SEGURANÇA

Como a polícia chegou ao suspeito de matar Maurício — e a despedida que uniu Gravataí

O homem de 36 anos suspeito de matar Maurício Gomes Dutra, de 69 anos, foi preso nesta sexta-feira (2), em uma clínica de reabilitação em Nova Santa Rita, na Região Metropolitana de Porto Alegre. A prisão foi realizada pela Polícia Civil, com apoio da Brigada Militar.

Maurício foi encontrado morto na madrugada de quarta-feira (30), dentro da própria residência, na Rua Coronel Fonseca, no Centro de Gravataí. A principal linha de investigação é de latrocínio — roubo seguido de morte.

De acordo com a Polícia Civil, o suspeito foi identificado durante a investigação a partir de imagens de câmeras de segurança. Nos vídeos, ele aparece caminhando nas proximidades da residência de Maurício.

Após ser identificado, os investigadores descobriram que o homem havia se internado em uma clínica de reabilitação na tarde posterior ao crime. Ele foi localizado e preso no estabelecimento nesta sexta.

Segundo a investigação, as características físicas e as roupas do homem registrado pelas câmeras, incluindo uma jaqueta azul, são compatíveis com a descrição fornecida por uma cuidadora que estava na casa no momento do crime.

A Brigada Militar foi chamada pouco antes das 6h de quarta-feira para atender à ocorrência. Segundo a Polícia Civil, Maurício teve o último contato com a cuidadora que estava na residência por volta das 4h15.

A mulher relatou aos policiais que, algum tempo depois, viu um homem sair de um dos quartos e fugir.

Na sequência, ela encontrou Maurício caído no pátio da residência, com ferimentos na cabeça.

Conforme a Polícia Civil, a casa estava aberta e apresentava sinais de desordem, com objetos revirados.

O delegado Wagner Dalcin, responsável pela investigação, informou que objetos pertencentes tanto ao idoso quanto à cuidadora foram levados da residência. Entre os itens roubados estão um celular, dinheiro e um cartão de crédito.

A investigação continua para esclarecer todas as circunstâncias do crime.

Um personagem da aldeia

A morte de Maurício provocou comoção entre moradores de Gravataí. Durante décadas, ele foi uma figura conhecida no Centro da cidade, principalmente pela relação com a tradicional Pizzaria Pandollo.

A trajetória de Maurício foi contada pelo Seguinte: em reportagem publicada em 30 de setembro, dia de sua morte. O texto recuperou episódios da vida do gravataiense e mostrou como ele se tornou uma presença querida no cotidiano da cidade.

Maurício nasceu em Gravataí, em 31 de janeiro de 1957. Era o quinto dos seis filhos de Maria Gomes Dutra e José Linck Dutra.

Pessoa com deficiência em razão de complicações no parto, ele viveu com a mãe em uma época em que, segundo relatos recuperados pelo Seguinte: de uma reportagem publicada pelo Correio de Gravataí em 2009, havia poucas alternativas de atendimento especializado e muito preconceito.

Foi a busca da mãe por outras famílias que tinham filhos em situação semelhante que ajudou a formar uma turma que posteriormente estaria ligada à história da Escola Municipal de Educação Especial Cebolinha e da Apae.

A relação com a Pizzaria Pandollo começou em 1985. Maurício costumava caminhar pelas ruas do Centro e passou a frequentar o estabelecimento, que funcionava próximo à praça central.

A aproximação com Ilton Pereira da Silva, conhecido como Pandollo, e Rejane fez com que Maurício passasse a trabalhar na pizzaria e se tornasse parte da família.

Durante décadas, ele foi presença constante no local e nas ruas do Centro.

A convivência também mudou uma das paixões que marcaram a vida de Maurício. Colorado por influência do pai, ele se tornou gremista em 1995, depois de acompanhar, em um telão colocado por Pandollo em frente à Igreja Matriz, a comemoração do título da Libertadores conquistado pelo Grêmio.

O professor e historiador Amon Costa, que conhecia Maurício desde a infância, o definiu, em homenagem publicada após a morte, como “o maior gremista da história de Gravataí”.

Ao Seguinte:, Pandollo lamentou a morte do amigo e destacou características que, segundo ele, marcaram a trajetória de Maurício.

“O Maurício era um ser humano como todo ser humano deveria ser: amigo de todo mundo, alegre, respeitador, sem maldade, ingênuo até, mas com um coração gigantesco e contagiante”, afirmou.

Sobre a morte, Pandollo resumiu o sentimento: “É algo inadmissível e inacreditável até”.

“A brutalidade de sua morte jamais poderá roubar a cena de sua vida”

Após as despedidas fúnebres, Maria Helena Petry, a Titi, advogada, coordenadora do curso de Direito da Facensa e integrante da família da pizzaria Pandollo, publicou uma homenagem a Maurício (leia o post completo no fim desta reportagem).

No texto, ela relembrou os quase 40 anos de convivência da família com ele e afirmou que a violência que tirou sua vida não deveria ser a principal lembrança deixada pela sua trajetória.

“A brutalidade de sua morte jamais poderá roubar a cena de sua vida”, escreveu Titi.

