No #DasUrnas, siga diariamente quem ganhou, quem perdeu, quem empatou e os números e análises da eleição
A política — insisto — é um museu de grandes novidades, como dizia Cazuza. A eleição, como o tempo, não para. Goste-se ou não, a campanha é eterna, a ponte entre 2026 e 2028 já começou a ser construída antes mesmo de o último voto ser contabilizado pelo TSE, e o aliado de hoje pode ser o adversário de amanhã, e o estreitamento de inimizades é tão caloroso quanto o abraço de domingo entre Luciano Zucco (PL) e Juliana Brizola (PDT).
No fechar das urnas do primeiro turno de 2026, o prefeito de Gravataí, Luiz Zaffalon (PSD), carimbou uma vitória eleitoral indiscutível: viu eleitos os dois candidatos a deputado de sua preferência. O gravataiense Dimas Costa (PSD) garantiu vaga direta na Assembleia Legislativa, enquanto o esteiense Juvir Costella (MDB) carimbou seu retorno à Câmara Federal. De quebra, Zaffa testemunhou das arquibancadas a derrocada de Marco e Patrícia, o casal Alba, com quem trava aquela que chamo de III Guerra Política da Aldeia (Zaffa x Alba, pós-Bordignon x Stasinski e Abílio x Oliveiras).
A vitória tem o peso político da resiliência porque acontece no momento mais delicado de suas duas gestões — em meio a uma brutal crise fiscal. Mas o troféu das urnas traz um efeito colateral: Zaffa agora enfrenta o indigesto desafio de não deixar esfriar o café com mais de dois anos de mandato pela frente, enquanto equilibra a xícara em uma bandeja governamental que restou escancaradamente rachada.
Preste atenção às palavras de Zaffa ao Seguinte:, hoje, porque vou voltar a elas nesta análise: “Trabalhamos muito pra conseguir. Feliz por ter um deputado estadual e um deputado federal, abrindo portas e trazendo recursos para Gravataí. A equipe da base do meu governo ajuda muito. O trabalho diário em cada canto da cidade traz credibilidade e motivo justo para pedir voto. Bons candidatos identificados com o trabalho fecham o pacote”.
Mas, nos bastidores, o pacote veio com prazo de validade vencido para a trégua.
A disputa de 2026 escancarou o abismo entre o grupo político apoiado diretamente por Zaffa e a ala governista capitaneada pelo derrotado vice-prefeito Dr. Levi Melo (Podemos) e pelo vereador mais votado da cidade, Bombeiro Batista (Republicanos).
Se Dimas Costa contou com a chancela pessoal de Zaffa e a militância de sete vereadores da base, a dobradinha informal entre Levi (para federal) e Bombeiro (para estadual) operou com a musculatura da máquina pública municipal. O grupo de Levi e Bombeiro detém quase metade dos Cargos em Comissão (CCs) e comanda pastas estratégicas de peso orçamentário, como a Secretaria de Saúde.
Nas semanas que antecederam o pleito, a tensão explodiu com o escândalo do suposto ‘gabinete do ódio’ que difamava Dimas, resultando em operação policial que teve como alvo principal uma assessora próxima ao vice-prefeito e cobranças públicas de Davi Severgnini — secretário da Fazenda de Gravataí por 11 anos, hoje secretário de Desenvolvimento Urbano do governo Eduardo Leite, estrategista de Dimas, arquiteto da ampla aliança que reelegeu Zaffa em 2024 e nome cotado nos bastidores para ser o ‘Zaffa do Zaffa’ na sucessão de 2028.
