, mesmo que com sinal inverso.
O empreendimento, previsto para ser o maior dos três condomínios da empresa no município, recebeu Licença Prévia e de Instalação emitida pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Sema) após análise técnica de um processo que reúne uma extensa lista de condicionantes ambientais, hidrológicas, urbanísticas e de compensação ecológica.
Com área útil projetada de 87,2 mil metros quadrados, o LOG III será implantado às margens da ERS-118, no bairro Bonsucesso, e integra um investimento estimado em R$ 280 milhões. A licença estabelece exigências que vão desde sistemas de drenagem pluvial e controle de enchentes até compensação florestal, preservação de áreas vegetadas e monitoramento da fauna.
Mas bastou a divulgação do documento para que alguns atores políticos passassem a tratar o projeto como se representasse uma ameaça ambiental iminente.
A realidade técnica, porém, aponta em direção oposta.
A própria licença ambiental descreve que o empreendimento está inserido em uma área industrial prevista pelo Plano Diretor e determina uma série de intervenções justamente para reorganizar a drenagem da região e mitigar episódios de alagamentos e inundações no entorno do bairro.
Entre as exigências impostas pela Sema está a implantação de mecanismos de retenção e amortecimento das águas da chuva, impedindo que o empreendimento transfira picos de vazão para áreas vizinhas.
A condicionante é a mesma destacada pela Prefeitura de Gravataí em nota oficial divulgada após a repercussão do caso. Segundo o governo municipal, o condomínio deverá implantar uma bacia de amortecimento e retenção para controlar o escoamento pluvial, reduzir sobrecargas na rede existente e contribuir para a mitigação de alagamentos e inundações em áreas localizadas a jusante.
A prefeitura ressalta ainda que a medida não é voluntária. Trata-se de obrigação técnica e legal vinculada ao licenciamento ambiental.
Também não procede a narrativa de devastação indiscriminada. O documento estabelece a preservação de 24,8 mil metros quadrados de vegetação nativa, determina compensação ambiental equivalente à área manejada, prevê transplante de espécies protegidas, monitoramento por dois anos e programas de resgate e proteção da fauna.
Além disso, a prefeitura esclareceu que a supressão autorizada refere-se principalmente a eucaliptos, espécie exótica, e que todas as intervenções estão condicionadas a medidas compensatórias previstas na legislação ambiental.
A discussão é revelante quando observada dentro da transformação econômica pela qual passa Gravataí. A cidade consolidou-se nos últimos anos como um dos principais polos logísticos do Rio Grande do Sul, impulsionada pela duplicação da ERS-118 e pela localização estratégica entre Porto Alegre, Serra Gaúcha, Vale do Sinos e litoral.
Conforme reportagem do jornalista Eduardo Torres, publicada no Anuário de Investimentos do Jornal do Comércio, o sucesso do LOG II foi determinante para a decisão da empresa de ampliar sua presença no município. O segundo condomínio foi entregue com 100% da área locada antes mesmo da conclusão das obras.
O LOG I, inaugurado em 2021, possui 55 mil metros quadrados e projetou cerca de 400 empregos. O LOG II, com 45 mil metros quadrados, tem potencial estimado de 700 vagas.
Já o LOG III será o maior dos três empreendimentos, com mais de 87 mil metros quadrados de área útil e investimento de R$ 280 milhões, devendo superar os números de geração de empregos das fases anteriores.
A própria LOG informou ao Jornal do Comércio que o investimento em Gravataí poderá representar entre 15% e 20% de todo o volume aplicado pela companhia no Brasil em 2027.
O contexto ajuda a explicar por que Gravataí se tornou um dos principais destinos de centros de distribuição no Estado. Reportagem do Jornal do Comércio mostrou que a cidade possui outros 200 mil metros quadrados de condomínios logísticos em obras e mais 360 mil metros quadrados em processos de licenciamento.
A diversificação econômica é vista como estratégica para reduzir aquilo que chamo de ‘GMdependência’.
Os dois tipos de negacionismo ambiental
Fiscalizar licenciamentos ambientais é obrigação da sociedade. Questionar, cobrar transparência e exigir rigor técnico faz parte do processo democrático.
O problema começa quando a crítica abandona os fatos e passa a se apoiar em narrativas simplificadas, muitas vezes desenhadas para gerar engajamento político ou curtidas nas redes sociais.
Há uma diferença enorme entre denunciar um empreendimento irregular e atacar um projeto que justamente foi submetido a uma longa lista de exigências ambientais.
É aí que surge um fenômeno perigoso: o negacionismo ambiental de sinal invertido.
Durante décadas, ambientalistas precisaram enfrentar quem negava impactos ambientais em nome do lucro fácil. Hoje, em alguns casos, surgem setores que parecem negar a possibilidade de existir desenvolvimento econômico aliado à proteção ambiental.
Como se qualquer investimento fosse automaticamente um crime ecológico, sem espaço para soluções técnicas. Como se o debate precisasse ser reduzido a uma caricatura entre mocinhos e vilões.
Às vezes é preciso responsabilidade para que a causa ambiental não seja confundida com a figura do ‘ecochato’ que enxerga destruição em qualquer obra, independentemente das medidas mitigatórias ou compensatórias adotadas.
Quando tudo vira motivo de indignação, até os bons exemplos perdem valor. E isso enfraquece justamente a pauta que se pretende defender.
Não há dúvida de que o ser humano, enquanto acredita em um Deus invisível, frequentemente destrói uma Natureza visível — que, em meio ao pó de estrelas, talvez seja esse próprio Deus que adora, como provocava o astrofísico Hubert Reeves.
Mas também não há dúvida de que existem caminhos intermediários. Existem formas de investir sem destruir. Mecanismos de compensação. Obras capazes de corrigir passivos históricos de drenagem.
Existem licenciamentos que não servem apenas para autorizar empreendimentos, mas para impor responsabilidades.
Ao fim, se há algo que os documentos do LOG III demonstram é justamente isso: a tentativa de compatibilizar crescimento econômico, geração de empregos, infraestrutura e proteção ambiental.
Criticar quando algo está errado é necessário. Criticar quando algo está certo apenas para produzir manchetes, likes ou dividendos eleitorais é outra coisa.
Isso faz toda a diferença para quem realmente se preocupa mais com o futuro ambiental de Gravataí do que com curtidas nas redes antissociais.