Ela descreveu Maurício como uma pessoa simples, alegre, afetuosa, generosa, gentil e leal, destacando a confiança que ele mantinha nas pessoas e sua capacidade de reconhecer rostos, nomes e histórias de quem encontrava pela cidade.

Para Titi, a despedida de Maurício também representa a despedida de parte da memória de Gravataí. “A vida desse ser humano iluminado se mistura com a história de Gravataí.”

No texto, ela afirmou ainda que a cidade inteira parecia caber no coração de Maurício e que, ao longo da vida, muitas pessoas cuidaram dele enquanto ele também cuidava de quem estava ao seu redor. “Todo mundo cuidava um pouco do Maurício, e ele cuidava de todo mundo”, escreveu.

Despedida reuniu moradores e autoridades

O velório de Maurício ocorreu na quinta-feira (1º), no salão da Igreja Nossa Senhora dos Anjos, no Centro de Gravataí. A cerimônia reuniu moradores, amigos, familiares e pessoas que conviveram com ele ao longo das décadas.

A Prefeitura de Gravataí publicou uma nota de pesar e afirmou que Maurício fez parte da história da cidade. O município também declarou acompanhar a investigação e confiar no trabalho da Polícia Civil para o esclarecimento do crime e a responsabilização dos envolvidos.

Maurício também era presença frequente em eventos realizados na Rua Aberta e era reconhecido por moradores de diferentes gerações.

A Câmara de Vereadores publicou uma nota de pesar. O presidente do Legislativo, Dilamar Soares, que também frequentava a Pizzaria Pandollo e era amigo de Maurício, lamentou a morte.

Agora, com a prisão do suspeito, a investigação da Polícia Civil entra em uma nova etapa para esclarecer a dinâmica do crime e a participação do homem preso.

A Polícia Civil informou que a atuação conjunta com a Brigada Militar foi fundamental para a localização e prisão do investigado. Segundo as forças de segurança, o trabalho integrado envolve ações de prevenção, inteligência e repressão qualificada.

Maurício, porém, deixa para os moradores de Gravataí uma história que vai além do crime que encerrou sua vida: a trajetória de um homem que passou décadas pelas ruas do Centro, trabalhou na Pizzaria Pandollo, acompanhou gerações de moradores e ficou conhecido pelo sorriso, pelos abraços e pela maneira afetuosa com que tratava as pessoas.

Adeus, Maurício

Leia o texto completo de Titi.

Adeus, Maurício

A morte é uma das poucas certezas da vida e, mesmo assim, a gente nunca se prepara para ela. Há tantas formas de tentar entendê-la. A violência, contudo, nunca encontra amparo, apenas revolta.

Maurício, o Mauri, como carinhosamente o chamava a minha família, que esteve ao lado dele por quase 40 anos, não merecia perder a vida da forma como perdeu. Uma vida que ele adorava e fazia questão de honrar, vivendo do jeito dele: simples e alegre.

Apesar da ânsia por justiça e da dor de imaginar o sofrimento pelo qual possa ter passado, logo ele, que jamais deveria ter sofrer por motivo algum, Maurício não merece ser lembrado pela brutalidade de sua partida.

Ele merece ser lembrado pela fé. Não apenas na igreja, onde era uma presença assídua e querida, mas pela fé que tinha nas pessoas e, sobretudo, na bondade delas. De uma simpatia e de uma pureza únicas, Maurício era diferente. Não por sua condição de saúde mental, mas pela forma como entendia o mundo.

Simples, afetuoso, engraçado, acolhedor, generoso, gentil, responsável e leal. Era agradável tê-lo por perto. Respeitava os limites e o espaço dos outros. Era incrível.

Sabia contar até pouco e escrevia apenas o próprio nome. Mas isso era detalhe perto de tudo o que sabia sobre enxergar o melhor nas pessoas e em todos os cantos. Entendia de gente e de situações pelo olhar. Reconhecia nomes, rostos e histórias. Reconhecia humanidade de longe, essa mesma humanidade que falta a tanta gente.

Sua partida atravessa a cidade. Tanta gente tem alguma lembrança dele ou com ele. A forma como tudo aconteceu nos dói profundamente. Mas, depois do que vimos hoje, centenas de pessoas e tantas homenagens, dos trabalhadores dos serviços urbanos às autoridades da cidade, da extrema esquerda à extrema direita, todos emocionados com sua partida, penso que a brutalidade de sua morte jamais poderá roubar a cena de sua vida.

A vida desse ser humano iluminado se mistura com a história de Gravataí. E, mais do que isso, com a memória de uma época boa e feliz, em que circular sem medo deixava todo mundo mais leve e mais próximo.

Talvez sua morte nos comova ainda mais por isso: com ele, também se despede um pouco daquela Gravataí que a gente já não tem, apesar de tanta coisa boa que ainda existe por aqui.

A cidade inteira cabia no coração desse pequeno gigante. Todo mundo cuidava um pouco do Maurício, e ele cuidava de todo mundo.

Tem gente que é diferente mesmo. Que se destaca pela forma de viver, que deixa marcas em tanta gente e que, na partida, recebe um dos maiores e mais comoventes adeuses que Gravataí já viu.

Obrigada, Maurício! Descansa em paz!

Com carinho, Titi (Maria Helena Petry)


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