O armistício ensaiado no meio do ano, quando Levi, após negar o convite para o aniversário, visitou o escritório político de Dimas, virou “caridade de quem me detesta”, para seguir cazuziano. Mesmo que neguem publicamente, a leitura do grupo de Dimas e Davi é de que a dobradinha entre Levi e Bombeiro foi gestada menos para eleger a dupla e mais para tentar trancar o crescimento de Dimas. Pensaram no projeto próprio para 2028 em detrimento do projeto do governo. Para não esquecer de lembrar: Dimas, que era candidato viável a prefeito pela oposição em 2024 (tinha sido o segundo em 2020), renunciou para apoiar a reeleição de Zaffa, com o compromisso de apoio na disputa pela Assembleia Legislativa; Zaffa e Davi cumpriram.
Restaram Levi e Bombeiro, ao menos na tese de Dimas e Davi, como na frase de Camila Maccari, em “Dias de se fazer silêncio”: “Às vezes a gente não quer tanto uma coisa que chega a esquecer as coisas que a gente quer”.
Fato é que Dimas é Davi, Davi é Dimas. E ambos não estarão com Levi em 2028. Dimas já deixou claro: se Davi for o candidato à sucessão municipal, terá seu apoio irrestrito. Caso a postulação de Davi não se viabilize, a lógica aponta para o caminho inverso, com o apoio migrando para Dimas. Correndo por fora nesse ecossistema ainda aparecem o presidente da Câmara, Dilamar Soares (Podemos), e o ex-deputado federal Jones Martins (MDB), ambos próximos ao grupo político, ao menos nos bastidores.
Por outro lado, Levi se coloca como o candidato natural do governo pela ordem sucessória, caso sua saúde permita. Ele enfrenta uma doença rara, a mielite autoimune, e hoje se locomove em cadeira de rodas. Porém, o vice-prefeito sai das urnas com a marca de não ter recebido o aval do prefeito para a Câmara Federal — onde Zaffa fechou com Costella — e vendo seu grupo sob suspeita de, em vez de beijo de namorada, ter direcionado um beijo da morte para Dimas.
Se os fatos são os chatos que atrapalham argumentos, os números de 2026 consolidam marcas históricas na Aldeia, como já analisei ontem, na boca da urna, em #DasUrnas | Veja os números locais: Raio-X da eleição consagra Dimas Costa como o único eleito por Gravataí — e a Prefeitura em 2028.
Dimas Costa (PSD), de ex-opositor que saiu da esquerda para o ‘extremo centrismo’ ao se aliar a Zaffa em 2024, colheu os frutos do reposicionamento político e do período de um ano e meio como ‘embaixador’ de Leite e “deputado de resultados”. Foi consagrado como o único eleito de Gravataí para a Assembleia Legislativa, fazendo 21.053 votos na cidade (15,95% dos válidos) e 42.677 no RS (0,70%), além de fiador regional com mais de 6 mil votos em Cachoeirinha e um dos principais representantes da Região Metropolitana na próxima legislatura.
Thiago De Leon (PDT), que foi candidato a vice de Marco Alba em 2024, foi a maior surpresa do pleito proporcional. Com a pauta da doação de metade do salário registrada em cartório e vendendo imagem de renovação e ‘denunciante geral da aldeia’ com “a Gravataí que ninguém mostra”, obteve 12.868 votos (9,75%) na cidade — superando o próprio Marco Alba dentro do município. De Leon sai como o nome mais viável da oposição de centro-esquerda caso o Porsche, como brincava na campanha sobre a proposta de doar o valor do carro de luxo em salários, direcionar o GPS não para um cômodo retorno à Câmara de Vereadores e sim para a Prefeitura em 2028.
Marco Alba e Patrícia Alba (MDB) perderam em família. Bonito na relação amorosa e humana, mas feio para o pragmatismo implacável da política. O isolamento da campanha estritamente familiar, sem dobradinhas com outras candidaturas pela região e interior, cobrou uma conta alta. Marco Alba viu sua votação despencar de mais de 45 mil votos locais em 2022 para apenas 12.462 votos em Gravataí (9,44%) e 19.594 no RS, perdendo a liderança da oposição para De Leon. Patrícia Alba fez 12.079 votos (9,26%) na cidade para federal e 19.478 no estado, não conseguindo se eleger.
