O presidenciável Augusto Cury desembarcou neste sábado (16) em uma das ‘capitais’ do Avante no Rio Grande do Sul para fazer algo raro: transformar um palanque eleitoral numa palestra sobre tristeza coletiva, ansiedade, redes sociais e suicídio entre jovens.
Num ambiente em que candidatos normalmente disputam quem grita mais alto contra o adversário, o psiquiatra e escritor best-seller falou sobre “mendigos emocionais”, “dopamina barata”, contemplação dos lírios do campo e o adoecimento emocional da sociedade contemporânea.
Exótico. Talvez essa seja a palavra.
E Gravataí — ao lado de Cachoeirinha, a outra ‘capital’ gaúcha do Avante — virou palco dessa experiência política incomum. Neste artigo tem um vídeo de 15 minutos, com detalhes sobre a passagem de Cury, as presenças e falas.
O evento no CTG Aldeia dos Anjos reuniu mais de mil pessoas, segundo os organizadores, e serviu oficialmente para lançar a pré-candidatura de Paulo César Agliardi (Avante), o Tete, filho da prefeita de Cachoeirinha, Jussara Caçapava (Avante), à Câmara dos Deputados. Mas o encontro acabou funcionando como algo maior: uma demonstração de força regional de um partido pequeno que tenta agir como se já fosse grande.
E, talvez mais importante, a apresentação pública de um presidenciável que tenta fazer campanha discutindo sofrimento emocional num país viciado em guerra política. Porque Augusto Cury não fala como político tradicional. Fala como palestrante. Como escritor. Às vezes como pregador. Às vezes como terapeuta coletivo de uma sociedade cansada.
E isso, inegavelmente, produz uma sensação estranha quando transportado para dentro de um evento partidário.
Enquanto vereadores, prefeitos e lideranças locais disputavam espaço, articulações e projetos eleitorais, Cury falava sobre uma geração incapaz de suportar frustrações, dependente de curtidas, aprisionada na necessidade de estímulos constantes para sentir prazer.
“Olhai os lírios do campo”, repetiu mais de uma vez, evocando o Sermão da Montanha.
Sim, um candidato à Presidência da República falou sobre contemplar lírios em um CTG Aldeia dos Anjos lotado por lideranças partidárias do povão da Região Metropolitana.
Ao menos produziu um silêncio eloqüente num ambiente normalmente movido por gritos, palavras de ordem e ataques. Como o segredo de aborrecer é dizer tudo, alguns foram embora, também.
Cury sustenta que vivemos na “era dos mendigos emocionais”. Pessoas cercadas de tecnologia, informação, consumo e entretenimento, mas emocionalmente pobres. Dependentes de “migalhas de prazer” fornecidas por likes, reconhecimento instantâneo e estímulos artificiais.
Segundo ele, nunca houve uma geração tão triste. E talvez o mais curioso da noite tenha sido justamente isso: ouvir um presidenciável falar sobre suicídio juvenil em vez de apenas segurança pública, inflação ou corrupção.
– O problema não é que as pessoas querem acabar com a vida. Querem acabar com a dor – resumiu.
Num país em que a política virou espetáculo permanente de agressividade, a cena parecia deslocada no tempo. Mas talvez justamente por isso tenha chamado atenção. Minha atenção, ao menos.
Antes do ato no CTG, Cury passou pela Câmara de Gravataí, recebido pelo presidente Dilamar Soares (Podemos), o Dila, além de lideranças de diferentes partidos. Ali estavam desde a prefeita Jussara até vereadores e políticos do PP, PSDB, MDB, PV (o presidente estadual, Márcio Souza, estava presente, ao lado do ex-prefeito de Gravataí Sérgio Stasinski) e Podemos, além do presidente nacional do Avante, deputado federal Luis Tibé.
Ganhou de presente o livro Nossa Terra, Nossa Gente: A História de Gravataí: 1730-1950, de Agostinho Martha e Marco Antônio Bandeira Martha.
– Quem não conhece sua história repete os mesmos erros – respondeu.
Historiador, Dila aproveitou para conectar a polarização contemporânea à obra Era dos Extremos, de Eric Hobsbawm. Não foi uma lembrança aleatória. A tese central de Cury é justamente a de que a sociedade entrou numa espécie de esgotamento emocional coletivo produzido pela radicalização, pelo excesso de informação e pela incapacidade de diálogo.
Ele diz ter entrado no “ambiente tóxico” da política justamente por enxergar o país aprisionado numa guerra ideológica permanente.
– Por que alguém com o meu currículo quereria entrar nesse teatro pantanoso? Justamente porque eu não preciso – costuma dizer.
