“A verdade e a mentira não podem ser separadas enquanto não soubermos tudo”.
— José Luandino Vieira, escritor moçambicano
E sabemos de tudo. A vacinação parou uma pandemia que ceifou 716 mil vidas no Brasil. Funestamente, aproveitando o esmorecer do tempo, negacionistas faturam em seus votos, cliques e monetização ao ressuscitar dúvidas sobre a covid-19. Mas, percebam, o negacionismo climático já resta no privado das redes antissociais. Com uma parte do mundo sob águas e ventos, e outra ardendo em fogo, restou impossível enfrentar os fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos. A crise climática é uma realidade.
Quando se anunciou o Super El Niño, houve quem falou em terrorismo. Na primeira previsão que não se confirmou na integralidade, já veio descrença. Logo derrubada pela força de uma natureza indignada. O Super El Niño está aí. A MetSul, por exemplo, que desde a tragédia da enchente de 2024 uso como consulta diária, logo ao acordar, acertou absolutamente tudo. É o ‘novo normal’. Que já estava sendo apagado pelo tempo, no pós-enchente de 2024, com muita coisa deixada para amanhã ou adiada pelo habeas corpus da burocracia que ‘sempre foi assim’. Mesmo seja o ser humano a única espécie capaz de, frente a um fato, negá-lo.
Na noite desta quinta-feira (6), a força desse novo normal voltou a se materializar. A intensa linha de instabilidade associada a um ciclone extratropical atravessou o Rio Grande do Sul e deixou um rastro de vento extremamente forte. O vento na região do aeroporto Salgado Filho chegou a impressionantes 120 km/h — algo nunca registrado em décadas de observação —, enquanto a maior rajada no Estado atingiu 132 km/h no Clube Jangadeiros, na Zona Sul da Capital.
Na região, Canoas sofreu a fração mais violenta da tempestade. Com ventos que superaram os 100 km/h (com picos instrumentais de até 113 km/h registrados pela MetSul) e chuva de até 18,2 mm em pontos isolados, a Defesa Civil Municipal e a Secretaria de Resiliência Climática desdobraram uma força-tarefa emergencial. Através do balanço oficial das 23h30, contabilizavam-se 42 residências parcialmente destelhadas (com distribuição imediata de lonas), 2 destelhamentos totais, 14 quedas de árvores — incluindo uma atingida diretamente por um raio —, queda de muro e de poste. Apesar do susto e dos estragos em bairros diversos, não houve feridos nem necessidade de remoção de moradores para abrigos.
Em Gravataí, os estragos provocados pela ventania mobilizaram as equipes municipais e o Corpo de Bombeiros na desobstrução de vias estratégicas, como a ERS-020, além de intervenções nos bairros Girassol e São Vicente. A tempestade interrompeu o fornecimento de energia elétrica e de água em vários bairros, exigindo o envio emergencial de um caminhão-pipa para abastecer o Hospital Dom João Becker (HDJB) e assegurar os atendimentos de saúde. Na régua do Passo das Canoas, o Rio Gravataí marcava 4,30m (com cota de inundação em 4,75m) e no Caça e Pesca marcava 4,51m, subindo a 0,7cm/h (cota de 4,85m), exigindo monitoramento.
Em Cachoeirinha, o relatório da Defesa Civil registrou um impacto pontualmente menor, mas expressivo: 7 casas destelhadas, 1 residência parcialmente danificada, 4 quedas de vegetais, 2 vias obstruídas e diversos bairros sem luz devido a danos na rede da RGE.
Meteorologia: os dois tornados não serão os últimos — e a escala do Super El Niño
Conforme explica o meteorologista Luiz Fernando Nachtigall, da MetSul Meteorologia, a sucessão de eventos severos não é mera coincidência, mas fruto de uma dinâmica atmosférica profundamente alterada. Em análise divulgada nesta sexta-feira (7), Nachtigall comentou a ocorrência atípica de dois tornados em um intervalo de apenas dez dias no Rio Grande do Sul (o último confirmado em Pedro Osório).
O especialista da MetSul pondera que, embora o Sul do Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai formem uma das áreas de maior incidência de tempo severo no mundo — e a segunda maior em frequência de tornados fora da América do Norte —, ter dois tornados em dez dias foge completamente ao habitual. Nachtigall alerta que o fenômeno El Niño reforça o transporte de umidade da Amazônia, a atuação de frentes frias e sistemas de baixa pressão, criando ambientes propícios para supercélulas geradoras de granizo gigante, vendavais e tornados. E adverte: “Os dois tornados não serão os últimos deste ano”.
Além disso, projeções atualizadas pela MetSul Meteorologia, corroboradas pelo modelo europeu ECMWF e outros centros globais (como NOAA e Météo-France), indicam que o atual evento de Super El Niño 2026-2027 pode se tornar o mais intenso já registrado desde o início das medições modernas no século XIX. A anomalia na região Pacífico Niño 3.4 pode alcançar impressionantes +3,9°C em dezembro. Como alerta Nachtigall, as cheias recentes são apenas o começo: o período crítico de maior risco no Estado se estenderá de setembro a dezembro, com forte potencial de sobressaltos renovados na primavera, no verão e no outono de 2027.
Ao fim, confrontados pela frieza dos números e pela constância das tempestades, somos forçados a encarar a nossa própria omissão institucional. A burocracia tenta amortecer o choque com boletins e relatórios, mas o clima não aceita recursos ou liminares. Infelizmente, é como poetizou Paulo Leminski: “haja hoje para tanto ontem”.
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