RAFAEL MARTINELLI

Anfitrião de Cury no RS, Teté mostra sua força e testa o pragmatismo implacável nas urnas em Cachoeirinha — a ‘palavra de Caçapava’ e uma revelação sobre Dimas e o impeachment de Cristian

Fotos: TL Produções

A noite desta terça-feira (1º) no CTG Roda de Carreta foi a demonstração prática de como a política de Brasília e a Realpolitik das vilas de Cachoeirinha se encontram na mesma mesa. Paulo César Agliardi, o Teté Caçapava (Avante), chancelou sua candidatura a deputado federal reunindo um mosaico de forças políticas de diferentes matizes ideológicas — um reflexo direto do estilo que moldou sua trajetória nos bastidores.

A transição do articulador discreto para o candidato de massa testa agora o seu maior ativo: o que chamo de ‘pragmatismo implacável’. O filho da prefeita Jussara Caçapava chega ao teste das urnas carregando o carimbo de articulador hábil, reputação consolidada na engenharia complexa que resultou no impeachment do ex-prefeito Cristian Wasem e do vice Delegado João Paulo, e na posterior vitória da mãe na eleição suplementar.

Presidente do Avante no RS, Teté chega a este momento fortalecido após dois dias inteiros como anfitrião e cicerone do candidato do Avante à Presidência da República, o escritor best-seller Augusto Cury. Em meio a um turbulento cenário nacional — em que adversários e a Justiça Eleitoral esquadrinham o salto repentino de Cury nas pesquisas após oscilações atípicas em redes sociais e levantamentos institucionais —, o presidenciável cumpriu uma maratona na Região Metropolitana organizada pelo grupo gaúcho. A agenda incluiu inaugurações de comitês (como o de Teté e Dimas Costa em Gravataí, articulado pelo vereador, assessor especial da prefeita e estrela do Avante gaúcho, Cláudio Ávila), reuniões com empresários no Centro das Indústrias de Cachoeirinha (CIC) e campanha na Expointer.

Em vídeo exibido durante o evento, Cury agradeceu publicamente o acolhimento. “Cury se encantou com o Teté”, resumiu Cláudio Ávila, mestre de cerimônias da noite, destacando a estratégia de colar a imagem de Teté ao número 70 da legenda presidencial, projetando o número 7070 para a Câmara dos Deputados.

Teté Caçapava foi anfitrião do presidenciável Augusto Cury no Rio Grande do Sul, pela segunda vez


Palavra de Caçapava

Se na capital federal a política exige estômago e pragmatismo — afinal, o dia é para os do dia e a noite é para os da noite —, na base eleitoral o valor central cobrado ainda é a palavra. Essa foi a tônica mais repetida pelas lideranças que subiram ao palco.

Teté fez questão de rememorar os bastidores do impeachment (com uma história inédita) para ilustrar a lealdade de sua aliança com o ex-deputado estadual Dimas Costa (PSD) — o ‘embaixador’ do governo Eduardo Leite na região e sua principal dobradinha na eleição. “Quando nos conhecemos, acho que ele não acreditava o quanto temos palavra”, disse Teté. Ele lembrou que, quando a família Caçapava fechou o acordo com Dimas, Jussara presidia a Câmara e integrava a base de Cristian. “O homem [prefeito] não queria a gente com o Dimas. Nós cumprimos a palavra empenhada. Viram no que deu?”, revelou, indicando que o estremecimento provocado por essa escolha fez parte do rompimento que culminou na cassação do governo anterior. “O Dimas já é um irmão”, concluiu.

Dimas, por sua vez, reforçou a parceria prévia assumida com os Caçapava e elogiou a gestão de Jussara. “Está tapando a boca dos preconceituosos. Estou e estarei sempre presente para ajudar Cachoeirinha, eleger o Teté e reeleger a Jussara em 2028. Cuidem com aqueles que só aparecem em época de eleição”, advertiu.

A prefeita Jussara Caçapava, ao discursar, creditou a maturidade política do filho ao convívio precoce com o pai, Ildo Caçapava [em memória]: “Desde os 11 anos fazendo política. Para o Teté não interessa o partido, interessa a pessoa, interessa Cachoeirinha”. Em um tom que assimilou a linguagem do próprio Cury, a prefeita desabafou: “Sou autêntica, não sou falsificada. As pedras que me atiram uso para construir um município melhor”. Jussara fez questão de agradecer a ação de Dimas na liberação de recursos estaduais, como as obras anticheias no arroio Passinhos e verbas para mamografias.

A capacidade de costurar alianças improváveis ficou estampada na diversidade de lideranças presentes no CTG Roda de Carreta.

Marcaram presença os vereadores Tiago Eli (PP), apresentado como o elo de articulação que uniu a zona norte, reduto dos Caçapava, à zona sul; Sandrinha Gerardon (Republicanos), que traduziu o clima de unidade ao afirmar: “Já me chamo Sandra Regina Caçapava”; Zeca Transportes (MDB): “Teté dá voz para a comunidade mais humilde”; Pricila Barra (Podemos): “As mulheres estão com a família Caçapava”; Santo Edir Oliveira, o Chapolin (MDB): “Às 6h da manhã já estou caminhando na vila pelo Teté e o Dimas; não contavam com minha astúcia”; e Paulinho da Farmácia (PDT): “Palavra é coisa rara na política. E o Teté tem”.