Na rápida coletiva, ouviu de mim um “bem-vindo à política”. Porque pouco antes falava poeticamente sobre lírios do campo, mas política também é espinho. A notícia nacional daqueles dias era a relação do senador Flávio Bolsonaro com o banqueiro mafioso Daniel Vorcaro. Perguntado sobre o caso, respondeu que tudo precisa ser investigado — mas acrescentou que não fará campanha baseada na destruição dos adversários.
Era como se tentasse preservar o personagem de escritor humanista dentro do lamaçal político.
Difícil saber se conseguirá. Com apenas 2% nas pesquisas do partido e cerca de 80% de desconhecimento do eleitorado sobre sua candidatura, Augusto Cury talvez nem esteja nos principais debates televisivos de 2026. O Avante terá apenas 21 segundos de propaganda eleitoral.
Mas há um paradoxo interessante aí. Embora pequeno eleitoralmente, o partido mostrou regionalmente algo que muitas siglas maiores não conseguem mais produzir: ambiente de crescimento.
A presença da prefeita Jussara Caçapava — única prefeita gaúcha do Avante — reforçou isso. Assim como o lançamento de Tete ao primeiro plano eleitoral. Discreto, mais afeito aos bastidores, ele próprio admitiu: “Sou mais dos bastidores, mas aceitei o desafio”.
É quase uma síntese da sua trajetória política até aqui. Tetê ajudou a construir o impeachment que derrubou Cristian Wasem (União Brasil) e Delegado João Paulo (PP) em Cachoeirinha. Depois virou um dos principais articuladores da eleição suplementar que levou a mãe ao poder. Agora sai dos bastidores para tentar virar deputado federal.
O ato também consolidou a aproximação política entre a família Caçapava e o ex-deputado Dimas Costa, pré-candidato do PSD à Assembleia Legislativa. Num momento quase folclórico da noite, Dimas brincou: “Meu nome agora é Dimas Souza da Costa Caçapava. Já sou da família”.
A frase arrancou risos, mas também revelou algo politicamente importante: a consolidação de uma aliança regional entre Gravataí e Cachoeirinha.
Dimas, afinal, é o ‘embaixador’ informal do governador Eduardo Leite em Gravataí. Mas ali dividia espaço com um evento em que o apoio à pedetista Juliana Brizola ao Piratini também era anunciado — embora de forma claramente mais tímida.
Juliana, em viagem ao Chile, mandou vídeo. Lideranças históricas do PDT estavam presentes, como José Amaro Hilgert. Mas percebia-se cautela. Havia no mesmo ambiente apoiadores de outros projetos estaduais e nacionais.
O próprio Dimas lembrou que seu partido apóia outras candidaturas: Gabriel Souza (MDB) ao governo gaúcho e Ronaldo Caiado (PSD) à Presidência.
Era uma noite de muitas pontes políticas simultâneas. E talvez ninguém simbolize melhor essa engenharia do que Cláudio Ávila.
Recém-filiado ao Avante, o vereador de Gravataí foi o apresentador do evento e um dos seus principais organizadores. No mesmo dia, uma indicação sua, Fábio Pereira, assumia a Secretaria de Assistência Social de Gravataí no governo Luiz Zaffalon (PSD).
Mostra o crescimento do partido. E a consolidação de um Ávila ‘encantador de serpente’, como já foi título de capítulo de livro do comunicador Chico Pereira.
Hoje assessor especial de Jussara em Cachoeirinha, ele ganhou agradecimento público da prefeita: “Falo com ele 24 horas por dia. Obrigado, Cláudio”.
Ávila pensa política em movimento. Sempre alguns passos à frente. E entende que partidos crescem justamente assim: conectando cidades, lideranças, projetos e ambições diferentes.O Avante tenta fazer isso entre Gravataí e Cachoeirinha. Cury tenta fazer isso entre direita e esquerda. Tenta ocupar o vazio emocional deixado por uma política transformada em torcida organizada.
A questão é saber se há espaço eleitoral para isso num país ainda profundamente dividido entre lulismo e bolsonarismo. Porque Augusto Cury faz mais poesia que política. Fala mais sobre tristeza coletiva do que sobre articulação parlamentar. Mais sobre suicídio juvenil do que sobre coalizões partidárias. Mais sobre contemplar lírios do campo do que sobre destruir adversários.
Exótico para um palanque. Mas, ao fim, talvez justamente por isso tenha sido uma noite diferente.
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Assista o vídeo produzido por GG para SEGUINTE TV






