RAFAEL MARTINELLI

19 a 1 a favor das gineteadas: Gravataí transforma o sofrimento animal em patrimônio cultural

Bombeiro comemorou aprovação com tradicionalistas após a sessão / Foto: Matheus Hoffelder

A Câmara Municipal de Gravataí consumou, nesta quinta-feira (24), a tragédia anunciada do anacronismo ético. Por 19 votos favoráveis e apenas um contrário, os vereadores aprovaram o Projeto de Lei nº 84/2026, de autoria de Bombeiro Batista (Republicanos), que transforma a gineteada em “patrimônio cultural imaterial” do município. A matéria agora segue para a sanção do prefeito Luiz Zaffalon (PSD) — que vai autorizar a lei.

Como já analisei e antecipei, em uma série de artigos no Seguinte:, o parlamento optou por se fechar nas velhas certezas e fugir do que considero evolução moral. Não surpreende o placar, mas choca a conveniência do calendário. A votação ocorreu literalmente na ‘boca da urna’ — a escassos dez dias do pleito municipal de 4 de outubro. No afã de acenar para as galerias do tradicionalismo e garantir o aplauso fácil das arquibancadas campeiras às vésperas da eleição, 19 parlamentares preferiram ignorar a ciência para normatizar o injustificável.

O presidente da Casa, Dilamar Soares, isentou-se do painel — por regimento, só teria obrigação de votar em caso de desempate, cenário que esteve a anos-luz de acontecer.

O único voto em dissonância com o arranjo eleitoral veio de Márcia Becker (PSDB). Ao se posicionar solitária contra a proposta, a vereadora da causa animal colocou a coerência e a ética acima da ‘causa do voto’. Em um ambiente onde a maioria dos parlamentares calcula cada passo em milímetros de capital político na véspera da votação para si ou para os seus, Márcia reafirma o paradoxo raro que já destaquei neste espaço: o de atuar sabendo que a defesa intransigente dos animais muitas vezes retira votos de setores conservadores. Mas é exatamente essa exposição que lhe confere a credibilidade que o marketing político de época não consegue comprar.

O material de divulgação distribuído pelo gabinete de Bombeiro Batista após a sessão tenta retirar as esporas do feito. Argumenta-se que o projeto “associa a preservação da tradição ao respeito e ao bem-estar animal” e que a proposta prova que “a valorização da cultura tradicional e a proteção dos animais podem caminhar juntas”.

A peça publicitária do vereador faz questão de ostentar o parecer inédito emitido pelo recém-criado Setor de História e Memória da Casa. Trata-se do mesmo resgate documental do inventário de 31 de julho de 1784 — que contabilizava equinos na antiga Vila Nossa Senhora dos Anjos — utilizado para tentar traçar uma linha contínua entre a sobrevivência dos pioneiros do século XVIII e a exploração de cavalos em arenas no século XXI. O projeto ganhou até mesmo destaque nas redes do repórter Giovani Grizotti, da RBS TV, amplificando o tom de celebração tradicionalista.

Sigo, porém, em minha argumentação: nenhum parecer histórico, diploma legal ou peça de assessoria de imprensa ou campanha eleitoral é capaz de alterar a natureza das coisas e dos fatos. Não há lei aprovada na boca da urna que consiga transformar o pavor biológico em patrimônio ético.

Enquanto o Legislativo se apega a romantismos campeiros e inventários do século XVIII, a ciência continua dissecando a anatomia do trauma com frieza. Como demonstrado nos estudos da Dra. Irvênia Prada (professora emérita da USP) que embasaram o Projeto de Lei nº 80/2026 de Márcia Becker — que restringia as gineteadas e foi sumariamente sufocado pela manobra defensiva da maioria —, o ato de corcovear não é demonstração de bravura ou celebração da cultura. É a resposta desesperada da Síndrome de Emergência de Canon. É pavor biológico puro, traduzido em pupilas dilatadas (midríase), salivação excessiva (sialorreia), taquicardia, dor de esporas no baixo-ventre e risco contínuo de lesões na coluna e fraturas em choques contra grades.

Arrancar um animal de seu hábitat, amarrá-lo vendado a um palanque em bretes estreitos e martirizá-lo para o deleite de uma plateia pagante jamais fez parte da lida honesta do campo. É o uso da dor alheia como entretenimento.

A ilusão do painel e o Belchior

Reputo que a aprovação do PL 84/2026 reflete o pânico de um modelo que sabe que não resiste ao futuro. Vimos esse mesmo movimento quando o tensionamento em Canoas e as denúncias de maus-tratos forçaram o próprio Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) a publicar a Portaria nº 18/2026, proibindo esporas nazarenas e choques elétricos. A cartolagem só recua e tenta se blindar legislativamente quando percebe que a sociedade começou a questionar o sadismo travestido de festa.

O argumento de defender a “tradição” a qualquer custo é o último refúgio dos que temem a evolução moral. Em 2008, quando Gravataí discutiu e aprovou a proibição de circos com animais — em projeto da então vereadora Anabel Lorenzi —, os discursos inflamados nas galerias eram rigorosamente os mesmos. Falava-se em “tradição cênica”, “fim da cultura” e “ataque de eco-chatos”.

Na época, escrevi que os parlamentares que achavam bonito ver leões e tigres encarcerados em jaulas deveriam passar uma tarde trancados em uma delas sob o sol do Centro de Gravataí. Hoje, a ideia de um circo com animais nos parece bizarra, primitiva, grotesca. A escravidão também foi defendida por séculos sob pretextos econômicos e culturais. O que muda ao longo do tempo não é a biologia do animal — que continua sentindo dor exatamente como nós —, mas a percepção ética da coletividade.

Ao fim, a vitória política da causa animal nunca se limitou ao placar momentâneo do painel eletrônico. A aprovação deste projeto na Câmara de Gravataí garante um carimbo cartorial provisório ao modelo antigo, mas a verdadeira transformação acontece nas mentes, nas mesas de jantar e na consciência dos jovens que passam a enxergar crueldade onde antes viam festa.

Schopenhauer escreveu que “o homem fez da Terra o inferno dos animais”. A votação promovida por Bombeiro Batista e chancelada pela maioria dos vereadores tenta manter as portas desse inferno abertas em Gravataí sob o manto da lei. Podem comemorar a vitória política de ocasião, mas a história é implacável: o Zeitgeist não caminha para trás. Podemos — eu, Márcia, que postou vídeo crítico após a sessão, e outros ativistas — não restar vivos para ver. Mas “o novo”, como avisava Belchior, “o novo sempre vem”.


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