De Gravataí, além de Ávila, estiveram presentes os vereadores Fernando Deadpool (Avante) e Anna Beatriz da Silva (PSD) — esposa de Dimas e suplente ao Senado na coligação de Gabriel Souza (MDB). Deadpool destacou a matriz popular do grupo: “Desta vez os mais pobres estão decidindo. Vejo aqui gente do povo, o ex-cobrador, o menino abandonado, o vendedor de pão”. O ex-prefeito de Gravataí e ex-deputado Sérgio Stasinski (PV) também acompanhou o ato.

Também estavam na festa Dr. Rubinho (PSDB), ex-vereador e ex-candidato a prefeito, os ex-vereadores Jack Ritter (PSD) e Brinaldo Mesquita (MDB), a secretária municipal de Saúde, Cris Mesquita, e o diretor-geral da Câmara de Vereadores, Gabriel Jung (ligado ao presidente da Casa, Gilson Stuart, do Republicanos).

Além da mensagem de Augusto Cury, foi transmitido um vídeo de apoio enviado pelo deputado federal e candidato ao Senado Paulo Pimenta (PT), demonstrando a amplitude de trânsito de Teté — que apoia Gabriel Souza ao Piratini no plano estadual e Pimenta para o Senado no plano nacional.

E, para completar, tinha no palanque, Marcelo Maranata (PSDB), candidato ao Governo do Estado, que lembrou a memória afetiva do local, citando que ali mesmo participou do lançamento da candidatura de Jussara à prefeitura. O popular ex-prefeito de Guaíba presenteou Teté com uma bandeira do Rio Grande do Sul.

Teté no lançamento da candidatura. Na foto acima, com a mãe, Jussara, e a esposa, Márcia


A matemática que pode levar Teté a Brasília — e os R$ 250 milhões

Apostar que a eleição de Teté é uma impossibilidade matemática significa desconhecer o funcionamento do sistema eleitoral proporcional e a atual geografia política do Rio Grande do Sul. O Avante concentrou suas forças exclusivamente nas candidaturas à Câmara Federal, jogando todas as fichas na eleição de um deputado para romper a cláusula de barreira. Como Cachoeirinha tornou-se a capital do Avante no Estado — abrigando a única prefeitura controlada pela sigla no RS —, o município ganha peso estratégico.

Para o leigo entender como Teté pode conquistar uma vaga mesmo em um partido em construção, o caminho passa pelo cálculo da “sobra eleitoral”, como destacou Ávila em sua exposição.

Há o Quociente Eleitoral, que é a cota de votos necessária para garantir uma vaga direta. É obtido dividindo-se o total de votos válidos do Estado pelo número de cadeiras em disputa na Câmara. Há o Quociente Partidário (QP), onde divide-se a votação total da legenda pelo Quociente Eleitoral e o resultado inteiro indica quantas vagas diretas o partido conquistou de imediato. E, aposta do Avante, a Distribuição das “Sobras”: Quando restam cadeiras não preenchidas pelo cálculo direto, aplica-se a fórmula da média: divide-se o número de votos válidos do partido pelo número de vagas que ele já obteve mais 1. A legenda que alcançar a maior média leva a vaga remanescente.

É nessa repescagem matemática que reside a viabilidade de Teté. Com a votação concentrada no Avante gaúcho e a projeção de ser o nome mais votado da legenda, o somatório dos votos de legenda (puxados pela exposição do número 70 de Cury, em pesquisa de hoje com 10%) e da nominata pode garantir ao candidato a maior média na disputa pelas sobras.

O objetivo central da candidatura de Teté é devolver a Cachoeirinha a representação direta no Congresso Nacional, vaga não ocupada por nomes locais desde a saída do ex-prefeito José Stédile. Na engenharia orçamentária atual, um deputado federal maneja cerca de R$ 250 milhões em emendas parlamentares ao longo de quatro anos de mandato.

Teté pontuou que seu foco, caso eleito, será canalizar esse volume financeiro para a reconstrução da cidade, focando em saúde pública e resiliência climática — especialmente na captação de recursos do PAC do governo federal para obras contra enchentes na Região Metropolitana, como as intervenções no arroio Passinhos.

Ao fim, o evento de terça-feira provou que o ‘vendedor de sonhos’ do título do livro de Cury encontrou solo fértil na política local. Resta saber se o pragmatismo implacável exibido nos bastidores e chancelado pelas lideranças regionais se converterá, em outubro, no número exato de votos necessários para transformar o cálculo da sobra em passaporte para Brasília.

Inegável é que Teté tem a cara de Brasília.


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Assista ao vídeo do lançamento, produzido por GG para SEGUINTE TV

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