O governador Eduardo Leite cumpriu a promessa de campanha. A ERS-118, no trecho urbano que corta e estrutura a rotina de milhares de gravataienses, não terá pedágio. Em lugar algum da rodovia.
O anúncio do anteprojeto do Lote 1 — um trecho de 5,1 quilômetros com investimento superior a R$ 224 milhões via Fundo Rio Grande (Funrigs) para ligar Gravataí, Alvorada e Viamão com pista dupla, novos viadutos e ponte sobre o Rio Gravataí — fecha o ciclo de uma rodovia que já recebeu mais de R$ 350 milhões em investimentos estaduais. Uma via que provou sua importância estratégica e de resiliência ao funcionar como corredor humanitário nas históricas enchentes de 2024.
Durante anos, alimentou-se no imaginário coletivo a fake news de que o governo estadual instalaria pedágios na área urbana da cidade. A realidade, no entanto, atropelou o algoritmo.
Como sempre insisto, contra a maré do oportunismo, é preciso olhar para o debate sob a ideologia dos números.
O projeto de concessão do Bloco 1 traz, sim, a previsão de cobrança na ERS-020. Mas o free flow ficará no km 22,9, na divisa com Taquara.
Na prática, o morador de Gravataí no seu deslocamento diário não pagará pedágio na sua principal artéria, a RS-118. E a cobrança na 020 — distante da rotina urbana e direcionada ao tráfego de passagem rumo à Serra — é justamente a engrenagem fiscal que destrava R$ 218 milhões em duplicações na própria ERS-020, além de garantir manutenção, socorro 24 horas e segurança viária por 30 anos.
Fato é que o mundo real não dá alcance nas redes sociais. O que dá alcance é criar o pânico de um pedágio inexistente na porta de casa.
Não é um fenômeno isolado de aldeia. É a mesma dinâmica de desinformação que contamina a política nacional.
Recentemente, a expressão “piá de b…”, resgatada da gíria do sul pela primeira-dama Janja da Silva ao se referir ao deputado federal Nikolas Ferreira, expôs exatamente esse modus operandi. O episódio — que terminou com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandando o parlamentar apagar publicações que recortavam um discurso sobre prevenção ao câncer de próstata para atribuir-lhe conotações absurdas envolvendo menores, até mesmo de pedofilia — é a síntese perfeita de como opera a máquina de engajamento da extrema eficácia digital.
Como bem destacou a decisão da Justiça Eleitoral, a desinformação moderna não precisa criar uma mentira do zero; basta amputar o contexto, pinçar uma frase, inventar um fantasma e atiçar o medo na manada.
De certa forma, funcionou também para a ‘guerra santa’ sobre retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de Padroeira do Brasil — com um porém: Flávio Bolsonaro tinha falado que seu primeiro ato de governo seria um decreto proclamando que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, retórica que, nos bastidores da fé e da política, caiu como uma provocação direta à tradição católica e à devoção mariana. E Lula, ao que se sabe, não tem com a pedofilia a relação que tem Flávio com fundamentalistas como o ex-assessor de Jair que em 2007 apresentou projeto rebaixando a santa.
Fato é que é rigorosamente o mesmo método aplicado aos pedágios em Gravataí: pega-se um debate legítimo sobre infraestrutura e seu financiamento, arranca-se a explicação técnica sobre o free flow e a localização dos pórticos, e vende-se a ilusão de que a cidade será cercada por cancelas.
Ao fim, o “piá de b…” da política não tem idade ou partido. É um estado de espírito. É aquele político ou militante digital que, sem envergadura para defender pautas estruturantes — quase sempre impopulares e que exigem coragem técnica —, prefere a lacração rasteira.
Prefere criar o pânico do pedágio na 118 ou o pânico moral nas redes — por vezes se escondendo em insinuações, sem ter a coragem (mesmo tóxica) de Nikolas — do que sentar à mesa e encarar a planilha orçamentária de um Estado que precisa reconstruir sua logística pós-tragédia.
Ao fim, reputo que, nesta polêmica sobre pedágios, o “tirem os piás de b… da sala” foi dado pelos gravataienses Patrícia Alba e Dimas Costa, na Assembleia Legislativa, e pelo Movimento RS-118 Sem Pedágio. Ajudaram Gravataí a não ter pedágio. Na vida real, não nas redes antissociais.