Inegável é que um racha escancarado no governo Zaffa é tudo o que Marco Alba deseja. Apostando em seu legado e na memória de ex-prefeito bem avaliado ao fim de seus dois governos, em 2020, Marco joga suas fichas na tese de que Zaffa pode se transformar em seu principal cabo eleitoral caso faça uma gestão ruim devido à crise fiscal — a mesma tese que Daniel Bordignon usava contra Marco em 2016.
Para isso precisa, insisto, adequar-se ao Zeitgeist, o espírito do tempo, em que a política resta instagramável e na velocidade do algoritmo, que esquece daqueles que não polemizam nas redes antissociais ou apostam na preservação de imagem e só aparecem no ano eleitoral para lembrar de seus feitos.
Gravataí é conservadora — e o principal partido da cidade; ah, e o café!
Apesar do sucesso de Dimas e da ascensão de De Leon, ambos ‘nem-nem’ mais à centro-esquerda da ferradura ideológica, o DNA político de Gravataí permanece profundamente bolsonarista e conservador.
Para Presidente: Flávio Bolsonaro (PL) venceu com folga na Aldeia, somando 78.624 votos (55,91%), contra 47.237 votos (33,59%) de Lula (PT).
Para Governador: Luciano Zucco (PL) varreu as urnas locais com 77.976 votos (59,57%), deixando Juliana Brizola (PDT) com 29,72% e Gabriel Souza (MDB) desidratado em 8,74%.
Para o Senado: A dobradinha conservadora dominou com Sanderson (PL) — 74.949 votos (30,65%) — e Marcel van Hattem (NOVO) — 73.973 votos (30,25%).
Entretanto, o maior partido da cidade voltou a ser a abstenção. Em 2022, foram 39.567 ausentes no 1º turno (20,66%). Em 2026, o número saltou para 44.217 eleitores (23,02%). Somando brancos e nulos, quase um terço do eleitorado de Gravataí simplesmente virou as costas para o pleito.
Ao fim, em seu sincericido usual, Zaffa nunca esconde irritação quando a eleição de 28 é antecipada. Porém, é algo tão inerente à política quanto o Sol nascer, seja sob Lula ou Bolsonaro.
E, mesmo que não aceite tratar hoje do amanhã, em meio a uma metralhadora de mágoas — especialmente de quem ficou sem mandato e sem espaço —, para manter o café quente o prefeito precisará de uma blindagem política que hoje não possui nas manifestações públicas da própria base (e aqui incluo os diferentes grupos), principalmente após a crise fiscal restar escancarada.
Para não permitir o clima de ‘fim de festa’ com mais de dois anos de mandato pela frente, reformulações no secretariado são iminentes. Quando agradeceu à “equipe base” de seu governo na fala ao Seguinte: sobre a eleição de seus dois deputados, Zaffa pode ter sinalizado onde pretende se apoiar.
É claro: caso queira de verdade fazer o sucessor. Pode ele deixar o governo esfacelar na boca da urna em 2028 e preferir passear no parque, como fazia Eduardo Leite no domingo passado em São Paulo, a uma semana da eleição.
Mais números oficiais da eleição em Gravataí
10 primeiros candidatos a Deputado Estadual em Gravataí
- Dimas Costa (PSD): 21.053 votos (15,95% dos votos válidos); no RS 42.677 votos (0,70%)
- Thiago De Leon (PDT): 12.868 votos (9,75% dos votos válidos); no RS 15.611 votos (0,26%)
- Marco Alba (MDB): 12.462 votos (9,44% dos votos válidos); no RS 19.594 votos.
- Bombeiro Batista (Republicanos): 10.183 votos (7,72% dos votos válidos); no RS 13.652 votos (0,22%)
- Policial Evandro Coruja (PL): 8.155 votos (6,18% dos votos válidos); no RS 12.755 votos (0,21%)
- Léo da Costa (PT): 3.715 votos (2,82% dos votos válidos); no RS 20.545 votos.
