Na noite desta segunda-feira, durante um jantar em Canoas, o prefeito Airton Souza (PL) resgatou um bastidor da eleição de 2024. Alvo de uma dezena de processos movidos na Justiça pelo seu principal adversário na disputa, o ex-prefeito Jairo Jorge (PSD), Airton contou que, logo após uma de suas vitórias judiciais, tomou a iniciativa de ligar diretamente para o rival. Disse algo como: “Aceita, acabou a eleição, temos que reconstruir Canoas”.
O armistício foi aceito. E o causo contado à mesa não era mero saudosismo de campanha: era o ponto de partida para explicar a filosofia que rege sua gestão e o próprio sentido do encontro daquela noite. Na janta estavam o ex-deputado estadual e pré-candidato Dimas Costa (PSD) e o vereador Jozir Bernardes Prestes, o Patteta (PSD), um dos parlamentares mais populares e longevos de Canoas.
Patteta, político historicamente leal a Jairo Jorge (que anunciou sua aposentadoria das urnas para assumir uma superintendência na Ulbra voltada à articulação e gestão municipal), ali formalizava seu apoio à pré-candidatura de Dimas à Assembleia Legislativa. Já Airton não estava no jantar para aderir à campanha de Dimas — leal ao seu partido, o prefeito tem compromisso eleitoral fechado com Bibo Nunes e sua filha, Camila Nunes (ambos do PL), postulantes à Câmara e à Assembleia.
A presença de Airton era a validação do método. Era o gesto de quem reconhece uma parceria de trabalho e pratica o que já chamei nesta coluna de sua “obra invisível”.
“Minha única obsessão é a reconstrução de Canoas”, disse o prefeito ao Seguinte:.
Como já escrevi, há obras que se medem em metros cúbicos de concreto ou quilômetros de asfalto. A grande obra de Airton em Canoas em 2025 e 2026 é menos visível, mas decisiva e estruturante: a capacidade de construir pontes institucionais e dialogar com todas as esferas de poder sem calçar ferradura ideológica.
Governando pelo PL, postando fotos com Flávio Bolsonaro (PL) e mantendo seu alinhamento no Senado com o deputado Sanderson (PL), o prefeito de Canoas recusa a trincheira. Não hesita em classificar o deputado federal e ex-ministro Paulo Pimenta (PT), também candidato a senador, como “um baita parceiro de Canoas”, fundamental para abrir portas no governo federal.
Essa escolha — cuja realidade não permite ser diferente a prefeitos que cito neste próprio artigo — não deriva de paixão ideológica; deriva da matemática fiscal implacável. Com 47% da receita municipal comprometida com o funcionalismo, 25% com a educação e 22% com a saúde, restam escassos 6% para investimentos livres. Sem a articulação republicana para buscar recursos em Brasília — onde a União mobilizou mais de R$ 111,6 bilhões pós-enchentes — e no Piratini — onde o governo Eduardo Leite alocou R$ 179,7 milhões para a recuperação de diques e casas de bombas —, a reconstrução de Canoas seria inviável. Afinal, os diques da Mathias Velho, Niterói e Rio Branco não perguntam a ideologia de quem neles pisará.
Airton compreendeu que, no Brasil de hoje, a maior ousadia é governar sem guerra.
“O prefeito Airton é um gentleman. Veio me recepcionar”, agradeceu Dimas Costa, também ao Seguinte:, em ligação de vídeo onde o anfitrião Patteta acenava da churrasqueira.
Se Airton constrói sua gestão transitando entre o bolsonarismo e o governo Lula, Dimas Costa encontrou no que chamo “extremo centrismo” o seu método de ação política. Não como neutralidade passiva, mas como posicionamento articulador.
Em seu período na Assembleia e nas atuações recentes, Dimas consolidou o papel de “embaixador” do governo Leite em Gravataí e espraiou suas relações para além das fronteiras locais. Conta com o apoio direto à sua reeleição dos prefeitos Luiz Zaffalon (PSD), em Gravataí, e Jussara Caçapava (Avante), em Cachoeirinha, mas conecta lideranças de matizes ideológicas diversas: de Douglas Martello (PL), em Alvorada, a Rafael Bortoletti (PSDB), em Viamão, passando por Rodrigo Battistella (PT), em Nova Santa Rita, até dividir com Leonardo Vargas Carvalho (MDB), de Glorinha, o palanque pela candidatura de Gabriel Souza (MDB) ao Governo do Estado.
É, como ele próprio repete, a política que troca a lacração pelo resultado. Na largada da campanha estadual, Dimas foi o principal organizador de um adesivaço no Parcão, em Gravataí, que fez o próprio vice-governador Gabriel Souza telefonar surpreso: “Tu é maluco…”, impressionado com a mobilização no terreno.
Essa engrenagem, insisto, exige também maturidade dos prefeitos, que colocam o interesse público dos seus municípios acima de rivalidades estéreis ou do engajamento fácil de rede social.

O desfecho na ERS-020, em Gravataí — e a lição da Realpolitik
Como na política tudo se conecta, a análise iniciada na ligação de Airton em Canoas encontra seu desfecho na ERS-020, em Gravataí.
Nesta terça-feira, em vídeo publicado nas redes, Dimas celebrou o início das obras de revitalização da rodovia estadual no trecho entre Gravataí e Taquara — um investimento de R$ 30 milhões que apresenta como conquistado durante sua atuação parlamentar e no governo Leite.
A movimentação sobre a ERS-020 dialoga com as controvérsias recentes envolvendo o trecho urbano da mesma rodovia. A não assinatura do convênio de duplicação com a Prefeitura de Gravataí antes das vedações do período eleitoral gerou ruídos e críticas inflamadas dentro da própria base do prefeito Luiz Zaffalon — como a postagem do vereador e candidato Bombeiro Batista (Republicanos), que mirou no governador Eduardo Leite, mas acabou respingando no próprio Zaffa.
No entanto, como explicou o secretário estadual de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano, o também gravataiense Davi Severgnini (PSD), a obra está aprovada no Conselho do DAER e não foi cancelada. Houve apenas uma reorganização temporária de prioridades em razão das contenções emergenciais de enchentes por todo o Estado. A manifestação de Davi e os movimentos de Dimas deixam claro que o convênio pode perfeitamente ser assinado até o fim do mandato.
No seu vídeo, Dimas resumiu o espírito dessa construção ao falar em “resultados” para além de “caçar likes e lacrações”.
Ao fim, as urnas, soberanas, darão o julgamento final sobre essas escolhas nas próximas eleições. No entanto, reputo que o movimento visto no jantar em Canoas e reproduzido nas articulações sobre a ERS-020 é a expressão pura da boa política.
É a Realpolitik em seu estado mais prático. Num ambiente público saturado de infantilização, guerras culturais e disputas por engajamento digital rápido no que chamo de redes antissociais, o cidadão comum exige entregas concretas — diques reconstruídos, cirurgias agendadas, asfalto recuperado e transporte funcionando. Atingir esses resultados exige maturidade, conversa olho no olho, pragmatismo implacável e a coragem de sentar à mesa com quem pensa diferente pelo bem da comunidade.
No fim do dia, seja no Planalto, no Piratini, em Canoas ou nas margens da ERS-020 em Gravataí, percebe-se que as pontes continuam sendo incomparavelmente mais úteis e duradouras do que as trincheiras.
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