RAFAEL MARTINELLI

Os R$ 20 milhões para Gravataí, a ‘Caltech’ e a política do verbo; a estrela de Davi

Zaffa e Davi, assinando convênios de R$ 20 milhões para Gravataí

Na política, o poder costuma ser tratado como substantivo. É o cargo, a cadeira, a caneta, a fotografia. Mas sua medida mais prática está no verbo. Fazer. Construir. Entregar. Articular. É por isso que reputo que Davi Severgnini tem estrela. Na sexta-feira (3), como secretário de Estado, assinou com o prefeito Luiz Zaffalon convênios que destinam mais de R$ 20 milhões para obras de infraestrutura em Gravataí.

O maior deles, de R$ 18 milhões, viabiliza a infraestrutura de acesso ao Instituto de Tecnologia e Computação (ITEC), empreendimento que Zaffa guarda como um dos principais legados de sua gestão.

A Prefeitura aportará ainda R$ 9,8 milhões como contrapartida nas obras do ITEC, que incluem terraplenagem, drenagem, redes de água e esgoto, pavimentação, ponte, sinalização e infraestrutura elétrica.

Outros R$ 2,5 milhões financiarão obras de macrodrenagem nos bairros São Geraldo e São Vicente, enquanto R$ 1 milhão será destinado à construção da ponte na Estrada dos Tavares.

Administrativamente, trata-se de um pacote expressivo. Politicamente, comunica muito.

Há poucos meses, Davi deixava a Prefeitura após quatorze anos no Executivo, onze deles comandando a Secretaria da Fazenda. Saiu sem despedida oficial, sem fotografia protocolar e em meio a interpretações sobre o futuro da relação com o prefeito. Descrevia-o, então, como ‘Zaffa do Zaffa’, por ser um potencial candidato à sucessão. E a política, como a natureza, costuma detestar o vazio; quando faltam fatos, sobram versões.

Vieram, então, os acontecimentos.

O governador Eduardo Leite o convidou para assumir a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano, uma das pastas mais estratégicas do Estado no contexto da reconstrução gaúcha. Poucos dias depois, sua primeira agenda oficial foi justamente em Gravataí. A visita reuniu Zaffa, o então deputado estadual Dimas Costa e lideranças políticas do município, num gesto que permitia a interpretação de que o grupo político sobrevivia.

À época, para dimensionar as presenças, lembrei que, em uma de suas máximas, Millôr já brincava que, na política, “ausentes são mortos temporários”.

Na sexta-feira, o prefeito atribuiu os investimentos ao diálogo construído entre Gravataí e o governo Leite. Davi respondeu destacando que havia muito tempo o município não mantinha uma interlocução tão direta com o Estado.

Mais do que as declarações, porém, chama atenção o objeto principal da assinatura. E que une Zaffa e Davi.

O ITEC nunca foi apenas uma obra. É um projeto ambicioso. Um campus voltado exclusivamente à Ciência da Computação, inspirado em universidades como Caltech, Carnegie Mellon e Harvey Mudd College. Um investimento privado estimado em R$ 400 milhões, com previsão de movimentar cerca de R$ 5 bilhões na economia local em uma década, gerar milhares de empregos e transformar Gravataí em um polo latino-americano de tecnologia e inteligência artificial.

Quando costumo chamá-lo de ‘Caltech gaúcha’, não é apenas uma metáfora. É uma tentativa de traduzir o tamanho da aposta.

A proposta prevê professores em dedicação integral, uma relação de aproximadamente um docente para cada dez alunos, residência estudantil, formação exclusiva em Ciência da Computação e um conselho acadêmico composto por nomes de projeção internacional. Mais do que uma universidade, seus idealizadores falam na construção de um ecossistema de inovação capaz de alterar a matriz econômica da cidade.

O novo barulho

“Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes”. Citei Churchill em artigo anterior, onde se ensaiava a reaproximação entre Zaffa e Davi. O presente já permite uma constatação mais objetiva.

Os ruídos que dominaram os bastidores após a saída de Davi da Prefeitura foram, ao menos nesta agenda, substituídos por outro tipo de som: o anúncio de obras, a assinatura de convênios e a perspectiva do barulho de máquinas trabalhando.

Ao fim, na política, o substantivo costuma ocupar as manchetes. O verbo, porém, é quem atravessa o tempo. Fato é que e fica difícil para quem entende um pouco de política contestar Davi tem estrela. E não abandonou Gravataí.


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