RAFAEL MARTINELLI

O jogo de narrativas e as verdades da ERS-020 em Gravataí; a bala para Leite achada em Zaffa

Primeiro, o mais importante, como recomendava Lênin. A duplicação do trecho urbano da ERS-020 em Gravataí não é uma obra cancelada. Diferentes narrativas sobre isso não configuram nada além de fake news. A real news — a notícia verdadeira — é que as consequências dessa narrativa, alimentada em Gravataí tanto por políticos de oposição quanto por integrantes da base do governo, vilanizam não só o governador Eduardo Leite (PSD), mas também o prefeito Luiz Zaffalon (PSD).

O paradoxo? Ambos os lados da disputa já fizeram parte do governo do Estado ou se beneficiaram diretamente dos repasses e obras de Leite para pavimentar suas eleições em Gravataí. Vou tentar explicar neste artigo.

Ouvi o secretário de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano do Estado, Davi Severgnini. Com a bagagem de quem atuou por 14 anos na Prefeitura de Gravataí — sendo 11 deles como secretário da Fazenda —, Davi acompanhou de perto a necessidade da obra e as articulações políticas. Hoje, no governo do Rio Grande do Sul, ele é o responsável direto por convênios dessa natureza.

– Há um pouco de ignorância a serviço da malícia. A obra está aprovada pelo Conselho do DAER. Não há nenhum cancelamento da duplicação – afirmou o secretário nesta terça-feira (7).

Davi explica que o fato de o convênio não ter sido assinado antes das vedações do período eleitoral não significa uma “desistência” do projeto.

– Todo mundo sabe a importância da obra, mas, neste momento, foi necessário estabelecer algumas urgências. A prioridade, infelizmente, é não deixar um barranco cair em cima de uma creche, por exemplo – explicou, citando a assinatura de mais de 300 convênios pelo Rio Grande do Sul, boa parte deles voltada para obras emergenciais de contenção de enchentes.

Segundo o secretário, que hoje mesmo participou de uma reunião com o governador para projetar o orçamento até o fim do mandato, “a obra pode ser retomada a partir de outubro”.

Como exemplo de marco temporal para escolha de prioridades, ele também cita o Instituto de Tecnologia e Computação (ITEC) de Gravataí, cujo convênio de mais de R$ 20 milhões (sendo R$ 18 milhões do Estado) foi assinado na última sexta-feira (3).

– Há um calendário com o instituto e com o MEC para a autorização dos cursos, além da necessidade de os acessos estarem prontos até março, quando iniciam as aulas – detalhou.

– Oposição histriônica nunca ajuda – lamentou Davi, sem citar nomes.

Ele carrega a experiência de ter sido o coordenador político do governo Zaffa 2, ajudando a montar em 2024 a maior coligação da história do município, antes de pedir demissão e, posteriormente, ser convidado por Eduardo Leite para integrar o secretariado estadual.

O efeito Conselheiro Acácio e o meme de Nova York

É aí que entro naquilo que sempre vem depois: as consequências. Como na célebre frase atribuída ao Conselheiro Acácio, personagem caricato do clássico romance O Primo Basílio, de Eça de Queirós: “O problema das consequências é que elas vêm depois”. Consequências políticas, no caso.

Primeiro, o ex-vereador Thiago De Leon (PDT) postou um vídeo criticando a não execução imediata da obra. Seu vilão escolhido foi o prefeito Zaffa. Ele poupou o governador Eduardo Leite, de quem foi secretário-adjunto antes de se desincompatibilizar no prazo legal para concorrer nas eleições deste ano, possivelmente a deputado estadual.

Mas De Leon faz a oposição mais pesada ao governo municipal com a sua narrativa da “Gravataí que ninguém mostra”.

O que surpreendeu, no entanto, foi a postura de Bombeiro Batista (Republicanos). Vereador mais votado pela segunda eleição consecutiva em Gravataí e integrante da base do governo Zaffa, ele postou aquele famoso meme que mostra um casal segurando uma faixa no topo do arranha-céu Empire State Building, em Nova York. A mensagem escrita pelo político dizia: “Eduardo Leite esqueceu de assinar a duplicação da 020. Esperamos que esqueça do pedágio também!”.

Nos comentários, choveram críticas a Leite, mas que também respingaram em Zaffa.

