RAFAEL MARTINELLI

A verdade é que Jairo Jorge não concorre porque está enrolado na justiça

JJ, o homem de 1.087873 de votos

Os fãs de JJ – e são muitos: na política, no jornalismo e, principalmente, no eleitorado – tem dificuldade em dizer o óbvio. Mas, vamos lá, o segredo de aborrecer é dizer tudo (Voltaire): Jairo Jorge não concorre em 2026 porque está enrolado na justiça. Não pagou a aposta na ‘loteria de toga’.

O anúncio ecoou como uma bomba no cenário político de Canoas, e gaúcho, na noite de 2 de julho de 2026: aquele que é um dos nomes mais icônicos e testados pelas urnas na história recente de Canoas retirou sua pré-candidatura a deputado estadual e declarou o fim de sua trajetória na política eleitoral.

No vídeo divulgado em suas redes sociais, o discurso fala em “missão cumprida”, “serenidade” e retorno ao jornalismo e à gestão pura. Na Realpolitik, dos bastidores e dos tribunais, contudo, a engenharia da realidade é obviamente outra.

Com 41 anos de vida pública e um currículo que contabiliza 10 eleições — incluindo cinco candidaturas a prefeito, três a deputado estadual, uma a vereador e uma a governador —, Jairo Jorge é um gigante eleitoral em seu reduto. Ele se orgulha de ostentar mais de um milhão de votos ao longo da carreira e de ter entregue 1.345 obras nos 12 anos em que comandou a prefeitura de Canoas.

Tem, inclusive, trajetória nacional; foi secretário-executivo no Ministério da Educação na gestão de Tarso Genro, num dream team que tinha ainda Fernando Haddad. Foi quando se criou, por exemplo, o ProUni.

No comunicado oficial, que noticiei naquela noite, o tom foi de despedida definitiva: “A decisão de não disputar as próximas eleições foi tomada com serenidade e com a certeza de que cumpri a missão que me propus. Meu compromisso com Canoas permanece. Apenas muda a forma de contribuir”.

A despeito da suavidade das palavras nas redes antissociais, o movimento esconde um cerco que vinha se fechando rapidamente nos tapetes verdes do Judiciário e dos órgãos de controle.

A verdade nua e crua é que o espaço de manobra jurídica de Jairo Jorge encolheu drasticamente nos últimos meses, transformando sua viabilidade eleitoral para outubro de 2026 em um jogo de altíssimo risco.

O revés mais recente e fulminante veio do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS) em abril de 2026, quando o pleno manteve, por unanimidade, a rejeição de suas contas de 2016, negando o segundo embargo de declaração da defesa.

Embora a defesa de JJ tenha alegado que o tribunal desconsiderou a crise fiscal da época e, principalmente, o impacto climático extremo da tempestade de 2015 em Canoas — invocando inclusive o artigo 22 da LINDB —, o relator Roberto Debacco Loureiro foi taxativo: embargos não servem para reabrir julgamento de mérito.

Mas o calvário jurídico vai além do TCE.

Jairo Jorge recorre de uma condenação criminal mantida pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região envolvendo a contratação de um hospital sem licitação. O caso é o que ele próprio define como um paradoxo: foi absolvido na esfera cível, mas condenado na criminal com as mesmíssimas provas.

Em outubro de 2025, a Vara Estadual de Improbidade Administrativa o condenou em primeira instância pelo projeto do Aeromóvel. A sentença impôs a suspensão dos direitos políticos por até 10 anos e o ressarcimento solidário de impressionantes R$ 66,6 milhões ao erário. O juiz Gabriel Pinos Sturtz foi duro: “A improbidade não pune a má escolha. Pune a conduta desonesta. E a desonestidade, no caso, ficou comprovada”, referindo-se a R$ 66 milhões em estudos e materiais “que levam a lugar nenhum”.

Frente a “mais de duzentas ações movidas por adversários desde 2009”, como ele próprio já lamentou ao Seguinte:, Jairo Jorge blindou-se sob a narrativa do lawfare — o uso do sistema de Justiça como arma de destruição política. É um argumento controverso, mas eficaz para manter a militância unida; como já escrevi, capturando exemplos de ambos os lados da ferradura ideológica: no Brasil, evoca o fantasma de Lula na Lava Jato e Bolsonaro na trama golpista; nos Estados Unidos, o discurso vitimista de Donald Trump contra seus processos.

Ainda assim, a realidade se impõe: depender de recursos em cima de recursos transformou a candidatura de JJ em uma perigosa ‘loteria de toga’. E ele preferiu não pagar para ver o resultado do sorteio de 2026.

Um passo na dança de 2028

Eu não acredito, nem por um like, nessa aposentadoria precoce da política eleitoral. Jairo Jorge é um animal político, e o movimento atual não parece um adeus. E, sim, um recuo estratégico de sobrevivência. Algo como sair da luz para atravessar as sombras.

Insisto: seus defensores e fãs mais fervorosos têm imensa dificuldade em admitir o óbvio, mas a realidade salta aos olhos: Jairo Jorge não concorre em 2026 simplesmente porque está completamente enrolado na Justiça. Colocar o bloco na rua com o risco real de ter o registro cassado às vésperas do pleito seria um suicídio político e um desgaste desnecessário para seu partido, o PSD.

Reputo a estratégia real é ganhar tempo. JJ vai focar todas as suas energias em tentar reverter as condenações nas instâncias superiores, apostando na tese da perseguição política e lembrando as quatro absolvições recentes que obteve em outras ações de improbidade (como o caso dos uniformes e da reforma do Paço).

Se conseguir se livrar dos nós jurídicos e escapar da inelegibilidade, a profecia é inevitável: haverá uma verdadeira peregrinação de aliados batendo à sua porta para o pleito municipal de 2028. E ele, apesar de negar hoje com veemência, vai aceitar o chamado nos braços de um “volta, Jairo”.

Essa postura me recorda imediatamente uma das grandes influências de sua formação política: Tarso Genro. Em 2022, Tarso jurava “peremptoriamente” que não deixaria a prefeitura de Porto Alegre para concorrer ao governo do Estado; logo depois, mudou de ideia e mergulhou na disputa ao Piratini. A política é dinâmica (nova essa, não?).

Ao fim, longe dos palanques por enquanto, restará a Jairo Jorge o tempo da paciência jurídica e a chance de recitar Fernando Sabino, em O Encontro Marcado:

De tudo ficaram três coisas:

a certeza de que estamos sempre começando,

a certeza de que é preciso continuar,

a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar.

Fazer da queda um passo de dança,

do medo uma escada, do sonho uma ponte,

da procura um encontro.

A dança de Jairo Jorge foi interrompida em 2026. Mas o compasso para 2028 já começou a ser ensaiado nos bastidores dos tribunais. Um político de 1.087873 de votos simplesmente não vai para casa aos 63 anos.


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