RAFAEL MARTINELLI

#DasUrnas | Bombeiro não foi mal, mas também não foi bem — e sai com ‘xis na testa’ para 2027 e 2028 em Gravataí

Bombeiro, na Brasília amarela da campanha, ao lado de Levi, com quem engrenou dobradinha na reta final da eleição

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A política — venho repetindo nesta coluna, cazuzianamente, nas análises do #DasUrnas do Seguinte: sobre a eleição de 2026 — é um museu de grandes novidades. Terminado o fechar das urnas do domingo (4), quando a poeira baixa e os atores políticos de Gravataí e além começam a “contar as garrafinhas”, a eleição, como o tempo, não para, e a matemática eleitoral se impõe. E o desempenho de Bombeiro Batista (Republicanos) na disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa enquadra-se com perfeição naquele pragmatismo em que os números não mentem, ainda que incomodem: Bombeiro não fez uma votação ruim, mas também esteve longe de fazer uma eleição boa. O resultado das urnas o deixa, incontestavelmente, com um indigesto ‘xis na testa’ gravado para a sequência do mandato, para a sucessão da Prefeitura em 2028 e até para a Mesa Diretora da Câmara de Vereadores de 2027.

Não dá para classificar sua performance como um desastre completo. Afinal, o vereador mais votado de Gravataí por duas eleições consecutivas (2020 e 2024) provou que mantém um patamar sólido. Conseguiu cruzar a marca simbólica dos 10 mil votos dentro da cidade (somou 10.183 votos válidos, equivalente a 7,72%). Além disso, quando analisado o cenário estadual, Bombeiro expandiu, mesmo que timidamente, suas fronteiras: passou dos 12.756 votos que obteve em 2022 (quando disputou para deputado federal pelo PSD) para 13.652 votos em 2026 pelo Republicanos — um crescimento de 7,02% (+896 votos) no Rio Grande do Sul.

Porém, como já escrevi em maio quando cobri o lançamento da sua pré-candidatura no CTG Aldeia dos Anjos e em julho por ocasião da convenção, a ‘ideologia dos números’ é implacável. Se por um lado ele asfaltou alguma votação em BRs e RSs fora da Aldeia, dentro do seu reduto a água do reservatório baixou. E isso é incêndio. Mesmo disputando um cargo proporcional de piso bem mais acessível (estadual e não federal), Bombeiro perdeu 775 votos na cidade em relação a 2022 (-7,07%), caindo de 10.958 para 10.183 votos locais. Em Gravataí, assistiu à sua candidatura ficar apenas em 4º lugar na corrida pela Assembleia, engolido pela votação do eleito Dimas Costa (21.053), do sem mandato Thiago De Leon (12.868) e pelo peso residual do ex-prefeito Marco Alba (12.462).

Os números da eleição estão em #DasUrnas | Veja os números locais: Raio-X da eleição consagra Dimas Costa como o único eleito por Gravataí — e a Prefeitura em 2028.

Se o leitor recordar do que analisei antes das urnas, a chancela de Bombeiro à Assembleia era o seu verdadeiro “teste de fogo”. Ele abandonou o conforto da sua comunidade, a Neópolis — carinhosamente apelidada por Cláudio Ávila de ‘Bombeirolândia’ —, para tentar provar que seu capital eleitoral ultrapassava a presença obsessiva no bairro.

O problema é que a Realpolitik cobrou um preço alto por essa aventura. Bombeiro começou como a candidatura “patinho feio” da base governista do prefeito Luiz Zaffalon (PSD). Zaffa tinha preferências publicizadas: Dimas Costa para estadual e Juvir Costella (MDB) para federal. Mesmo assim, Bombeiro bancou sua postulação, formando uma dobradinha informal com o vice-prefeito Dr. Levi Melo (Podemos) que o tornou um patinho mais bonito, operando com boa parte da musculatura da máquina municipal e de secretarias de peso, como a Saúde.