Reputo a postagem surpreendente porque o timing não poderia ser pior. A publicação aconteceu horas depois de o prefeito, ao lado do próprio Davi Severgnini, ter assinado o convênio do ITEC — que chamo de ‘Caltech gaúcha’, um investimento privado de R$ 400 milhões que Zaffa guarda como um dos principais legados de sua gestão, tanto por positivar a ciência e a educação em solo gravataiense, quanto pelo retorno econômico projetado em R$ 5 bilhões nos próximos 10 anos.

O ato político ocorreu em clima de celebração, com lideranças do governo no gabinete do prefeito.

Nos bastidores da política, a postagem do Bombeiro — que pode induzir os desavisados a crer que a duplicação foi cancelada ou que haverá um pedágio no trecho urbano — gerou fortes rumores de que ele possa estar em rota de colisão com o governo municipal.

No mundo real, se houver pedágio, ele será instalado no modelo free flow lá no km 22,9, em Morungava, na divisa com Taquara. Além disso, o sistema de concessões e pedágios é defendido tanto por Leite quanto por Zaffa como a única forma racional de garantir investimentos de longo prazo nas estradas.

As balas achadas

Dias antes, o comunicador Chico Pereira informou que Bombeiro tinha rompido a parceria política com o vice-prefeito Dr. Levi Melo (Podemos). Bombeiro concorre a deputado estadual e teria Levi, que concorre a federal, como sua principal dobradinha em Gravataí.

A informação circulou logo após minha coluna revelar que Levi e Dimas Costa (PSD) — o pré-candidato a deputado estadual preferencial de Zaffa — teriam uma agenda em conjunto, um movimento simbólico para criar a percepção de que ambos são as candidaturas oficiais do governo, reduzindo as crises internas.

Chico não revelou a fonte nem expôs Bombeiro. Mas nem precisaria: afinal, não teria como Levi romper consigo mesmo, não é?

Logo em seguida, Bombeiro dá esse tiro nas redes antissociais. Ele mira em Leite, mas acerta em Zaffa. É fato que o trecho urbano da ERS-020 é municipalizado, e Leite nunca prometeu formalmente a obra — nunca gravou vídeos com drone no local, como fez o próprio vereador. Então, mesmo sem querer, o prefeito Zaffa acaba caindo na frente da bala endereçada ao governador.

Os interesses paroquiais são notórios.

Se De Leon faz malabarismos para criticar o prefeito sem citar seu ex-chefe Leite, Bombeiro joga para o seu reduto. Ele tem na Neópolis, bairro onde fica o principal trecho da duplicação, a sua ‘Bombeirolândia’, sua principal base eleitoral. Parece óbvio que ele queria a obra iniciada antes de outubro para alavancar sua candidatura a deputado. Ao criticar, repassa a responsabilidade para Leite e para Zaffa.

Esquece, contudo, que já foi receber o governador de helicóptero e que os mais de R$ 300 milhões repassados pelo Estado para obras em Gravataí nos últimos quatro anos ajudaram sua própria reeleição. No fim das contas, é o prefeito quem pisa no chão do município, quem fica na fila do supermercado para ouvir a cobrança do cidadão — seja ela ríspida, debochada ou dissimulada.

Não entendo como esse tipo de movimento belicoso possa ajudar a garantir o início da obra junto ao Piratini. Não parece ser o perfil de Eduardo Leite perseguir adversários políticos — vale lembrar que, enquanto o governador apoia Gabriel Souza (MDB) ao Piratini, Bombeiro é um entusiasta do bolsonarista Luciano Zucco (PL); De Leon é Juliana Brizola (PDT).

Ainda assim, relações republicanas e adultas nunca atrapalham. Na semana passada, Leite postou um vídeo em que se dizia emocionado com o depoimento de Douglas Martello, prefeito de Alvorada e filiado ao PL de Zucco e Bolsonaro, reconhecendo os investimentos do governo estadual no município.

O cenário me lembra uma tirada humorística de Millôr Fernandes: “Com a ascensão das ideologias radicais, virou reacionarismo ser justo”.

Ao fim, a duplicação do trecho urbano não foi perdida. Espera-se apenas que os políticos locais não ajudem a inviabilizá-la no mundo instagramável do oportunismo eleitoral.


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