Quem acompanha os bastidores da política e do ativismo no Rio Grande do Sul testemunhou, nos últimos dias, um daqueles movimentos que revelam como as velhas certezas costumam ruir diante do ‘espírito do tempo’ — o Zeitgeist. O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) publicou a Portaria nº 18/2026, assinada pelo presidente Alessandro Gradaschi, estabelecendo regras muito mais rígidas para o manejo de animais em rodeios e provas campeiras.
Para os defensores mais intransigentes do fim definitivo dessas práticas, a medida pode parecer pouco. Não é o ideal. Mas desdenhar desse passo seria ignorar a geopolítica da causa animal: o endurecimento das normas não nasceu da espontânea vontade da cartolagem tradicionalista, mas sim do medo real da proibição e da força de uma narrativa que ganhou as ruas, as redes e inclusive câmaras municipais.
O fato jornalístico que precipitou a reação do MTG, conforme trazido a público pelo jornalista Giovani Grizotti, tem coordenadas bem definidas. Em maio deste ano, vídeos gravados no Parque Eduardo Gomes, em Canoas, flagraram peões cometendo supostos maus-tratos durante a condução para as provas. A repercussão das imagens nas redes sociais fez com que o vereador Cris Moraes (PV) protocolasse um projeto de lei drástico: a proibição total de rodeios, gineteadas, tiros de laço e demais provas com animais no município.
Diante do risco iminente de ver Canoas — uma das maiores economias e forças políticas do estado — fechar as portas para os rodeios, e acuado pelo entendimento preventivo do Tribunal de Justiça do RS sobre a crueldade animal, o MTG precisou agir com uma espécie de habeas corpus preventivo.
A resposta veio em forma de regulamentação severa. A nova portaria proíbe esporas do tipo “nazarena” ou com roseta travada, aparelhos de choque, laços que não sejam de couro e fechadores de boca que prejudiquem a respiração. Mais do que isso: exige veterinário permanente com poder de veto, instalações seguras, água e comida adequadas.
No campo das punições, o avanço é pedagógico: qualquer pessoa — inclusive juízes campeiros — é obrigada a denunciar abusos, e a entidade que reincidir no descumprimento perderá em definitivo o direito de realizar eventos.
Esse recuo do MTG, travestido de modernização, valida a linha argumentativa que defendi recentemente ao analisar proposta semelhante em Gravataí, quando critiquei a retirada do Projeto de Lei 48/2026 pela vereadora Márcia Becker (PSDB).
O texto da vereadora da causa animal, que proibia animais em espetáculos e criava mecanismos mais amplos de fiscalização, foi retirado para “readequação” após provocar intensos tremores nos bastidores tradicionalistas.
Minha tese permanece firme: o projeto não deveria ter sido retirado. Ele deveria ter ido ao plenário, mesmo sob o risco real de derrota. Márcia reapresentou, na última semana, a proposta adaptada: proíbe gineteadas e provas que envolvam a derrubada de animais em Gravataí (detalho em outro artigo; ainda investigo a contagem de votos, caso o projeto chegue ao plenário para votação)
“Nem toda vitória política acontece no painel eletrônico da Câmara. Algumas acontecem antes. Outras, décadas depois. O debate sobre a causa animal nunca termina no dia da votação. É sempre uma construção”, escrevi.
O caso de Canoas e a subsequente reação do MTG provam exatamente isso. O tradicionalismo tenta se defender mudando as regras internas justamente porque percebeu que o debate público saiu do controle deles. Quando os ativistas tensionam a corda, a sociedade é forçada a refletir.
Precisamos lembrar do que aconteceu em 2008, quando a então vereadora Anabel Lorenzi propôs a proibição de circos com animais em Gravataí. À época, os discursos inflamados eram idênticos aos de hoje: falava-se em “tradição”, em “cultura cênica” e em “exagero de eco-chatos”.
Escrevi, naquele ano, que os vereadores que achavam bonito ver leões e tigres em jaulas deveriam passar uma tarde trancados em uma delas sob o sol do Centro de Gravataí. O público adoraria. Hoje, a ideia de um circo com animais nos parece bizarra, grotesca.
A história se repete com os rodeios. A legislação federal que os protege — aprovada no governo Bolsonaro — serve para registrar o estágio em que a sociedade estava naquele momento, mas não encerra o debate moral. A escravidão também foi defendida por séculos sob o manto da “tradição” e da “necessidade econômica”. Quase toda transformação ética da humanidade começou sendo acusada de vandalizar a cultura local.
Márcia Becker entende essa dinâmica como poucos. Ela sabe o que é fiscalizar o Rodeio Internacional do Mercosul sob olhares tortos e sabe que a causa animal muitas vezes retira votos de setores conservadores em vez de somá-los. Mas sua credibilidade reside justamente em agir por convicção, e não por marketing. Tanto que retoma agora a polêmica.
Ao fim, a nova portaria do MTG é uma confissão velada de que o modelo antigo de exploração animal está com os dias contados. O debate não vai desaparecer com notas oficiais ou com o argumento do impacto financeiro no turismo rural. Ele voltará a cada vídeo viralizado, a cada denúncia e a cada projeto de lei protocolado por parlamentares corajosos como Cris Moraes e Márcia Becker.
Se a Terra, como escreveu Schopenhauer, ainda é o inferno dos animais, medidas como as da Portaria 18/2026 funcionam como pequenas rachaduras nas paredes desse purgatório cultural. Manter a reflexão viva, incomodar as velhas certezas e constranger o sadismo travestido de espetáculo já é a maior das vitórias.
O Zeitgeist não caminha para trás.
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