RAFAEL MARTINELLI

A ‘Caltech’ gaúcha começa a contratar em Gravataí; entenda o projeto de R$ 400 milhões de investimento e 5 bi em retorno

Instituto de Tecnologia e Computação (ITEC) projeta R$ 400 milhões de investimento em Gravataí

O Instituto de Tecnologia e Computação (ITEC) existia como uma ideia ambiciosa. Era o projeto de R$ 400 milhões que prometia transformar Gravataí em um polo latino-americano de tecnologia. Era a futura universidade inspirada em instituições como Caltech, Carnegie Mellon e Harvey Mudd College. Era a aposta pessoal do prefeito Luiz Zaffalon. Era o empreendimento que dividia opiniões na Câmara, motivava empréstimos para obras de acesso e alimentava discussões sobre o futuro econômico da cidade. Agora, o ITEC começou a contratar.

A abertura dos editais para seleção de professores representa um dos primeiros movimentos concretos de formação do corpo acadêmico da instituição. Em outras palavras: a ‘Caltech gaúcha’ começa a trocar projeções por pessoas.

Os editais estão abertos até 31 de agosto e os profissionais selecionados iniciarão as atividades no começo de 2027, justamente quando a primeira turma deverá chegar ao campus em construção no Prado Bairro-Cidade.

Os candidatos precisam possuir doutorado e dedicação integral. Nesta primeira etapa, a seleção busca especialistas em Análise e Matemática Aplicada e Fundamentos Matemáticos e Estatísticos da Computação.

As disciplinas revelam muito sobre o nível de exigência pretendido pela instituição: Cálculo I e II, Equações Diferenciais, Matemática Aplicada, Matemática Discreta, Geometria Analítica, Álgebra Linear, Probabilidade e Estatística.

Não se trata de uma universidade convencional. A proposta prevê uma relação de um professor para cada dez alunos — índice raríssimo no ensino superior brasileiro e mais próximo dos modelos das universidades de elite norte-americanas que inspiraram o projeto.

O processo seletivo inclui prova escrita, prova didática, avaliação de títulos e arguição. Os salários não foram divulgados.

O que é a ‘Caltech’ de Gravataí

Para entender a importância dessa etapa, é preciso compreender o tamanho da aposta. O ITEC será uma instituição sem fins lucrativos dedicada exclusivamente à formação de cientistas da computação.

O investimento projetado é de R$ 400 milhões ao longo de dez anos, financiado por empresários do setor de tecnologia e fundações privadas.

Entre os idealizadores estão Cristiano Franco, fundador da Poatek, Marcelo Lacerda e Sérgio Pretto, fundadores do Terra. Também apoiam a iniciativa a Fundação Behring e a Telles Foundation.

O campus está sendo construído em uma área de aproximadamente 20 hectares às margens da freeway, em terreno doado por empresários locais.

A inspiração vem de instituições que figuram entre as mais respeitadas do mundo em ciência, engenharia e tecnologia.

Por isso a comparação recorrente com a Caltech — o California Institute of Technology, uma das universidades mais prestigiadas do planeta.

O modelo prevê ensino integral, forte interação entre professores e estudantes, currículo altamente seletivo e uma experiência acadêmica totalmente imersiva.

Os alunos não apenas estudarão no campus. Eles morarão nele.

A primeira turma está prevista para 2027 e terá 60 estudantes. Todos serão bolsistas integrais. Nas turmas seguintes, aproximadamente 70% dos alunos receberão bolsas de estudo integrais ou parciais.

O curso terá duração de quatro anos e será focado exclusivamente em Ciência da Computação. A meta é alcançar 420 estudantes simultaneamente matriculados até 2036.

O currículo foi desenhado por Giselle Reis, especialista em lógica computacional e integrante da Carnegie Mellon University no Qatar.

O conselho acadêmico reúne nomes de peso internacional, como Maria Klawe, ex-presidente da Harvey Mudd College e ex-conselheira da Microsoft, além do gaúcho Luis Lamb, ex-secretário estadual de Ciência e Tecnologia.

É justamente aqui que mora a diferença entre o ITEC e praticamente qualquer novo curso superior inaugurado no Rio Grande do Sul.

Os defensores do projeto nunca venderam apenas uma universidade. Vendem um ecossistema.

Segundo projeções apresentadas ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social de Gravataí (Codes), o empreendimento pode movimentar cerca de R$ 5 bilhões na economia local em uma década e contribuir para a geração de aproximadamente 6 mil empregos diretos e indiretos.

A ideia é que o campus funcione como âncora de um cluster tecnológico integrado ao PradoTech, à Casa das Startups e a futuros empreendimentos voltados à inovação.

Em termos simples: a tentativa é fazer Gravataí deixar de ser conhecida apenas pela General Motors, pela logística e pela indústria tradicional. A aposta é transformá-la também em uma cidade da inteligência artificial.

Ao fim, instituições de ensino só passam a existir de verdade quando começam a reunir seus professores e alunos. Por isso a abertura dessa seleção tem um simbolismo que vai muito além da contratação de alguns doutores em matemática aplicada.

Ela sinaliza que o cronograma está avançando. Que a primeira turma de 2027 continua de pé. E que um projeto que parecia distante quando foi anunciado durante as articulações que tiraram o empreendimento de Porto Alegre e o trouxeram para Gravataí começa, lentamente, a ganhar rosto, endereço e corpo acadêmico.


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