- Luciana Genro (PSOL): 3.517 votos (2,67% dos votos válidos); no RS 127.601 votos (2,09%).
- Adri Cherini (PL): 2.382 votos (1,81% dos votos válidos); no RS 129.492 votos (2,12%)
- Paulinho da Farmácia (Podemos): 2.290 votos (1,74% dos votos válidos); no RS 3.590 votos (0,06%)
- Matheus Gomes (PSOL): 2.221 votos (1,68% dos votos válidos); no RS 98.813 votos (1,62%)
10 primeiros candidatos a Deputado Federal em Gravataí
- Dr. Levi Melo (Podemos): 12.215 votos (9,36% dos votos válidos); no RS 16.264 votos (0,27%)
- Patrícia Alba (MDB): 12.079 votos (9,26% dos votos válidos); no RS 19.478 votos (0,32%)
- Fernanda Melchionna (PSOL): 9.083 votos (6,96% dos votos válidos); no RS 280.262 votos (4,59%)
- Maurício Marcon (PL): 6.125 votos (4,69% dos votos válidos); no RS 379.834 votos (6,22%)
- Gustavo Victorino (Republicanos): 5.641 votos (4,32% dos votos válidos); no RS 94.428 votos (1,55%)
- Rony Gabriel (Podemos): 4.860 votos (3,73% dos votos válidos); no RS 223.643 votos (3,66%)
- Maria do Rosário (PT): 4.499 votos (3,45% dos votos válidos); no RS 173.788 votos (2,84%)
- Giovani Cherini (PL): 3.684 votos (2,82% dos votos válidos); no RS 234.171 votos (3,83%)
- Daiana Santos (PCdoB): 3.388 votos (2,60% dos votos válidos); no RS 114.315 votos (1,87%)
- Sérgio Zambiasi (Podemos): 3.157 votos (2,42% dos votos válidos); no RS 44.929 votos (0,74%)
Votação de todos os candidatos locais de Gravataí
Candidatos a Deputado Estadual em Gravataí:
- Dimas Costa (PSD): 21.053 votos (15,95%); no RS 42.677 votos (0,70%)
- Thiago De Leon (PDT): 12.868 votos (9,75%); no RS 19.001 votos (0,31%)
- Marco Alba (MDB): 12.462 votos (9,44%); no RS 19.594 votos (0,32%)
- Bombeiro Batista (Republicanos): 10.183 votos (7,72%); no RS 13.652 votos (0,22%)
- Policial Evandro Coruja (PL): 8.155 votos (6,18%); no RS 12.755 votos (0,21%)
- Paulinho da Farmácia (Podemos): 2.290 votos (1,74%); no RS 3.590 votos (0,06%)
- Tiago Bitencourt (NOVO): 727 votos (0,55%); no RS 1.301 votos (0,02%)
Candidatos a Deputado Federal em Gravataí:
- Dr. Levi Melo (Podemos): 12.215 votos (9,36%); no RS 16.264 votos (0,27%)
- Patrícia Alba (MDB): 12.079 votos (9,26%); no RS 19.478 votos (0,32%)
- Márcia Becker (PSDB): 1.637 votos (1,25%); no RS 2.501 votos (0,04%)
- Tami Paveglio (PSOL): 870 votos (0,67%); 1.558 votos (0,03%)
- Zé Telmo (Republicanos): 655 votos (0,50%); no RS 830 votos (0,01%)
- Thaty Energia (Republicanos): 398 votos (0,31%); no RS 779 votos (0,01%)
- Prô Priscila Rivé (Republicanos): 370 votos (0,28%); no RS 506 votos (0,01%)
LEIA TAMBÉM
#DasUrnas | O raio-x da eleição em Canoas: Busato é eleito e já vai para o trabalho — e o unicórnio







Uma resposta