O vereador Bombeiro Batista (Republicanos) cometeu, nesta semana, seu característico ‘senso de oportunidade’. Diante do avanço do debate sobre a crueldade animal e da pressão incômoda gerada pelo Projeto de Lei nº 80/2026 — no qual a vereadora Márcia Becker (PSDB) busca proibir expressamente gineteadas e provas de derrubada no município —, o parlamentar correu ao protocolo da Câmara Municipal de Gravataí com um contra-ataque sob medida para as arquibancadas do tradicionalismo.
A proposta de Bombeiro busca declarar a gineteada como manifestação cultural e Patrimônio Cultural Imaterial de Gravataí. Para embalar a iniciativa com uma aura de aparente rigor institucional, o vereador ostenta como grande triunfo o primeiro parecer emitido pelo recém-criado Setor de História e Memória da Casa. O documento resgata um inventário de 31 de julho de 1784, que contabilizava centenas de cavalos, mulas e éguas na antiga Vila Nossa Senhora dos Anjos, tentando traçar uma linha contínua entre a sobrevivência dos pioneiros do século XVIII e a exploração de equinos em arenas no século XXI.
O projeto apela à já conhecida narrativa de que “a preservação da tradição não significa abrir mão do respeito aos animais”. Em tom apaziguador, Bombeiro argumenta que “defesa da cultura e proteção animal não são conceitos incompatíveis” e que a prática pode observar “rigorosos padrões de bem-estar”, assegurando que a medida não afasta o cumprimento das legislações estadual e federal — esta última, vale lembrar, aprovada sob o manto conservador que redefiniu o Rodeio Crioulo e a gineteada como cultura popular.
O que o vereador chama de “valorização da identidade”, contudo, nada mais é do que uma tentativa de blindagem jurídica e simbólica para impedir que a Câmara encare o Zeitgeist — o espírito do tempo.
Reputo nenhum parecer histórico ou diploma legal é capaz de alterar a natureza das coisas e dos fatos. Não há norma que consiga transformar o pavor biológico em patrimônio ético.
Enquanto a proposta de Bombeiro se apega a romantismos campeiros, a justificativa técnica do projeto de Márcia Becker desmascara o espetáculo com a frieza da ciência. Respaldada pelos estudos da Dra. Irvênia Prada (professora emérita da USP) e por análises veterinárias, Márcia dissecou a anatomia do trauma: o ato de corcovear não é demonstração de bravura ou celebração da cultura, mas a resposta desesperada da Síndrome de Emergência de Canon. É o pavor manifestado em pupilas dilatadas (midríase), salivação excessiva (sialorreia), taquicardia e hipertensão.
Aquilo que tantos apontam como tortura começa muito antes da arena, no confinamento em bretes estreitos, no isolamento com olhos vendados, no ruído ensurdecedor que agride a audição sensível dos equinos e na privação do sono. Continua com a ilusão das esporas — golpeando pescoço e baixo-ventre — e resulta em lesões de coluna, deslocamento de vértebras e fraturas em choques contra grades. Arrancar um animal de seu habitat, amarrá-lo vendado a um palanque e martirizá-lo para o deleite de uma plateia pagante jamais fez parte da lida honesta do campo. É uso do sofrimento alheio como entretenimento.
A manobra de Bombeiro Batista reflete o pânico de um modelo que sabe que não resiste ao futuro. Vimos esse mesmo filme em Canoas, quando denúncias de maus-tratos levaram ao tensionamento legislativo e forçaram o próprio Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) a emitir a Portaria nº 18/2026, proibindo esporas nazarenas e aparelhos de choque. O recuo do MTG foi a confissão velada de que a exploração animal só se altera sob constrangimento.
O argumento de defender a “tradição” a qualquer custo é o último refúgio dos que temem a evolução moral. Em 2008, quando Gravataí discutiu e aprovou a proibição de circos com animais — em projeto da então vereadora Anabel Lorenzi —, os discursos inflamados nas galerias eram rigorosamente os mesmos. Falava-se em “tradição cênica”, “fim da cultura” e “ataque de eco-chatos”. Na época, escrevi que os parlamentares que achavam bonito ver leões e tigres encarcerados em jaulas deveriam passar uma tarde trancados em uma delas sob o sol do Centro de Gravataí. ‘Aplausos’ do público não faltariam. Hoje, a ideia de um circo com animais nos parece bizarra, primitiva, grotesca.
A história humana é farta em atrocidades justificadas pelo manto da cultura e da economia. A escravidão também foi defendida por séculos sob esses mesmos pretextos. O que muda ao longo das décadas não é a biologia do animal — que continua sentindo dor exatamente como nós —, mas a percepção ética da sociedade.
Márcia Becker carrega o paradoxo raro de atuar sabendo que a defesa intransigente da causa animal muitas vezes lhe retira votos de setores conservadores. Mas é exatamente isso que confere credibilidade à sua trajetória: não se trata de marketing eleitoral, é convicção.
Mesmo que o projeto de Bombeiro faça o debate corcovear ou que as comissões da Casa consigam enterrar o projeto de Márcia Becker sem que ele chegue ao painel eletrônico, a vitória da causa animal não se limita ao placar de uma sessão. Ela acontece nas mentes, nas mesas de jantar e na consciência dos jovens que passam a enxergar pavor onde antes viam festa.
Ao tentar transformar a dor pilchada em patrimônio imaterial, a política tradicional de Gravataí apenas registra seu próprio medo diante da mudança. Schopenhauer escreveu que “o homem fez da Terra o inferno dos animais”. O empenho de Bombeiro Batista serve para manter as portas desse inferno abertas, mas o Zeitgeist não caminha para trás. E incomodar essas velhas certezas já é uma vitória irreversível.
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