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A política — venho repetindo cazuzianamente nesta coluna — é um museu de grandes novidades. A eleição não para, a campanha é eterna e, no fechar das urnas de 2026, enquanto candidatos e estrategistas contabilizam o saldo do pleito proporcional, uma certeza emerge cristalina no tabuleiro da Aldeia:
O ‘bolsonarismo-raiz’ em Gravataí tem nome, patente e número impresso nas urnas. É de Policial Evandro Coruja (PL).
Ao alcançar 8.155 votos na cidade (6,18% dos válidos) e 12.755 no Rio Grande do Sul (0,21%) na corrida para a Assembleia Legislativa, o vereador em segundo mandato não carimbou o passaporte para o Parlamento gaúcho. Porém, cumpriu com precisão milimétrica a estratégia que antecipei em artigos anteriores no Seguinte:, quando o chamei de o ‘Flávio Bolsonaro de Gravataí’. Mesmo sem ser eleito, Coruja ocupou integralmente o espaço político do conservadorismo mais radical na cidade, teve uma vitória política na disputa interna da direita local e inscreveu-se como um ator incontornável para a sucessão municipal de 2028.
Para compreender o movimento de Coruja, é preciso olhar para a macropolítica nacional. Na construção do projeto de poder da família Bolsonaro para 2026, Eduardo Bolsonaro defendeu rigorosamente o lançamento da candidatura do irmão, Flávio Bolsonaro (PL), ao Palácio do Planalto — sustentando a tese do “ganhar perdendo” para evitar a entrega do eleitorado conservador àquela que chamava de ‘direita limpinha’, encarnada por figuras como Tarcísio de Freitas. A estratégia deu certo: Flávio venceu o primeiro turno no país e desponta como favorito na disputa presidencial, enquanto o ecossistema bolsonarista reeteve sua hegemonia de narrativa.
Em escala municipal, Coruja aplicou rigorosamente essa fórmula na Gália gravataiense. Como analisei quando da sua troca partidária e da sua oficialização pelo PL, ele recusou a ‘direita líquida’ e a coreografia dos oportunistas que posam com o governador ‘esquerdista (SQN)’ Eduardo Leite pela manhã e compartilham vídeos de Nikolas Ferreira à tarde. Preferiu fincar raízes, atuar como ex-segurança de Jair Bolsonaro, manter a coerência nacional e se converter no guardião da marca do “22” na cidade.
Ao decretar em suas redes que “candidato a deputado estadual aqui de nossa cidade, só tem um: Policial Evandro Coruja (…) o resto é fake news e gambiarra”, Coruja demarcou seu território e travou o avanço de concorrentes que tentavam surfar a onda sem pagar o custo político da identidade ideológica.
O valor político dos 8.155 votos conquistados por Coruja em Gravataí ganha relevância quando colocados sob a régua da ‘ideologia dos números’ em relação aos seus colegas de base governista: ele recebeu 8.155 votos em Gravataí (6,18%); Bombeiro Batista (Republicanos), 10.183 votos em Gravataí (7,72%), também para AL; e Dr. Levi Melo (Podemos), para federal, 12.215 votos em Gravataí (9,36%).
A diferença é considerável: enquanto a dobradinha informal entre Dr. Levi e Bombeiro Batista operou com a musculatura pesada da máquina pública municipal — comandando pastas de orçamentos bilionários como a Secretaria de Saúde e detendo metade dos Cargos em Comissão (CCs) do governo Zaffa —, Coruja foi para o teste das urnas com um fundo eleitoral nada desprezível, mas sem a mesma estrutura administrativa ou padrinhos no primeiro escalão municipal. E consolidou uma base eleitoral profundamente ideologizada e planificada.
O impasse do ‘alinhamento de arminhas’
O resultado eleitoral coloca Policial Evandro Coruja diretamente no radar dos prefeituráveis do PL para 2028, seja para encabeçar uma chapa puramente ‘raiz’ ou figurar como candidato a vice-prefeito em uma composição de direita.
O PL local, porém, abriga duas almas: de um lado, o radicalismo instagramável e performático de Coruja; de outro, a ala ‘limpinha’ e institucional representada por Evandro Soares — ex-secretário de Governança e Comunicação do governo Zaffa e articulador de bastidor que saiu vitorioso nacionalmente como coordenador no RS das campanhas de Luciano Zucco, Ubiratan Sanderson e do próprio Flávio Bolsonaro.
Resta saber como Coruja irá se comportar no ciclo que se abre no Centro Administrativo. Se confirmada a eleição de Flávio Bolsonaro à Presidência, Gravataí poderá vivenciar um verdadeiro ‘alinhamento de arminhas’, com o controle simultâneo da Prefeitura (Zaffa anunciou apoio a Flávio no segundo turno), do governo do Estado (Luciano Zucco), do Palácio do Planalto e do Congresso Nacional por deputados e senadores aliados do mesmo espectro.
Diante do racha e da severa crise fiscal enfrentada pelo município, caberá a pergunta: Coruja sairá da bolha do discurso radicalizado e da lacração das redes antissociais para fazer uma defesa mais contundente do governo Zaffa e de eventuais pautas fiscais impopulares? Afinal, em um cenário sem o PT no governo federal, desvanece o ‘vilão perfeito’ para canalizar descontentamentos nas redes, exigindo que os aliados da base assumam a paternidade da gestão local e não deixem apenas sobre o prefeito a carcaça do ‘Zaffa Mãos de Tesoura’.
Ao fim, a apuração das urnas em 2026 provou que o DNA de Gravataí permanece profundamente conservador — com vitórias expressivas de Flávio Bolsonaro (55,91%), Luciano Zucco (59,57%) e da dobradinha Sanderson e van Hattem ao Senado.
Nesse ecossistema, a candidatura de Policial Evandro Coruja mostrou que há um ‘bolsonarismo-raiz’ de alta densidade no município. Ele não obteve a vaga na Assembleia Legislativa, mas conquistou a garantia de que, quando a direita sentar à mesa para definir os rumos de Gravataí rumo a 2028, o seu carimbo — mesmo no extremo destro da ferradura ideológica — será indispensável.
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