Gravataí amanheceu nesta quarta-feira (30) com a notícia da morte de uma das figuras mais conhecidas e queridas do Centro da cidade. Maurício Gomes Dutra, de 69 anos, foi encontrado morto em casa. A principal linha inicial de investigação da Polícia Civil é de que ele tenha sido vítima de latrocínio — roubo seguido de morte.
A notícia encerra de forma trágica a trajetória de um homem que, durante décadas, fez parte do cotidiano de Gravataí. Maurício era conhecido pelos abraços, pelo sorriso aberto, pelas conversas nas ruas do Centro e pelo trabalho na tradicional Pizzaria Pandollo.
A Prefeitura de Gravataí divulgou nota de pesar e afirmou acompanhar o caso, confiando no trabalho da Polícia Civil para o esclarecimento dos fatos e a responsabilização dos envolvidos, dentro da lei.
“Maurício fez parte da história da nossa cidade”, diz a nota. Segundo a prefeitura, sua trajetória foi marcada pelo trabalho, pela simplicidade e pelo carinho com que tratava as pessoas.
Maurício nasceu em 31 de janeiro de 1957, em Gravataí. Era o quinto dos seis filhos de Maria Gomes Dutra e José Linck Dutra, já falecido.
Em 2009, a história dele foi contada pelo Correio de Gravataí, em reportagem assinada pelo jornalista Rodrigo Becker. A matéria nasceu depois que leitores procuraram o jornal para que a trajetória de Maurício fosse contada após uma reportagem sobre a venda da Pizzaria Pandollo.
“Se não fosse pelo Maurício, talvez a escola de educação especial Cebolinha não tivesse existido”, reportou Becker na época.
Maurício era uma pessoa com deficiência em razão de complicações no parto. Quando ele ainda era criança, a mãe, Maria, enfrentou o preconceito e as dificuldades de uma época em que havia poucas alternativas de atendimento especializado.
“Naquela época era muito difícil. Havia muito preconceito. As pessoas nem davam bola para quem era diferente”, contou Maria à reportagem de 2009.
Foi ela quem saiu em busca de outras famílias que tivessem crianças em situação semelhante. Descobriu que eram necessários pelo menos oito alunos para formar uma turma e conseguiu reunir o grupo.
Depois, procurou o então prefeito Dorival de Oliveira, que também tinha uma filha com deficiência, Lizete.
A iniciativa resultou na criação de uma turma que, mais tarde, estaria ligada à história da Escola Municipal de Educação Especial Cebolinha e da Apae.

O encontro com a família Pandollo
Foi em 1985 que Maurício se aproximou da Pizzaria Pandollo, que naquele período funcionava em frente à praça central de Gravataí.
Ele caminhava diariamente pelas ruas do Centro. Aos poucos, começou a frequentar a pizzaria.
A mãe, segundo a reportagem publicada em 2009, tinha uma preocupação com a segurança do filho.
“Não fosse o Pandollo, o Maurício estaria andando na rua. Alguém pode querer fazer maldade. Não dá para deixar, não ficar descansada”, contou Maria na época.
Foi então que Ilton Pereira da Silva, o Pandollo, e Rejane acolheram Maurício.
“Ele veio e ficou com a gente. A Rejane gosta muito dele”, disse Ilton à reportagem de 2009.
Maurício passou a trabalhar na pizzaria e se tornou parte da família. Natália, filha de Ilton e Rejane, tinha Maurício como padrinho.
A mãe contava que ele havia crescido muito depois de começar a frequentar o estabelecimento.
“Ele ajuda, faz o que pedem, aprendeu muito para alguém que não sabe ler e fazer contas”, relatou Maria.
Ilton postou uma série de fotos em seu perfil nas redes sociais.



Do Colorado ao maior gremista
Maurício era colorado de nascença, como o pai. Mas a convivência com Pandollo mudou a história.
Em 1995, quando o Grêmio conquistou a Libertadores sob o comando de Luiz Felipe Scolari, Pandollo colocou um telão em frente à Igreja Matriz para que os torcedores acompanhassem a celebração.
Foi ali, segundo a reportagem de 2009, que Maurício virou gremista.
“Daí o Maurício virou gremista”, contou Pandollo naquela ocasião.
A mãe confirmou: “É verdade”.
Desde então, o Grêmio passou a fazer parte da identidade de Maurício. Para o professor e historiador Amon Costa, que o conhecia desde a infância, ele era “o maior gremista da história de Gravataí”.
Ao saber da morte, Pandollo falou ao Seguinte: sobre o amigo que fez parte de sua família durante tantos anos.
“O que acho que deveria ser falado é que o Maurício era um ser humano como todo ser humano deveria ser: amigo de todo mundo, alegre, respeitador, sem maldade, ingênuo até, mas com um coração gigantesco e contagiante”, afirmou.
Sobre a morte, Pandollo resumiu o sentimento em poucas palavras: “É algo inadmissível e inacreditável até.”
Amon Costa também publicou uma homenagem nas redes sociais.
“Vou guardar o Maurício como sempre o conheci: uma pessoa doce, amável, de sorriso aberto e abraço sincero”, escreveu.

Um sorriso de Gravataí
Durante muitos anos, Maurício foi presença constante no Centro. Conhecia pessoas, perguntava pelas famílias e distribuía abraços.
Também era presença frequente nos eventos da Rua Aberta, onde continuava sendo reconhecido por moradores de diferentes gerações.
A Prefeitura destacou justamente essa relação com a cidade.
“Gravataí se despede de um de seus cidadãos mais conhecidos e queridos”, afirmou o município na nota de pesar.
O presidente da Câmara de Vereadores, Dilamar Soares, que também frequentava a Pizzaria Pandollo e era amigo de Maurício, disse ao Seguinte: que o Legislativo deverá publicar uma nota de pesar.
A investigação sobre a morte segue com a Polícia Civil. Neste momento, a principal linha considerada pelos investigadores é a de latrocínio.
Enquanto as circunstâncias da morte são apuradas, Gravataí se despede de um personagem que, por décadas, esteve presente em sua rotina.
Maurício deixa uma história que passa pela luta de uma mãe por inclusão, pela criação de uma escola de educação especial, pela trajetória da Pizzaria Pandollo e pelas ruas do Centro onde era conhecido por um gesto simples: um abraço.
E, para quem conviveu com ele, fica também a lembrança de um sorriso que atravessou gerações.
O velório acontece nesta quinta-feira (1), a partir das 8h, no salão da Igreja Nossa Senhora dos Anjos (Rua Cônego Pedro Wagner, 717, Centro), com missa de despedida, com corpo presente, às 15h.





