RAFAEL MARTINELLI

Comissão de ética da Câmara de Gravataí congela análise do Caso Clebes até conclusão da investigação policial

A comissão de ética da Câmara de Gravataí deliberou por suspender a análise sobre eventual abertura de procedimento ético-disciplinar contra o vereador Clebes Mendes (PSDB) até a conclusão do inquérito policial que investiga o parlamentar por suposto estupro de vulnerável sob ameaça.

O Seguinte: apurou o resultado da reunião realizada a portas fechadas nesta quinta-feira. Nesta sexta, após contato da coluna, o presidente da comissão, Roger Correa (PP), confirmou oficialmente a decisão em nota.

Além de Roger, integram a comissão Alex Peixe (PSDB), Anna Beatriz da Silva (PSD), Áureo Tedesco (MDB), Bombeiro Batista (Republicanos), Cláudio Ávila (Avante) e Vitalina Gonçalves (PT).

Os votos na reunião fechada ainda são um mistério.

Na manifestação oficial, a comissão afirma que decidiu “suspender os trabalhos e a análise acerca da eventual instauração de procedimento ético-disciplinar” para aguardar “a conclusão das apurações conduzidas pelas autoridades competentes”, incluindo o inquérito policial, eventual manifestação do Ministério Público e o surgimento de fatos novos.

A nota sustenta que a medida busca assegurar “legalidade, imparcialidade e responsabilidade institucional”.

Roger chegou a procurar a delegada responsável pelo caso, mas ouviu que a investigação segue sob segredo de justiça.

O presidente da Câmara, Dilamar Soares (Podemos), o Dila, disse ao Seguinte: que cumpriu seu papel institucional ao encaminhar regimentalmente o caso e que “a comissão tem legitimidade para tomar qualquer decisão”.

Traduzindo a decisão: a comissão não arquivou o caso, mas também não abriu processo. Optou por deixar a análise em suspensão.

É uma saída política que reduz desgaste imediato e empurra o centro da decisão para fora do Legislativo.

Procurado pelo Seguinte:, Clebes afirmou que ainda não recebeu comunicação oficial do Legislativo, mas disse ter sido informado por colegas de que o processo “não seguirá seu curso neste momento”.

Em nota, voltou a sustentar inocência, alegando ausência de provas no inquérito, e disse ter certeza de que sua “idoneidade” será comprovada ao longo da investigação. Também elogiou os integrantes do colégio de líderes, dizendo que a decisão foi tomada de forma “imparcial, coerente e sem contaminação por fatores políticos ou ideológicos”.

O Caso Clebes começou no terreno policial e rapidamente atravessou a porta da política. No dia 7 de abril, a Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão no gabinete e na casa do vereador. A investigação corre sob segredo de justiça. Foram apreendidos um telefone celular e uma arma de fogo.

A delegada Amanda Andrade, titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), respondeu inicialmente ao Seguinte: que não comentaria investigações em andamento. Depois, informações atribuídas à delegada passaram a circular em boletins de veículos do Grupo RBS indicando que o inquérito apura um caso de estupro.

O registro policial que originou a investigação foi feito em 5 de março. Segundo a ocorrência, à qual o Seguinte: teve acesso e divulgou trechos que não expusessem a vítima, a denúncia partiu da mãe de uma adolescente de 15 anos.

Ela relata que a filha conheceu Clebes Mendes pelo Instagram e que os dois passaram a manter contato. Conforme o documento, o vereador teria buscado a adolescente em uma caminhonete e, durante o trajeto até uma atividade esportiva, teria ocorrido abuso sob ameaça com arma de fogo.

O relato menciona ainda supostas intimidações associadas à condição de “famoso e político” do vereador e descreve consequências psicológicas atribuídas ao episódio, como tentativa de suicídio, automutilação, abandono esportivo e prejuízo escolar.

A adolescente foi encaminhada a serviços de atendimento e proteção, incluindo CAPS, CREAS e o Centro de Referência às Vítimas de Violência Sexual. Após o registro da ocorrência, houve encaminhamento ao Departamento Médico-Legal do IGP para exames periciais. O material passou a embasar a investigação conduzida pela DEAM.

Segundo informações divulgadas posteriormente e atribuídas à delegada Amanda Andrade, a vítima teria solicitado medida protetiva, e a arma apreendida na casa do vereador seria compatível com o relato apresentado pela adolescente — um dos elementos que sustentaram a autorização judicial para as buscas.

O celular apreendido também é alvo de perícia.

Desde o início, Clebes e sua defesa negam as acusações. Na tribuna da Câmara, o vereador afirmou inocência e chegou a dizer que “o papel aceita tudo”.

O primeiro advogado a representar Clebes, Demétrius Barreto, sustentou logo após a operação que o caso se tratava de “denunciação caluniosa”, afirmou que a defesa não tinha acesso integral aos autos e disse que adotaria medidas judiciais em relação a vazamentos envolvendo a investigação.

Agora, o novo advogado, Luiz Fernando Rodrigues, que é presidente da OAB em Gravataí, já teve acesso ao inquérito.

O pé na porta político

O caso ganhou dimensão institucional no dia 10 de abril, quando Dila encaminhou formalmente a situação à comissão de ética. O presidente da Câmara listou os fatores que pesaram na decisão: manifestação da Procuradoria da Mulher do Legislativo, questionamento formal do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, nota do Conselho Tutelar criticando a condução do debate na tribuna e o impacto público das reportagens sobre o caso.

O movimento, porém, nunca significou abertura automática de processo. Pelo regimento, cabia ao colégio de líderes decidir se havia elementos para instaurar investigação disciplinar por possível quebra de decoro parlamentar.

Naquele momento, Clebes pediu licença não remunerada por 14 dias, alegando necessidade de preservar a própria imagem, a da Câmara e a saúde mental da família. O afastamento funcionou como uma espécie de amortecedor político.

Durante esse período, a Câmara não avançou formalmente sobre o mérito do caso. E mesmo após o retorno do vereador, o cenário que antecipei era justamente o confirmado agora: esperar. Está lá, no artigo do dia 3, Caso Clebes: de volta ao cargo, vereador enfrenta comissão de ética que pode não agir — ainda; entenda.

Há uma tensão institucional evidente nessa escolha. A comissão de ética não julga crime. Seu objeto não é condenação penal. O foco é o decoro parlamentar — a compatibilidade entre a conduta atribuída a um vereador e o exercício do cargo.

Ao optar por aguardar o andamento do inquérito antes mesmo de decidir sobre a abertura de procedimento, a Câmara condiciona a reação política a um eventual avanço jurídico.

É uma escolha possível. Mas também é uma escolha que desloca a responsabilidade do tempo político para a velocidade da investigação criminal. Na prática, o Legislativo evita assumir agora o custo de uma decisão definitiva.

Nem absolve politicamente, nem confronta diretamente o caso: administra. O tempo, neste tipo de crise, raramente é neutro. Ele reorganiza pressões, esfria o impacto público e altera o ambiente político.

Se houver indiciamento, o cenário muda. Se o inquérito não produzir avanço perceptível, a Câmara terá de decidir, mais adiante, se retoma o caso ou se deixa que ele se dissolva no desgaste natural da pauta pública.

Por ora, a decisão da comissão de ética produz um estado intermediário: o Caso Clebes permanece vivo institucionalmente, mas congelado politicamente.

Ao fim, como já escrevi anteriormente: não sou policial, promotor ou juiz — e nem vereador. Resta aguardar as investigações. A presunção de inocência é consagrada constitucionalmente.


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