Na tese que circulava nos bastidores e que o próprio Dimas Costa reforçou em entrevista exclusiva concedida a este colunista no Seguinte: nesta terça-feira (assista em #DasUrnas | Dimas sem cortes: “Sou deputado, não candidato a prefeito”; A primeira entrevista do único eleito por Gravataí — assista na íntegra), a movimentação de Bombeiro e Levi foi vista não como um projeto viável de eleição, mas como uma tentativa de travar e sabotar a eleição de Dimas. Foi disparo contra o Sol: Dimas sagrou-se o único deputado estadual eleito por Gravataí, consagrado com mais de 42 mil votos no RS, enquanto o grupo de Levi e Bombeiro colheu suplências e um inegável desgaste político. Afinal, o governo Zaffa poderia ter restado sem deputado para enfrentar os próximos dois difíceis anos de gestão.

Ao insistir na candidatura contra os conselhos de lideranças mais experientes, Bombeiro ajudou a escancarar o racha no governo Zaffa, dividindo a base entre o grupo de Dimas, Davi Severgnini e vereadores aliados de um lado, e o grupo de Levi e Bombeiro de outro. Zaffa agora equilibra a xícara em uma bandeja governamental rachada em meio a uma severa crise fiscal — o que já analisei em #DasUrnas | Candidatos a deputado de Zaffa foram eleitos — e o desafio de manter o café quente com a bandeja do governo rachada em Gravataí.

Restaram Levi e Bombeiro, ao menos na tese de Dimas e Davi, como na frase de Camila Maccari, em “Dias de se fazer silêncio”: “Às vezes a gente não quer tanto uma coisa que chega a esquecer as coisas que a gente quer”.

O ‘xis na testa’: 2027 e 2028 no horizonte

As sequelas eleitorais para Bombeiro Batista já começam a aparecer no radar de curto e médio prazo.

A presidência da Câmara em 2027 está sob risco: Havia um acordo de bastidor entre os vereadores governistas para que Bombeiro assumisse a presidência do Legislativo municipal no próximo ano. Porém, a vitória resiliente de Dimas Costa agora é gasolina. Dimas já avisou, na entrevista ao Seguinte:, que “observa” de perto a eleição da Mesa em dezembro. Ele conta com a proximidade de sete a nove vereadores em seu entorno. A justificativa representa a política em toda sua crueza, mesmo ainda não explicitada: se Bombeiro e seu grupo operaram contra a eleição do candidato do governo que tinha mais chances de vencer (candidato esse que aderiu à campanha da reeleição — desistindo de uma candidatura viável a prefeito em 2024 — a partir de um compromisso de apoio na eleição à AL em 2026), não há compromisso ético do grupo vitorioso em dar a caneta da Câmara a quem tentou sabotá-lo.

Há, ainda, algo natural de derrotas nas urnas: o rebaixamento na sucessão de 2028: Para a disputa da Prefeitura em 2028, a performance colocou Bombeiro em uma espécie de “série B” do debate de lideranças. Se antes o vereador mais votado da cidade podia pleitear espaço de destaque em uma chapa majoritária (como vice ou até pré-candidato a prefeito), hoje ele perdeu tração e poder de barganha frente a nomes que saíram fortalecidos das urnas.

Ao fim, no evento de lançamento da sua pré-candidatura, em maio, um vídeo familiar trazia o depoimento do filho de Bombeiro lembrando uma lição de casa: “o pai me ensinou a saber perder”; analisei em O teste de fogo de Bombeiro Batista: a lição do lançamento, em Gravataí, da pré-candidatura do ‘azarão’ a deputado estadual.

Perder, em política, não precisa ser o fim da linha; pode ser etapa de construção. Bombeiro Batista provou que não é um cadáver político — resta vivo, mantém seus 10 mil eleitores fiéis em Gravataí. Contudo, ao arriscar seu tamanho e testar seu caminhão de bombeiro além dos limites da Aldeia, gastou combustível, não evitou a vitória de seus desafetos e agora terá que gastar muita água política para apagar os incêndios e recalcular a rota se quiser sobreviver com relevância no ecossistema do poder local.


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