A vereadora que aprendeu cedo a lidar com o impopular — dizer “não” a quem quer se livrar de um animal — agora mede o peso de um “sim”. A ‘vereadora da causa animal’ de Gravataí, Márcia Becker (PSDB), foi convidada pelo partido a disputar uma vaga na Câmara dos Deputados.
Márcia confirmou ao Seguinte: que estuda a proposta. O convite veio em reunião no gabinete do presidente estadual tucano, Moisés Barboza, na Câmara de Porto Alegre. O movimento é tratado como estratégico: lançar uma candidatura “de causa”, com identidade consolidada, num cenário em que Gravataí já tem duas pré-candidaturas colocadas — o vice-prefeito Dr. Levi Melo (Podemos) e a deputada estadual Patrícia Alba (MDB).
Assim como Dr. Levi, Márcia integra a base de apoio do prefeito Luiz Zaffalon (PSD). Sua dobradinha eleitoral será com Dimas Costa (PSD), pré-candidato a deputado estadual.
Mas, diferente de candidaturas que nascem prontas, a de Márcia — se vier — será construída em público. Ela foi às redes sociais pedir opinião:
“Recebi um convite que me deixou profundamente honrada: ser pré-candidata a deputada federal pela causa animal pelo PSDB. […] Não é uma decisão simples, é um compromisso grande com uma luta que já faz parte da minha vida. Agora é momento de refletir, me estruturar e ouvir vocês.”
A consulta aos seguidores não é marketing vazio. É método. Quem acompanha sua trajetória sabe: a política de Márcia não se faz apenas no plenário, mas no pátio de casa, onde abriga mais de 300 animais, e na linha tênue entre o aplauso e o ataque — muitas vezes pelo mesmo motivo.
Dos Grandes Lances dos Piores Momentos, seria a candidata que pode perder votos por fazer o que promete.
Na minha reportagem sobre a reeleição da vereadora, em 2024, já estava dado o paradoxo que agora acompanha esse convite: a causa animal mobiliza, mas também cobra — e pune.
Márcia foi reeleita com 2.102 votos, 471 a menos que em 2020. Não por falta de trabalho. Pelo contrário. Foi uma das vozes mais constantes em políticas públicas de bem-estar animal, ajudando a consolidar uma estrutura que hoje inclui milhares de castrações mensais, resgates e uma das maiores clínicas públicas do país.
Também bancou pautas espinhosas, como a proibição de carroças com exploração animal e restrições a fogos com estampido. É odiada por setores do gigante tradicionalismo de Gravataí pela fiscalização que faz a cada Rodeio do Mercosul. Já foi sócia de ação judicial sobre supostos maus-tratos em rodeios. Ajudou a barrar um event do gênero, inclusive.
Mas a conta política não fecha de forma automática. Quem resgata um animal por dia não consegue atender cem pedidos. E cada pedido negado vira, potencialmente, um voto perdido.
É esse o ativo e o risco.
– Precisamos que os animais sejam tratados como pauta sempre, continuamente, não só em ano de eleição – diz a ativista da causa animal.
Há ainda um elemento simbólico e familiar nessa possível candidatura. Em 2006, seu pai, o empresário Décio Becker, então vice-prefeito de Gravataí, recebeu 28.908 votos para deputado federal, mas não se elegeu. Duas décadas depois, a filha pode retomar a tentativa, agora com outra marca: não a do empresariado, mas a de uma causa.
Se aceitar, Márcia não entrará numa disputa tradicional por espaço político. Entrará numa eleição onde terá que traduzir resgates, leis e militância em votos num eleitorado mais amplo — e menos paciente com as contradições da causa animal.
Porque, como escrevi à época, e segue atual: são os humanos, não os animais, que votam.
E humanos, como sabemos, nem sempre gostam de ouvir “não”.
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