RAFAEL MARTINELLI

Zaffa vence batalha da ‘Caltech’ de Gravataí: vereadores aprovam empréstimo de R$ 30 milhões para acesso ao ITEC; entenda

Investimento é projetado em 400 milhões no Instituto de Tecnologia e Computação

A Câmara de Gravataí aprovou na noite desta terça-feira (19) um dos projetos mais caros para o prefeito Luiz Zaffalon: a autorização para contratar um financiamento de até R$ 30 milhões junto ao BRDE para executar obras de infraestrutura de acesso ao Instituto de Tecnologia e Computação (ITEC), projetado para ser uma ‘Caltech’ brasileira que promete transformar a cidade em um polo latino-americano de tecnologia e inteligência artificial.

Apenas cinco dos 21 vereadores votaram contra o PL 19/2026 — toda a bancada de MDB e PT.

O projeto autoriza a prefeitura a contratar uma operação de crédito de até R$ 30 milhões junto ao BRDE para viabilizar obras públicas de infraestrutura de acesso ao ITEC. Na prática, o financiamento bancará pavimentação, iluminação pública, construção de acesso viário e ponte para conectar adequadamente o campus tecnológico que está sendo implantado no Prado Bairro-Cidade, às margens da freeway.

A justificativa do projeto deixa claro que o governo trata o empreendimento como estratégico para o futuro econômico de Gravataí.

Segundo o texto enviado pelo Executivo, o ITEC tem “relevante interesse público e estratégico”, por contribuir para “o desenvolvimento tecnológico, a atração de investimentos, a geração de empregos e a dinamização da economia local”. O PL também prevê como garantia da operação de crédito o uso de recebíveis do município, incluindo cotas do ICMS e do Fundo de Participação dos Municípios (FPM).

É justamente aí que mora a controvérsia política. Porque o financiamento para a ‘Caltech’ gravataiense foi aprovado poucos meses depois de o próprio governo editar o decreto que chamei de ‘Zaffa Mãos de Tesoura’, que congelou gastos, suspendeu contratações, limitou despesas e impôs cortes administrativos diante do cenário fiscal do município.

A oposição explorou exatamente essa suposta contradição.

Pelo MDB, o vereador Áureo Tedesco — ex-vice-prefeito do governo Marco Alba — alertou para o que chamou de endividamento superior a R$ 1 bilhão.

– Não é momento para contrair mais dívidas – afirmou na tribuna.

Já a vereadora Vitalina Gonçalves, do PT, associou o novo financiamento ao debate provocado pelo próprio decreto de austeridade do governo.

– O governo federal está investindo R$ 40 milhões no Periferia Viva, no Rincão da Madalena. A prefeitura, em momento difícil, vai investir R$ 30 milhões em um projeto privado. Cada governo com suas prioridades – criticou.

O argumento da oposição tenta atingir justamente o ponto mais sensível do projeto: o fato de dinheiro público financiar infraestrutura para um empreendimento privado-filantropico de elite acadêmica.

Mas a base governista respondeu apostando no discurso de retorno econômico de longo prazo.

O líder do governo, Alex Peixe (PSDB), defendeu o impacto social e financeiro projetado pelo ITEC, estimado em R$ 5 bilhões para a economia local ao longo de dez anos.

Cláudio Ávila (Avante) buscou neutralizar o temor sobre a dívida argumentando que, quando o município começar efetivamente a pagar o empréstimo, em 2028, o índice de endividamento já deverá ter recuado para cerca de 50%.

O projeto de R$ 400 milhões — e a aposta de Zaffa na era da IA

Fato é que o ITEC não é apenas mais um campus universitário.

O projeto é tratado por empresários, governo e investidores como uma tentativa de criar no Rio Grande do Sul uma instituição inspirada em referências globais como California Institute of Technology, Carnegie Mellon University e Harvey Mudd College.

A proposta prevê um instituto sem fins lucrativos focado exclusivamente em Ciência da Computação e formação de lideranças em tecnologia.

O investimento privado projetado é de R$ 400 milhões ao longo de dez anos.

O campus será construído em uma área de 20 hectares às margens da freeway, em terreno doado por empresários locais. O modelo prevê ensino integral, moradia obrigatória no campus e formação imersiva, inspirado nas universidades americanas de elite.

A primeira turma, prevista para 2027, terá 60 alunos — todos bolsistas. A meta é chegar a 420 estudantes simultâneos até 2036.

O currículo foi desenhado pela gaúcha Giselle Reis, ligada à Carnegie Mellon University no Qatar, e o conselho acadêmico terá nomes internacionais da computação e inovação.

Mais do que ensino, porém, o argumento central dos defensores do projeto é econômico. Segundo as projeções apresentadas no Codes, o ITEC pode gerar cerca de 6 mil empregos e movimentar R$ 5 bilhões na economia local em uma década.

A aposta é transformar a região do Prado em um cluster tecnológico conectado ao PradoTech, à Casa das Startups e a novos empreendimentos de inovação.

É a tentativa de Gravataí deixar de ser conhecida apenas como cidade da GM e da logística para também virar uma cidade da inteligência artificial.

O simbolismo político disso ajuda a explicar a insistência pessoal de Zaffa no projeto. Ao Seguinte:, o prefeito reagiu às críticas da oposição fazendo uma comparação histórica carregada de provocação política:

– Com a GM também foi assim, por parte do PT. Depois estavam alegres e felizes na inauguração. Hoje o MDB faz este papel.

Na visão do prefeito, a oposição não compreendeu o tamanho estratégico do empreendimento.

– O ITEC foi viabilizado com doação de 22 hectares pela iniciativa privada e com obras de acesso pelo governo. Sei que a oposição não conseguiu entender que os 400 milhões de investimentos neste projeto traz para Gravataí.

Zaffa também tratou o instituto como uma aposta de futuro em meio à transformação tecnológica global.

– Um projeto único na América do Sul e o que isto irá gerar para a economia da cidade e da região não foi entendido ou é simples oposição? Sei lá, mas eu conhecendo o projeto, aposto que nesta era de IA mudando o mundo, Gravataí não pode ficar de fora. E não estará.

Ao fim, a aprovação do PL 19 mostra que, além de Zaffa, a maioria da Câmara comprou essa aposta.

OS VOTOS

: A favor do projeto: Alex Peixe (PSDB), Anna Beatriz (PSD), Bino Lunardi (PSDB), Bombeiro Batista (Republicanos), Carlos Fonseca (Podemos), Claudio Ávila (União Brasil), Clebes Mendes (PSDB), Fabio Ávila (Republicanos), Guarda Moisés (Republicanos), Hiago Pacheco (PP), Marcia Becker (PSDB), Mario Peres (PL), Paulinho da Farmácia (Podemos), Policial Coruja (PP) e Roger Correa (PP).

: Contra o projeto: Airton Leal (MDB), Aureo Tedesco (MDB), Beto Bacamarte (MDB), Claudecir Lemes (MDB) e Vitalina Gonçalves (PT).

*O presidente do legislativo, Dilamar Soares (Podemos), o Dila, só precisa votar em caso de necessidade de desempate. Na tribuna ele declarou ser favorável ao projeto.


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