A volta de Clebes Mendes (PSDB) à Câmara de Gravataí não destrava o caso em que é investigado por suposto abuso sexual de vulnerável — apenas muda o cenário. O movimento institucional, que até aqui era de inércia formal, começa a ganhar forma, mas não necessariamente direção.
Vinte dias depois de o caso chegar à Comissão de Ética, o colégio de líderes finalmente se reuniu. E o primeiro gesto foi interno: a eleição de Roger Correa (PP) para a presidência do colegiado. A engrenagem foi montada. Falta decidir se será acionada.
O rito, que até então existia apenas no papel — como descrito na reportagem publicada pelo Seguinte: Caso Clebes segue sem análise na comissão de ética enquanto licença chega ao fim em Gravataí — agora entra na fase em que política e cálculo caminham juntos. A Comissão tem até 90 dias, caso abra processo, para concluir uma análise que pode ir de advertência até a recomendação de cassação ao plenário.
Mas, nos bastidores, o movimento mais provável não é o avanço. É a espera.
Clebes reassumiu o mandato após 14 dias de licença não remunerada — um afastamento que funcionou como zona de amortecimento. Enquanto ele estava fora, a Câmara não decidiu. Agora que voltou, a tendência segue a mesma: não decidir de imediato.
Segundo apuração do Seguinte:, a Comissão de Ética deve optar por manter o caso em suspenso. Não arquiva — o que seria um gesto político forte —, mas também não abre processo. Aguarda.
A lógica é simples, ainda que controversa: esperar o desfecho, ou ao menos um avanço, da investigação policial. Se houver indiciamento, aí sim, o gatilho institucional seria acionado.
O caso segue estruturado em três camadas, como já se desenhava: a investigação policial, sob sigilo, que apura denúncia de estupro de vulnerável; a esfera política, que depende de decisão do colégio de líderes; e o plano institucional, que só existe formalmente se houver abertura de processo.
Até aqui, apenas o primeiro avançou.
A Polícia Civil já cumpriu mandados, colheu elementos, estruturou um inquérito. A Câmara, por sua vez, demorou a dar o primeiro passo — e, quando deu, foi para organizar a própria Comissão.
A escolha de aguardar o andamento policial desloca o centro da decisão para fora do Legislativo. Na prática, a Câmara terceiriza o timing da própria reação.
Julgar conduta ou esperar o crime
Há uma tensão embutida nessa escolha.
A Comissão de Ética não julga crime. Nunca julgou. Seu objeto é o decoro — a compatibilidade entre a conduta de um vereador e o cargo que ocupa.
Ao decidir esperar o avanço policial, o Legislativo, na prática, condiciona a análise política a um eventual marco jurídico.
É um caminho possível. Mas não é o único previsto pelo regimento.
Quando o presidente da Câmara, Dilamar Soares (Podemos), o Dila, encaminhou o caso à Comissão, o fez pressionado por uma soma de fatores institucionais: manifestações de órgãos, repercussão pública, gravidade da denúncia.
Cumpriu o rito.
A partir dali, o processo entrou em um limbo que agora ganha contorno: não é mais inércia total, mas tampouco é ação.
É um estado intermediário — uma espécie de suspensão assistida.O que vem agora.
Formalmente, a Comissão de Ética está constituída e apta a deliberar. Politicamente, a tendência é ganhar tempo. E o tempo, neste caso, não é neutro. Ele reorganiza pressões, esfria o debate público e desloca o foco para o andamento do inquérito.
Se houver indiciamento, o cenário muda. Se não houver, a Câmara terá que decidir se retoma o caso — ou se deixa que ele se dissolva na ausência de fato novo.
Por ora, a volta de Clebes não resolve o impasse. Apenas o recoloca dentro dele.
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