RAFAEL MARTINELLI

O ‘Pelé’ voltou: a dupla aposta de Marco e Patrícia Alba na dobradinha a deputado estadual e federal por Gravataí

A homologação das candidaturas de Patrícia Alba a deputada federal e de Marco Alba a deputado estadual na convenção do MDB gaúcho deste sábado (1º) é a confirmação de uma estratégia desenhada a quatro mãos para medir até onde vai a capacidade de sobrevivência — e de reexistência — de um grupo político desalojado do edifício do poder que ajudou a construir em Gravataí.

Fora da Prefeitura desde o rompimento em 2023 com o prefeito Luiz Zaffalon (PSD), naquilo que batizei como a III Guerra Política de Gravataí, a aposta do casal Alba se ancora no legado construído em décadas de gestão e parlamento e no apelo à memória afetiva das entregas.

O ‘Pelé da Política’, como Marco restou conhecido no meio político da aldeia, voltou ao gramado num recuo estratégico para concorrer à Assembleia Legislativa, após ficar na suplência como deputado federal na eleição de 2022. Já Patrícia busca ‘subir de divisão’, ascendendo da Assembleia Legislativa para a Câmara dos Deputados, em Brasília.

Para compreender a cena atual, é preciso recorrer à análise de outros campeonatos. Em outubro de 2024, após a derrocada do MDB nas urnas locais, assinalei no #DasUrnas, do Seguinte:: “Pelé já errou pênalti. Marco Alba também errou o seu”. Naquele pleito, o ex-prefeito colheu 33,87% dos votos contra os 51,17% de Zaffa, vitimado, em boa medida, pelo modo analógico com que conduziu o processo: demorou a sair do bunker, perdido entre expor a decepção com o político que, como ‘Grande Eleitor’, ajudou a eleger em 2020, e evitar fazer oposição a um governo que ele próprio havia ajudado a projetar e entregar para a cidade após encerrar dois mandatos com 80% de aprovação.

Os fatos — aqueles chatos que atrapalham argumentos — mostraram que a estratégia do isolamento cobra seu preço na era dos algoritmos.

Agora, o casal quase ‘joga fora de casa’ no campeonato das urnas de 2026. Como analisei em abril, quando Eduardo Leite (PSD) decidiu permanecer no Palácio Piratini até o fim do mandato, frustrou-se o cenário em que Gabriel Souza (MDB) assumiria o governo estadual e poderia transformar Patrícia na ‘embaixadora’ natural da região, dando ao casal a máquina na mão para operar o processo eleitoral. Os Alba perderam o governo estadual que não veio e viram o PSD de Zaffa e do ex-deputado estadual Dimas Costa (PSD) — grupo político com o qual travam o ‘GreNal da Aldeia’ — manter o domínio do presente.

Mas política não é ciência estanque. É o constante estreitamento de inimizades e o rearranjo de forças diante do inexorável amanhã.

Se Marco tem optado por novamente se manter longe dos holofotes e dos microfones desde a abertura das urnas em 2024, seu retorno agora guarda uma perspectiva de médio prazo: pavimentar o terreno para a eleição de 2028. Em entrevista recente ao Seguinte:, onde confirmou sua candidatura à Câmara dos Deputados, Patrícia antecipou que o marido é o seu candidato à Prefeitura no próximo ciclo.

E aqui reside uma quase profecia: caso Marco seja vitorioso na Assembleia e decida cumprir integralmente os quatro anos de mandato de deputado estadual — recusando-se a bater o pênalti de novo em 2028 para não arriscar aquele que hoje já é o maior espaço de seu grupo político —, o encargo de disputar a Prefeitura de Gravataí recairá inevitavelmente sobre os ombros dela.

É preciso lembrar que Patrícia não é peça secundária. É protagonista no time. Em 2022, ela saiu das urnas consolidada como a grande vencedora na cidade, com quase 30 mil votos locais e, única eleita, ostentando o título de ‘Rainha de Gravataí’, como analisei à época. Sua migração para a disputa federal é a tentativa de um voo mais alto, testando a capilaridade de seu nome para além da aldeia e puxando a votação do partido na região.

Fato é que o casal Alba aposta no legado e nas costuras silenciosas, longe da barulheira das redes antissociais, tecendo acordos com bases emedebistas e lideranças na Região Metropolitana e interior, novas ou das articulações que já fizeram de Marco o segundo deputado mais votado do RS, com mais de 82 mil votos. Fazem o estilo poker face, escondendo as cartas que têm à mesa — e, hoje, talvez só os dois saibam se são boas, ruins ou mais ou menos. Sem blefe, o que reputo ser estratégia: não apareceram em fotos com Leite, entre os milhares de registros da convenção.

Ao fim, o ‘Pelé da política’ está de volta ao campo de jogo. Se a torcida vai aplaudir a cobrança ou se a bola vai bater na trave novamente, dependerá da capacidade de o casal convencer o eleitorado de que o passado e o presente recente que construíram ainda têm força suficiente para desenhar o futuro.

Como em toda boa novela de Dias Gomes da política gravataiense, o spoiler definitivo só será revelado quando a última urna for apurada. Invariavelmente em um cenário que não será um the end, mas o piloto de uma série com capítulos até 2028.


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