“O pai me ensinou a saber perder”.
O recorte da fala do filho de Bombeiro Batista (Republicanos) em vídeo exibido na festa de aniversário e lançamento da pré-candidatura à Assembleia Legislativa ajuda a analisar o momento vivido pelo político no CTG Aldeia dos Anjos na noite desta sexta-feira (29). Sem torcida ou secação.
Bombeiro pode ser eleito deputado estadual. Seria um erro subestimá-lo. Seu partido não exige tantos votos que outras siglas de candidatos locais, como o MDB do ex-prefeito Marco Alba ou o PSD do ex-deputado Dimas Costa.
Mas a ‘ideologia dos números’ ainda o coloca como azarão — não?.
Principalmente porque sua força eleitoral é concentrada. Em Gravataí, Bombeiro performa muito bem. Fora dela, ainda precisa construir trechos por BRs e RSs. E é justamente por isso que a lição dada ao filho serve para ele próprio.
Depois de duas eleições como vereador mais votado, Bombeiro abandona a zona de conforto e se aventura numa disputa muito maior com alguma chance. Ainda assim, menos como uma campanha eleitoral e mais como parte de uma construção política.
A primeira conclusão da noite é que ele tem base. O CTG Aldeia dos Anjos não estava com a superlotação das grandes festas dos políticos famosos. Mas estava cheio. E isso importa.
O Aldeia é, há anos, o palco onde os políticos de Gravataí medem forças. Quem lota o Aldeia envia um recado. Quem não lota recebe outro. Bombeiro enviou o seu.
Se a eleição terminar em vitória, tudo vira festa. Se terminar em derrota, caberá ao candidato explicar aos eleitores e apoiadores aquilo que ensinou ao filho: é preciso saber perder. E perder, em política, também pode ser parte da construção.
Bombeiro continua sendo aquilo que já defini anteriormente como a candidatura ‘patinho feio’ do governo Luiz Zaffalon. O candidato preferencial do prefeito é Dimas Costa. Zaffa e Dimas são do PSD do governador Eduardo Leite.
Zaffa esteve no evento desta sexta, cumprimentou Bombeiro, circulou pelo salão, mas não permaneceu para os discursos. Algo isso comunica, tenha o prefeito pretendido ou não.
Equilibra um pouco essa condição o fato de o vice-prefeito Dr. Levi Melo (Podemos) ser uma das dobradinhas eleitorais de Bombeiro. Mas Levi estava ali na festa ao lado de outro compromisso de Bombeiro, o deputado federal Carlos Gomes, presidente estadual da legenda e apoiado pelo seu vereador e também pastor evangélico Fábio Ávila.
Outro protagonista da noite foi o vereador Carlos Fonseca, hoje no Podemos, mas apontado nos bastidores como possível futuro integrante do Republicanos.
Nas ‘bets políticas’, Fonseca é cotado como o indicado de Bombeiro para ser o próximo presidente da Câmara. Confiariam eles no acordo da base governista, que hoje tem maioria, e garantiria o próximo ano de gestão para o Republicanos.
Crente, Fonseca traduziu o momento político citando Eclesiastes 3:1: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu”.
Depois acrescentou, sob o olhar de Régis Fonseca, secretário mais longevo da Saúde de Gravataí e ‘número 1’ de Levi: “Há o tempo das novas lideranças políticas”.
Talvez tenha sido a melhor definição das ambições da noite. Porque o evento foi menos sobre um deputado e mais sobre alguém tentando se tornar um.
Todos os discursos seguiram a mesma linha. Falaram do homem trabalhador. Do político popular. Da dedicação quase obsessiva ao mandato. O próprio Bombeiro lembrou ter entrado na política “pela sua rua, pelo seu bairro”.
E seu bairro continua sendo seu principal ativo político. Na Neópolis, onde construiu sua trajetória, costuma-se brincar que existe a “Bombeirolândia” — expressão criada pelo vereador Cláudio Ávila (Avante), que passou pelo evento assim como os colegas Roger Correa (PP) e Hiago Pacheco (PP). É dali que nasce sua força eleitoral e é dali que ele tenta expandi-la para o restante do Estado.


O ‘sabor deputado’
Durante a exibição de um vídeo da família, com depoimentos do pai, da mãe e dos filhos, Bombeiro chorou. Não foi forçado, testemunho. Ele estava muito emocionado. O pai, recentemente hospitalizado, apareceu nas imagens. A mãe falou da trajetória do filho. Os familiares relataram ausências, renúncias e sacrifícios.
Seu discurso durou menos de cinco minutos. Agradeceu à família por suportar sua ausência. Agradeceu aos apoiadores. Chamou a política de seu propósito de vida. Mas não falou praticamente nada de política.
Nenhuma proposta ou lista de feitos, mas também nenhum ataque. Nenhum slogan. Nenhum adversário. Foi um discurso sobre “obrigado”.
Talvez por isso Ronaldo Nogueira, outro deputado federal de seu partido que estava no palanque, tenha recorrido a mais um trecho bíblico ao comentar a emoção do vereador: “Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus feixes”.
Como o segredo de aborrecer é dizer tudo, não posso esquecer de lembrar da política-política. E da famigerada ‘polarização’ nacional.
Como analogia, vou usar a presença de As Branquelas, dupla gaúcha que hoje circula com facilidade pelos algoritmos das redes sociais, e na festa ajudou a cantar parabéns. É daquelas atrações instagramáveis que produzem vídeos, curtidas e compartilhamentos.
Já critiquei algumas vezes esse tipo de estratégia quando adotada por Bombeiro. Mas ela faz parte da política contemporânea. É difícil contrapor o milagre posto de que nas campanhas é preciso primeiro viralizar para depois convencer.
Uso hoje o divertido da festa para atestar silêncios.
Em artigos anteriores observei que Bombeiro se associou a Flávio Bolsonaro (PL) quando ele era quase que um ‘pré-presidente’. Participou de eventos, aproximou-se do projeto e buscou associação política. Naquela época, a imagem fazia sentido eleitoral. Mas a política muda mais rápido que o minuto de áudio do 01 com o mafioso Dom Vorcaro.
No evento que em Gravataí reuniu mais de mil pessoas, segundo os organizadores, ninguém falou o nome Bolsonaro. Ninguém falou o nome Zucco. Ninguém falou o nome Sanderson. E nenhum deles apareceu na festa bem organizada na quarta economia gaúcha. Como ensinava o Millôr, ausentes são mortos temporários.
Ao fim, reputo hoje Bombeiro Batista arriscou seu tamanho. Seus ganhos e danos potenciais.
Era perceptível no rosto dele e dos assessores mais próximos a tensão antes do evento começar. O medo de algo dar errado. A preocupação com cada detalhe. Não era apenas uma festa. Era um começo.
Ah, mas o Bombeiro já concorreu a deputado federal em 2022 e fez em Gravataí 10.958 votos! Ok. Mas precisaria fazer à época 10 vezes mais. Agora a aventura tem, ao menos, ‘sabor deputado’.






