A Câmara de Vereadores aprovou na quinta-feira (30) o pedido do prefeito Luiz Zaffalon (PSD) para a revogação da autorização que permitia à Prefeitura de Gravataí contrair um empréstimo de até R$ 30 milhões junto ao BRDE. O financiamento, aprovado em maio sob críticas da oposição, visava custear obras de acesso, pavimentação e drenagem para viabilizar a implantação do Instituto de Tecnologia e Computação (ITEC) — a projetada ‘Caltech’ brasileira no Prado Bairro-Cidade.
O aporte financeiro municipal tornou-se desnecessário após o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano — liderada pelo agora cidadão gravataiense Davi Severgnini —, carimbar a liberação de recursos para o município. Com a formalização dos convênios estaduais que injetam mais de R$ 20 milhões na infraestrutura local (sendo R$ 18 milhões destinados especificamente aos acessos do ITEC), a garantia bancária da Prefeitura caducou por perda de objeto.
“Era uma garantia para não perder o investimento milionário e o retorno bilionário do ITEC. Agora não será mais preciso”, explicou o líder do governo, vereador Alex Peixe (PSDB), sobre a projeção de R$ 400 milhões em investimentos privados ao longo de dez anos, retorno de R$ 5 bilhões para a economia local, ensino em tempo integral e a promessa de formar lideranças em Inteligência Artificial.
Já Cláudio Ávila (Avante), também da base governista, aproveitou o momento para direcionar o troco político a Thiago De Leon (PDT), ex-vereador, candidato a vice-prefeito na chapa derrotada de Marco Alba (MDB) em 2024 e candidato a deputado estadual. De Leon havia gravado um vídeo acusando a gestão de Zaffa de pedir um empréstimo milionário para favorecer um “bairro rico” e um “instituto privado”.
“Tem aquele ditado que diz que a mentira tem perna curta. Em Gravataí, veste calça curta. Aquele menino gravou um vídeo mentindo, inventando, exagerando”, ironizou o vereador na tribuna.
Nesta semana, o prefeito deve enviar à Câmara o pedido de autorização de empréstimo para viabilizar as contrapartidas e intervenções do Periferia Viva, programa do Novo PAC Seleções do Governo Federal que destinará mais de R$ 41 milhões para a urbanização do Rincão da Madalena, Nova Conquista e Nova Esperança — uma das regiões mais vulneráveis de Gravataí.
O projeto prevê saneamento e drenagem, com obras estruturantes de macrodrenagem e redes de esgoto e água; infraestrutura urbana, com pavimentação de vias e iluminação pública; desenvolvimento comunitário, com criação de um parque linear, praça de lazer e instalação de um ecoponto; e cidadania, com a regularização fundiária com escrituração direta das moradias para milhares de famílias.
A ironia dos fatos também desarmou outro modelo de crítica da oposição, mais política e menos instagramável. Poucos meses atrás, quando a prefeitura editou o decreto apelidado de ‘Zaffa Mãos de Tesoura’ para conter gastos, um dos alertas opositores era justamente sobre o novo endividamento de R$ 30 milhões para a ‘Caltech’ gaúcha, frente a uma dívida de R$ 1 bilhão apontada pela oposição.
A vereadora Vitalina Gonçalves (PT), à época, chegou a contrastar o projeto do ITEC com a destinação de verbas federais para bairros vulneráveis, afirmando que “cada governo tem suas prioridades”. Como uma das articuladoras junto ao líder do governo Lula, deputado federal Paulo Pimenta (PT), a parlamentar já sabia que o governo municipal estudava a contrapartida do empréstimo para o Periferia Viva.
Ao fim, é notório que quase toda prefeitura administra com o cobertor curto — é a natureza da gestão pública. O mérito político e administrativo está em saber puxar a coberta para proteger as prioridades estratégicas de longo prazo sem desamparar quem mais precisa no presente.
O prefeito que foi acusado de endividar o município para investir no “bairro rico” — onde ele próprio reside (o que alimenta teorias conspiratórias nas redes antissociais) — agora revoga a autorização bancária do ITEC porque buscou o recurso no Estado, direcionando a capacidade de investimento da cidade para a periferia.
Parafraseando a célebre hipérbole lulista, “nunca antes na história de Gravataí” regiões tão vulneráveis receberão um investimento dessa monta.
Resta neste episódio uma das fascinações da política; e a política permanece como o Sol ao nascer — e ao se pôr — a cada dia, permitindo ao relógio acertar, mesmo parado, duas vezes a cada 24 horas. Se relógio combina com calça curta, talvez Cláudio Ávila, que gosta de usar roupas da moda, possa analisar melhor.
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